E agora, Temer?

Abandonar a agenda de reformas seria erro de enormes proporções

Fernando Dantas *, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 05h00

Não é preciso gostar de Michel Temer para fazer uma constatação simples: a vitória governista, por 263 votos, na rejeição da Câmara ao pedido da PGR de que o presidente fosse julgado pelo Supremo aumentou a governabilidade.

Isso não quer dizer que a capacidade de governar de Temer tenha sido restaurada ao nível anterior a 17 de maio, quando foi revelada a existência da gravação da conversa com Joesley Batista. Quem definiu bem o tamanho de Temer como presidente depois do voto desta quarta-feira foi o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia: o titular do Planalto está maior do que estava há cerca de um ou dois meses, mas ainda está bem menor do que sua dimensão anterior ao escândalo.

Assim, Temer se recuperou apenas parcialmente do imenso abalo político sofrido, e sua governabilidade ganhou uma sobrevida. A grande questão é saber o que o presidente vai fazer com isso.

Na seara econômica, o fato de que pouco mais que a maioria simples dos deputados tenha optado por livrar o presidente do julgamento pelo Supremo, ainda que mais de 80% da população brasileira desejasse o contrário, é significativo. É uma turma parlamentar que está com Temer para o que der e vier, e que não parece tão preocupada assim com a contaminação pela impopularidade presidencial.

Há uma parcela não desprezível da agenda econômica que pode ser tocada com maioria simples, como boa parte da reforma tributária (e até itens da previdenciária) e as mudanças no BNDES. Outra parte, que envolve os pontos mais importantes da reforma da Previdência, exige maioria de 3/5, isto é, 308 deputados, no caso da Câmara, para que sejam aprovadas mudanças constitucionais.

Difícil especular se isso é possível. Tucanos que votaram contra Temer na quarta-feira poderiam apoiar a reforma da Previdência, mas membros do baixo clero que votaram a favor do presidente poderiam ficar contra. O que parece certo é que, considerando os 263 deputados que parecem mais fechados com o presidente, falta muito voto. Se Temer resolver tentar, será uma parada duríssima.

Por outro lado, Maia tem se revelado reformista convicto e hábil maestro do baixo clero. Se o presidente da República souber conduzir de forma competente a complicada relação com o presidente da Câmara, somando forças para conquistar deputados, talvez alguma reforma da Previdência ainda seja possível.

Resta saber se Temer deseja se manter no árduo caminho das reformas econômicas.

A popularidade do presidente é ridícula, a maior parte da elite bem pensante do País o rejeita e ainda não é 100% certo que consiga terminar seu mandato. Por outro lado, a liquidez internacional vem garantindo certa estabilidade macroeconômica. Nesse cenário, não é difícil imaginar uma hipótese em que Temer abandona de vez a austeridade pregada pela equipe econômica. Nesse caso, o presidente tomaria embalo nas liberações de emendas e distribuições de favores que antecederam o voto de anteontem, e embarcaria de vez na política de abrir os cofres a todos os grupos que possam retribuir e ajudá-lo a sobreviver política e juridicamente antes e depois de 2018.

Seria um erro de enormes proporções. A economia, na verdade, vem dando tênues sinais de vida. Qualquer avanço da agenda econômica agora conta, e pode contribuir para que 2018 tenha um pouco mais de crescimento e um pouco menos de desemprego. A simples tentativa de relançar as reformas ocupará o espaço político e empurrará um pouco mais para frente o momento em que a temporada eleitoral vai se impor e Temer inevitavelmente se tornará um “pato manco”.

Se resolver relaxar nos louros da vitória de quarta-feira, o presidente se arrisca a perder o controle da situação tanto política quanto econômica, e pode fazer com que 2018 seja ainda mais infernal para ele do que os dias que se seguiram a 17 de maio.

* É COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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