Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

‘Durmo toda noite com uma dívida de R$ 1 milhão'

Presidente da Eletrobrás, Wilson Ferreira, diz que tem pressa em vender a empresa para sanear finanças e colocá-la de volta ao jogo

Denise Luna e Mônica Cicarelli, O Estado de São Paulo

11 Fevereiro 2018 | 05h00

A Eletrobrás conseguiu aprovar a venda das distribuidoras de energia elétrica deficitárias que eram consideradas um entrave para a sua privatização. Agora, o ritmo que já era acelerado deve ficar ainda mais corrido para garantir a oferta de ações da Eletrobrás no segundo semestre deste ano. O objetivo, disse o presidente da estatal, Wilson Ferreira, ao Estadão/Broadcast, é sanear as finanças da empresa e colocá-la de novo no jogo do setor elétrico, onde passou a ser minoritária nos últimos anos por falta de recursos para investir: “A pressa é um capricho que a gente tem de ter”, afirma Ferreira, que quer que a Eletrobrás volte a ser majoritária nos seus investimentos. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Estado de S. Paulo: Uma das críticas à privatização da Eletrobrás tem sido o curto espaço de tempo para fazer a venda. O sr. não teme que a pressa impeça o governo de conseguir um resultado melhor?

Wilson Ferreira: Eu costumo dizer que uma dívida de R$ 4 bilhões aqui na Eletrobrás custa mais ou menos R$ 400 milhões de juros por ano. Quando você for dormir hoje à noite pense assim: olha, a Eletrobrás que o Wilson está dirigindo, só hoje, já pagou R$ 1 milhão só por um pedacinho da dívida, e quando acordar amanhã ele vai pagar mais R$ 1 milhão, e no carnaval vai pagar R$ 6 milhões. A pressa é um capricho que a gente tem de ter.

A Eletrobrás será obrigada a incorporar R$ 19,7 bilhões em dívidas das seis distribuidoras que pretende vender em abril, quando esperava ficar com R$ 11 bilhões. Já que a dívida ficará com a Eletrobrás, por que vender tão barato, por R$ 50 mil cada?

Elas continuam com dívidas, não vamos assumir todas. Cada uma delas continua com dívidas. Uma parte dessa dívida que está na empresa é com a própria Eletrobrás. A gente vai ter a opção de ficar com até 30% no capital da nova distribuidora, até seis meses depois da venda. Quando falamos em R$ 11 bilhões, não sabíamos que conseguiríamos o crédito de R$ 8,5 bilhões (referente à participação nas distribuidoras, que compensará as dívidas das subsidiárias com os fundos setoriais), não tínhamos uma visão clara se íamos conseguir esse crédito.

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E a Eletrobrás pensa em voltar a participar do controle dessas empresas que serão vendidas?

Tendo sabido quem é o comprador, qual o plano de negócios desse comprador, então parte da dívida pode ser convertida em capital em até 30% da empresa. Temos um caso que é um bom exemplo para isso. A Companhia Elétrica do Maranhão(Cemar) foi vendida por R$ 1 (um real) e a Eletrobrás converteu a dívida que tinha com a empresa e ficou com 32% da Cemar. A Equatorial passou a operar a Cemar e hoje a companhia é o melhor negócio que a Eletrobrás já fez em termos de aplicação de recursos, porque a empresa é bem gerida, eficiente, aumentou fortemente de valor. Para cada uma das distribuidoras que serão vendidas, vamos ter a mesma opção.

Outro entrave para a privatização da Eletrobrás, segundo especialistas, seria uma dívida alta que a empresa tem com a Petrobrás relativa à compra de combustível pelas distribuidoras do norte do País. Vocês vão pagar essa dívida antes da oferta de ações?

A disposição da Eletrobrás é fazer o mais rápido possível. Uma parte da dívida, algo na casa de R$ 11 bilhões, já está negociada e vem sendo paga religiosamente. Foi financiada em 120 meses e coloquei todo o pagamento em dia, eu não deixo inadimplir, e não há o que falar sobre essa questão. A dívida que eu tenho para negociar com o Pedro (Parente, presidente da Petrobrás) é algo em torno de R$ 6 bilhões, já mandei uma proposta pra ele. A Petrobrás ia ter de negociar com as distribuidoras e agora vai ser com a Eletrobrás, vai ficar com um devedor só. Fica mais fácil, considerando os nossos recebíveis, nossos ativos, fazer uma negociação. Será mais fácil.

E como ficou a questão do Rio São Francisco, que era outro impasse para a venda da empresa?

O Rio São Francisco é o segundo maior rio brasileiro e temos oito hidrelétricas lá, mas nos últimos 20 anos o rio reduziu muito. No projeto de lei da privatização ficou combinado que vamos pagar R$ 350 milhões por ano pelos próximos 15 anos para revitalizar o rio São Francisco e mais R$ 250 milhões nos 15 anos restantes. São R$ 9 bilhões ao todo em 30 anos. 

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Vai ter investidor para tantos ativos do setor elétrico?

Está favorável porque o juro caiu, a inflação caiu, a perspectiva de crescimento é boa, é um ambiente bom para investimentos. A gente não coloca claramente o quanto o Brasil melhorou. O Brasil está sendo visto muito bem na área de energia lá fora. É a combinação do aperfeiçoamento do marco regulatório com a melhora da economia.

Mas em um ano de eleições, não pode haver instabilidade e afugentar os investidores?

Os exemplos que a gente tem hoje são do interesse que se tem pela privatização das nossas distribuidoras e pela venda das SPEs. O que posso dizer é que há interesse para ambas. Tem data room (espaço virtual com informações sobre as distribuidoras) aberto e já foram até fazer diligência. Para a Eletrobrás, não vejo também problemas, nosso capital é em reais e, pela minha experiência, o que mais oscila nas eleições é o câmbio. O que pode acontecer é ficar mais barato para o investidor por causa de câmbio.

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