Divergência ou convergência

Nos Estados Unidos, como no Brasil, o humor ajuda nos momentos de nervosismo

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 05h00

Mais uma vez os Estados Unidos foram assolados por disputas envolvendo classes, raça e antissemitismo, que ocorreram em Charlottesville, na Virgínia, no fim de semana passado. Esses problemas vinham caminhando para uma solução desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O Holocausto, a decisão unânime da Suprema Corte no processo Brown contra o Conselho de Educação em 1954, e a guerra contra a pobreza anunciada em 1964 foram importantes avanços.

Claro que o progresso foi mais lento do que se esperava. Divergências com relação às novas regras surgiram. Mas até a eleição inesperada de Donald Trump, há menos de um ano, a direção das mudanças parecia estabelecida. Agora não é tão segura. O tema subjacente do retorno ao passado, não à década de 70, mas aos anos 20, parece ter apoio de 30% a 40% da população insatisfeita com o engajamento político e econômico, o crescimento do governo federal e uma sociedade cada vez mais diversificada.

A maneira como o país enfrenta e procura resolver essas questões internacionais tem uma grande influência sobre o resto do mundo. Os Estados Unidos se retiraram do Acordo de Paris sobre o clima e encerraram sua participação na Parceria Transpacífica (TPP). Trump tem atacado verbalmente a Coreia do Norte e a Venezuela, fortalecendo com isso a posição dos líderes desses países. A todo o momento ele se autoglorifica, e seu comportamento é imprevisível.

No Brasil, a situação é distinta, mas não totalmente. Aqui o foco é na economia entorpecida, no sistema político e eleitoral que necessita de enormes mudanças e na independência do Judiciário.

Sinais de retomada da economia vêm se acumulando. Muitas previsões para 2017 e 2018 são otimistas. Mas a renda per capita no 200.º aniversário da independência do País, em 2022, não deverá ser muito diferente da registrada uma década antes. O Brasil necessita aumentar a poupança doméstica, muito baixa, e suas taxas de investimento devem ser maiores do que as atuais. A única maneira de conseguir isso é restringir o consumo interno, que foi motor de crescimento quando as condições propícias ao comércio de commodities impulsionaram a renda nacional na primeira década do século 21.

O Brasil tem procurado limitar a expansão dos gastos governamentais e aumentar impostos. Poucos países (se houve algum) estabeleceram emendas constitucionais para limitar o crescimento do setor público por um prazo de 20 anos. O objetivo é restaurar o superávit primário e reverter o endividamento público no futuro. Podemos acreditar de fato em tais regras, quando já foi necessário alterar as projeções iniciais e aumentar impostos?

Pelo contrário, os políticos se apressam agora para aumentar os recursos para as campanhas eleitorais, que substituirão as contribuições do caixa 2, e não devem alterar o complicado processo eleitoral que contribuiu para o número inacreditável de partidos políticos no País (35 atualmente). O Brasil detém o recorde mundial de partidos. E medidas com vistas a uma lista fechada, proporcional, um voto combinado distrital e estadual, são bastante improváveis.

O presidente Temer conseguiu se livrar de um processo por corrupção passiva. Agora pretende retomar os esforços para reformar a Previdência Social. As probabilidades de grandes mudanças, já reduzidas, vêm diminuindo à medida que a eleição se aproxima. Esse é um assunto muito importante, embora as consequências econômicas imediatas sejam limitadas.

Seu pequeno grupo de assessores não cessará de tentar limitar os poderes de um novo e ativo grupo de jovens procuradores para continuarem o seu eficiente trabalho, não só nas investigações da Lava Jato, mas além dela. Diante disso, os ricos conseguirão sempre adiar qualquer decisão judicial por uma década ou mais, mantendo-se fora da prisão.

Hoje a delação premiada tornou-se uma saída preferível aos longos anos de detenção. Como assegurar a independência do Judiciário é assunto importante. E também o é a eleição de um novo grupo de representantes, enquanto os mais velhos sejam forçados a se aposentar.

Nos Estados Unidos, como no Brasil, o humor ajuda nesses momentos de nervosismo. Temos Andy Borowitz, da New Yorker, que regularmente inventa notícias: “Uma nova pesquisa conclui que um número grande de americanos deixaria seu emprego, sua casa, e até a sua família para auxiliar o conselheiro especial (Robert Mueller)”.

No Brasil, temos o humor político, com suas muitas caricaturas, verbais e pictóricas.

Desta maneira, pelo menos as pessoas conseguem manter sua saúde mental. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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