Xu Congjun/EFE
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Disputa entre EUA e China pode mudar rotas comerciais

Empresas já estudam estratégias caso a guerra comercial entre EUA e China se concretize; analistas veem possibilidade de acordo

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2018 | 05h00

GENEBRA - Com centenas de produtos afetados pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, multinacionais, fornecedores e investidores começam a repensar suas estratégias de produção, com um potencial impacto no fluxo e até mesmo nas rotas do comércio internacional.

A China Eastern Airlines, por exemplo, deve reduzir a frequência de voos de carga entre aeroportos americanos e chineses. “Uma guerra comercial não é boa para nenhum dos países”, diz o presidente da empresa, Ma Xulun. A TCL Multimedia, maior produtora chinesa de televisores, vai rever planos de produção. Com 10% das vendas nos EUA, uma alternativa será mudar parte da produção para o México.

Na Organização Mundial do Comércio (OMC), um dos comentários mais repetidos por críticos da política protecionista de Donald Trump é que raramente medidas tarifárias podem ter sucesso numa era de produção globalizada, com uma cadeia produtiva ampla.

O exemplo mais usado é o do Vietnã, para onde dezenas de empresas chinesas se mudaram nos últimos anos em busca de mão de obra mais barata. O resultado é uma explosão do déficit americano com o país. Em 2017, foi de US$ 35 bilhões, três vezes maior que em 2011.

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Taiwan também teme sentir o impacto da disputa, já que 60% do PIB da ilha vêm das exportações, principalmente de peças para produtos chineses.

Para o Bank of America Merrill Lynch, o efeito dominó que a guerra comercial pode gerar coloca “as cadeias produtivas globais em risco”. Para o banco, Taiwan, Coreia do Sul e Malásia seriam as mais afetadas. Mas países como Polônia e México também podem sofrer.

Em Hong Kong, o secretário de Finanças, Paul Chan Mo-po, acredita que um a cada cinco empregos serão afetados pelas medidas americanas. No Oriente Médio, o temor é que os atritos comerciais resultem em demanda menor da China por energia. Investimentos sauditas de US$ 65 bilhões em refinarias no território chinês já estão sob análise. Mas há quem possa ganhar com a mudança na rota do comércio. A Ucrânia quer incrementar o fornecimento de milho para a China e a Austrália espera abocanhar o mercado de vinho e expandir vendas para Pequim, que já chegaram a US$ 848 milhões.

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Para a OMC e o FMI, não há perspectiva de que, mesmo com esses ganhos pontuais, a guerra comercial entre as duas potências possa ter vencedores. O diretor-geral da OMC, Roberto Azevedo, afirma que o risco é de que tal tendência leve o mundo a uma nova recessão.

Analistas veem o quadro com cautela, mas acreditam que é improvável haver de fato uma guerra comercial. “Temos visto muita retórica protecionista, mas no fim um acordo razoável entre os países deve prevalecer”, diz Ross Teverson, da Jupiter Asset Management. Segundo ele, já foi notado que o governo Trump costuma negociar a partir de uma posição extrema para ter mais margem de manobra e chegar a um acordo.

O economista Jianguang Shen, da Mizuho Securities, avalia que a melhor alternativa para os chineses é negociar. “Acho que a China quer realmente dialogar. Os dois lados provavelmente vão concordar em algo mais adiante.”

A Capital Economics avalia a resposta da China como “rápida e agressiva”. Para a consultoria, ainda há tempo para recuos antes que as tarifas entrem em vigor. As tarifas dos EUA precisam passar por consultas públicas de dois meses. Depois o país terá 180 dias para decidir quais delas adotará. A China, por sua vez, ainda não divulgou cronograma para retaliações./ COM DOW JONES NEWSWIRES E GABRIEL BUENO DA COSTA

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