Infográfico/Estadão
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Dominância fiscal

Economistas de várias tendências advertem que a política monetária (política de juros) está perdendo eficácia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2015 | 21h00

Economistas de várias tendências advertem que a política monetária (política de juros) está perdendo eficácia.

Dia 28 de agosto, no 7.º Congresso da BM&F Bovespa, o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore avisava que a situação das contas públicas ficou tão ruim que o risco iminente é o de que prevaleça o que os economistas chamam de dominância fiscal. É uma situação em que a desordem das finanças assume uma dinâmica própria e tira a capacidade de ação dos juros sobre a inflação. Os juros altos tendem a piorar o quadro fiscal, porque aumentam o tamanho da dívida, na medida em que acabam incorporados ao principal. (No gráfico, a trajetória da dívida.)

Pastore recomendou maior esforço fiscal para controlar as contas públicas e a dívida, para restabelecer a capacidade da política monetária de combater a inflação e criar, assim, as bases para a retomada. 

No dia 2, em entrevista ao jornalista Ricardo Leopoldo do Broadcast, Agência Estado, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo também evocou essa perda de força dos juros, mas, ao contrário de Pastore, pediu uma política de recuperação do crescimento econômico, baseada no desmonte do ajuste fiscal comandado pelo ministro Joaquim Levy e na redução dos juros, já que não vêm cumprindo sua função. O Banco Central trataria de buscar convergência para a meta num prazo mais longo e não em apenas 24 meses.

Nesta quarta-feira, dois outros economistas mostraram sua preocupação com o problema. Em palestra realizada em São Paulo, no 12.º Fórum Nacional da Indústria de Aluguel e Automóveis, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco advertiu que “a alta dos juros está funcionando como banhos frios, que resolvem no primeiro momento, baixando a febre, mas que não curam a infecção”. Ele apontou como sintoma da perda de eficácia da política monetária a forte difusão (inflação espalhada demais): “A inflação dos serviços, que é a mais limpa, está batendo nos 10% (em 12 meses), acima da inflação média”.

Também nesta quarta-feira, em entrevista a Fernando Dantas, do Broadcast, o economista Tiago Berriel, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, avisou que “o Brasil pode estar na antessala da dominância fiscal”. Para ele, contas públicas vêm se deteriorando rapidamente, os agentes econômicos pressentem o perigo e correm para o dólar, as cotações do câmbio disparam e a inflação também salta a partir da alta dos produtos importados. Não se conserta isso com chazinhos caseiros. É preciso doses cavalares de antibióticos fiscais. Mas Berriel é cético quanto ao esforço fiscal no governo Dilma, por falta de condições políticas. Nessas circunstâncias, a inflação se encarregaria do ajuste.

O debate sobre se a economia já enfrenta um quadro de dominância fiscal e sobre o que fazer tem tudo para predominar no País nos próximos meses.

Enquanto isso, o Banco Central parece alienado dessas avaliações. Segue dizendo que o quadro das contas públicas pode ser favorável ao combate à inflação. E garante que os juros, hoje nos 14,25% ao ano, acabarão por puxar a inflação de volta para a meta ao final de 2016.

CONFIRA:

A primeira prévia do IGP-M acusou nova esticada da inflação.

O calote mais perto

O governo não esperava que a perda do grau de investimento chegasse tão depressa. Veio pela Standard & Poor's (S&P). As outras duas agências de classificação de risco, a Moody's e a Fitch, têm as mesmas razões para seguir a S&P. Isso implica rejeição dos títulos do Brasil pelas instituições que só podem manter em carteira títulos de boa qualidade. A perda do grau de investimento é consequência da administração desastrada das contas públicas ao longo do governo Dilma.

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