Dissonância cognitiva

O século 21 será das cidades globais, inteligentes e criativas, mas o Brasil começou muito mal o novo século e está ficando fora desse futuro

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2017 | 05h00

Os aglomerados urbanos estão associados (para o bem e para o mal) ao processo civilizador, em seus avanços e retrocessos. O longo caminho da civilização permite vislumbrar as etapas da urbanização. O surgimento da agricultura fixou o homem à terra, superando o ciclo do caçador/coletor e criando os primeiros núcleos urbanos. Na Antiguidade, cidades passaram a ter um papel de centralidade, tanto em rituais religiosos quanto nas trocas entre grupamentos humanos, fomentando o comércio. Na Idade Média consolidou-se uma extensa e densa rede de cidades, que ampliou e fortaleceu as bases da Revolução Comercial. O alvorecer da Idade Moderna teve nas grandes navegações transoceânicas o suporte para a expansão do comércio em escala global.

O capital acumulado na Revolução Comercial e a inovação tecnológica da máquina a vapor propiciaram a Revolução Industrial. Surgiram as cidades fabris e as aglomerações industriais, com todos os grandes avanços na urbanização e as misérias descritas por Dickens e Marx. No século 19 e na primeira metade do século 20 se intensificou a industrialização e se consolidaram os sistemas de produção baseados na concentração espacial das unidades industriais e na integração dos processos produtivos. A configuração das grandes cidades obedeceu à lógica da produção industrial.

A Revolução Energética em fins do século 19, com o advento da eletricidade e do petróleo, alterou os padrões de crescimento das cidades, propiciando a ampliação dos tecidos urbanos, o adensamento industrial e a formação de megalópoles. Por fim, a Revolução Digital no final do século 20 fortaleceu e ampliou o alcance da comunicação, do comércio e da indústria globalizada. As aglomerações industriais perderam sentido, na medida em que o processo produtivo se descentralizou em escala mundial. Com a globalização, entraram em decadência cidades industriais e se fortaleceram as cidades pós-industriais, de serviços, entretenimento, inovação e cultura. 

O século 21 será dessas cidades globais, inteligentes e criativas. O Brasil começou muito mal o novo século e está ficando fora deste futuro. Suas grandes metrópoles estão em franca degradação, sem perspectivas definidas de se transformarem em metrópoles integradas ao circuito mundial, como aquelas que produzem e irradiam conhecimento, novas tecnologias e novas formas de produção. Ao contrário, ao que se assiste hoje nas metrópoles brasileiras é um ambiente desolador de decadência, degradação urbana e miséria humana. A crescente violência, a disseminação exponencial do uso de drogas e a falta de perspectivas de uma juventude marginalizada do conhecimento e da cultura fomentam um caldo de cultura para mais violência e descontrole. Em sentido inverso, promovem o retrocesso do processo civilizador. 

Tudo isso se deve, em grande medida, à absoluta dissonância do nosso mundo político em relação à complexa realidade econômica e social do País. Manifesta-se claramente o olhar reacionário de nossas elites políticas, econômicas e intelectuais, aferrados a interesses mesquinhos e a pensamentos retrógrados, diante das grandes transformações do novo século.

O quadro assustador de desemprego e aumento da pobreza desemboca fundamentalmente nas nossas metrópoles. É nelas que se concentram os efeitos da maior e mais prolongada crise econômica da história brasileira, cujos desdobramentos sociais e políticos são difíceis de prever. Situação lamentável, que se deve a uma conjunção perversa de inúmeras causas e componentes. Mas é seguro dizer que, ao longo dos últimos 15 anos, uma irresponsabilidade generalizada tomou conta dos que deveriam ser guardiães dos destinos da República. Sobre as nossas metrópoles recaiu o maior peso dessa irresponsabilidade, pela falta de investimentos básicos na educação, saúde pública e infraestruturas. 

Sem perspectivas e sem recursos, nossas metrópoles se afastam cada vez mais do seu papel civilizador e inovador. As nobres senadoras que almoçavam quentinhas na Mesa Diretora simbolizam bem a dissonância cognitiva dos políticos brasileiros...

*ECONOMISTA E CONSULTOR DE ENTIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS, É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS URBANOS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

 

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