Assine o Estadão
assine

Economia

Fortaleza

Dólar caro incentiva turismo nacional

Desejo por viagens domésticas é o mais alto em dez anos, diz Ministério do Turismo

0

Anna Carolina Papp,
O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2016 | 03h00

Com a disparada do dólar, o turismo nacional ganhou fôlego no último trimestre do ano passado e vem atraindo mais turistas na alta temporada de 2016. Apesar de a procura por destinos domésticos já ser predominante de dezembro a fevereiro, a alta da moeda americana, que avançou 54% em um ano, aumentou o interesse por viagens em solo brasileiro.

“Estamos com uma demanda de 70% por destinos locais e 30% para o exterior nessa temporada”, diz Marcos Balsamão, presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens de São Paulo. “Na temporada passada, essa proporção estava mais equilibrada: cerca de 50% nacional e 50% internacional.” Segundo a associação, entre os principais destinos estão as cidades do Nordeste – como Fortaleza, Maceió e Recife –, Florianópolis e o litoral paulista.

Segundo Boletim de Intenção de Viagem do Ministério do Turismo realizado em dezembro, o desejo de visitar destinos domésticos nos próximos seis meses foi o mais alto dos últimos dez anos para o mês. Entre os entrevistados, 86,4% afirmam ter preferência por destinos nacionais, ante 80,2% em dezembro de 2014.

Na CVC, a demanda de pacotes para viagens nacionais passou de 60% para 65%. “A nossa alta temporada já é muito forte no âmbito nacional, pois o brasileiro prefere calor”, afirma Emerson Belan, diretor de vendas da CVC. “Já nos preparando para essa temporada e levando em conta o momento que o Brasil atravessa, colocamos à disposição mais de mil voos fretados, 50% a mais do que na última temporada”, diz.

No Decolar.com, em 2015, 70% das reservas de hotéis foram para destinos domésticos, ante 65% no ano anterior. Fortaleza foi a cidade com mais buscas em dezembro. A desvalorização do real também atraiu mais turistas latino-americanos para o País, sobretudo os argentinos. Em janeiro, os vizinhos procuraram como destino o Rio de Janeiro, Florianópolis, Salvador, Búzios e Natal.

Na agência Stella Barros, houve um crescimento de 15% na venda de roteiros nacionais em relação ao início de 2015. Os destinos mais buscados para o verão foram resorts no Nordeste. A procura por destinos nas regiões Sudeste e Sul também cresceu, já que muitos brasileiros têm optado por economizar na passagem aérea e buscado opções em que possam se locomover de carro.

O desejo de aproveitar o fim de ano e as férias dentro do território nacional também pode ser observado nas escolhas de casas para alugar – modalidade que vem ganhando espaço nos últimos tempos. Na plataforma Airbnb, o número de reservas de brasileiros para destinos domésticos no Ano Novo cresceu 200% em relação ao ano passado. Já as reservas fora do País avançaram 60%.

“O potencial turístico do Brasil é muito absurdo, então o brasileiro está de descobrindo uma nova maneira de viajar que cabe no bolso dele”, afirma Leonardo Tristão. “Certamente a crise e a desvalorização do real contribuíram para isso.”

Troca. Com a retração econômica e a desvalorização do real, muitos brasileiros optaram por mudar o destino das férias. Pablo Resende, de 36 anos, planejava ir à Europa, num roteiro por Espanha, Portugal e Itália. “Por causa do euro, decidi fazer um cruzeiro pelo litoral brasileiro.” Apesar de a viagem ser cotada em dólar, ele consegui um câmbio congelado de R$ 2,99.

Com o cruzeiro e uma outra viagem pelo litoral, Pablo vai desembolsar por volta de R$ 3,5 mil no total. “Se eu fosse para a Europa, gastaria pelo menos R$ 10 mil”, diz. “A minha expectativa é de que, no segundo semestre, eu consiga um câmbio mais atrativo para ir à Europa. Caso contrário, a viagem que duraria 20 dias vai para 10.”

Brasileiros cortam gastos e parcelam para ir ao exterior

Apesar de o dólar ter ultrapassado o patamar dos R$ 4,20, muitos turistas vem adotando estratégias pra não precisar abrir mão de viajar para fora do País. “O brasileiro está planejando com cada vez mais antecedência”, diz Belan, da CVC. “Por isso, aumentamos o parcelamento para 12 vezes no cartão fidelidade, além do câmbio promocional (para o trecho terrestre)”, diz. Outro passo é reduzir as compras. Segundo dados do Banco Central, os gastos de brasileiros no exterior recuaram 39% em relação a 2014. O déficit, de R$ 11,5 bilhões, foi o maior desde 2010. “Antes, uma família de quatro pessoas voltava com seis malas; hoje, volta com três”, diz Belan.

Comentários