E agora, Temer?

O presidente vai se agarrar no programa econômico e nas reformas para continuar sobrevivendo

Suely Caldas, O Estado de S. Paulo

10 Junho 2017 | 07h01

O que será do Brasil nos próximos 18 meses? Nos anos 1980, foi uma década inteira perdida; na era Dilma, mais cinco anos. E agora? Justamente no momento em que surgem pálidos sinais de recuperação econômica, mais um ano e meio perdido? O País vai continuar marchando para trás? Como sobreviverão os 14,2 milhões de desempregados? E a desesperança dos jovens que buscam e não encontram emprego? Se já é alta a taxa de 11,8% de desemprego no País, para a faixa de idade entre 18 e 24 anos é muito pior: ela salta para 25,9%. O que fazer com eles? Crucial para ajudar a recuar o desequilíbrio fiscal, a reforma da Previdência tem chances de passar no Congresso? Ganhará mais remendos e encolhimentos até que se torne ineficaz para ordenar as contas públicas? E se os investimentos – ainda duvidosos – recuarem com o quadro de crise e incertezas políticas? São questões que estarão no radar dos brasileiros nestes próximos 18 meses, agora que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu passe livre para o presidente Michel Temer continuar no comando do País e completar seu mandato. Ele conseguirá?

Há muita água turva e enlameada por debaixo do rio de Temer. Se ele completar o mandato até o fim de 2018, vai governar com uma navalha afiada sobre o pescoço. A Lava Jato e a revolta contra a corrupção que ela despertou nos brasileiros são irreversíveis e, além de desdobramentos na Justiça, fatos novos surgirão. Já nos próximos dias o presidente vai enfrentar denúncia que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, prepara para incriminá-lo e cuja tramitação no Congresso pode ou não resultar em seu afastamento.

A absolvição no TSE não garante desaparecerem os fantasmas da Lava Jato que rondam o Palácio do Jaburu; há mais delações em curso, inclusive a do amigo e homem da mala, o ex-deputado Rocha Loures, e a do ex-ministro Palocci, que pode ser dramática para Lula e o PT, mas também para o PMDB de Temer; e nos próximos meses seus principais assessores e homens de confiança serão julgados e podem ser presos. Já pensou se Moreira Franco, Eliseu Padilha e Romero Jucá decidem fazer delação premiada? E isso tudo sem contar a pressão das manifestações de rua que seguirão pedindo sua cabeça e ampliando ainda mais sua taxa de impopularidade.

Na semana que vem o PSDB vai definir se desembarca ou fica no governo. Como os caciques do partido condicionaram a decisão ao resultado do TSE, a alternativa seria continuar apoiando Temer, mas o rumo que tomou o julgamento deixou o grupo dos “cabeças pretas”, que já vinha pressionando pela saída, ainda mais indignado e revoltado, não vai aceitar mais seguir apoiando um presidente que, segundo o deputado Carlos Sampaio (SP), “perdeu as condições mínimas de governabilidade”. O desembarque é uma possibilidade real e, pior, com desdobramentos que tornam mais próximo o enfrentamento de um impeachment se o DEM e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, avaliarem que continuar com Temer é dar murro em ponta de faca.

Politicamente desgastado, enfraquecido e sem poder, o presidente vai se agarrar no programa econômico e nas reformas para continuar sobrevivendo. Vai apostar suas fichas na credibilidade da equipe econômica que Henrique Meirelles levou para seu governo. A queda da inflação e da taxa de juros, a recuperação da imagem e das finanças da Petrobrás, a reorganização do BNDES para alavancar investimentos, os projetos de privatização e leilões nas áreas de petróleo e energia elétrica são realizações bem-sucedidas da área econômica que Temer tem cantado com alarde.

Mas é aí que o embate em curso entre a equipe econômica e o Poder Legislativo a cada matéria econômica enviada ao Congresso vai aguçar mais e será determinante para o futuro de Temer. Se a base aliada encolher com a provável saída do PSDB, restarão os de sempre que costumam cobrar caro em cargos, verba e demagogia, esgarçam as propostas do governo e golpeiam seu poder de produzir resultados. Pode chegar o momento em que a equipe de Meirelles e Ilan Goldfajn avaliará que não vale a pena seguir adiante, pedir o boné e desembarcar de Brasília. E aí? Como fica Temer?

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