FOTO: FELIPE RAU/ESTAD?O
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‘É inocência dizer que economia e política descolaram’

Para Teixeira, País precisa de uma reforma política para viabilizar as mudanças necessárias ao crescimento

Entrevista com

Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2017 | 05h00

Na avaliação do economista-chefe do banco Credit Suisse, Nilson Teixeira, a calmaria que se instalou no mercado financeiro em relação à recessão brasileira reflete uma certa “paciência” global com países emergentes e a crença de que o País fará reformas após a eleição de 2018. Mas ele argumenta que há risco de uma crise fiscal até lá. Para evitá-la, seria preciso que o Congresso e as assembleias legislativas tivessem força para aprovar corte de gastos – algo que depende de uma reforma política: “Eu chego a dizer que a reforma política é mais importante que a da Previdência”. A seguir, trechos de sua entrevista. 

Por que o mercado está tão calmo quando discutimos se outro presidente fica ou sai? 

Essa é a pergunta que mais tenho ouvido. Nossa resposta é que há dois blocos de razões. Primeiro, o cenário externo. Em relação aos Estados Unidos, a percepção é de que o aumento de juros será gradual. Na Europa, a recuperação segue lenta, mas com inflação bem comportada. São cenários benignos para os emergentes. 

Então, há uma paciência maior com todos os emergentes?

Não diria que ‘com todos’, mas, sim, há uma paciência maior com uma economia como a do Brasil. Tem o segundo bloco de razões, o doméstico. A recuperação da atividade é muito gradual, algo que já projetávamos, mas há um declínio importante da inflação, maior até do que qualquer um imaginou. Isso abre espaço para um ciclo de afrouxamento monetário (queda de juros) também maior do que se imaginava. A questão que se coloca é a fiscal (arrecadação e despesa do governo). O quadro é muito desfavorável. Na nossa leitura, é quase um quadro de crise fiscal. Mas nos parece que a maioria dos participantes do mercado entende que o problema será resolvido no próximo governo, com a aprovação de medidas que façam com que o déficit primário (gasto público maior do que a arrecadação) desapareça e que se caminhe para um superávit capaz de estabilizar a dívida e fazê-la recuar.

O quadro, então, é de expectativa, o que é um risco, não?

O quadro é complexo. O Brasil precisa fazer ajustes muito duros. É difícil não trabalhar com um cenário em que o novo presidente, seja quem for, não tenha de aprovar medidas extremamente duras para cortar gastos, tratar da eliminação ou ao menos da redução de várias concessões que são consideradas direitos adquiridos – não só dos trabalhadores em geral, mas também de trabalhadores no setor público e de empresários. Dentro disso, incluem-se renúncias tributárias, transferências de recursos, subsídios, repasses de recursos às associações de classe, como o Sistema S (grupo de 11 instituições ligadas a entidades empresariais, como Sesc e Senac). Serão necessárias medidas dolorosas para que o País se recupere e volte a um ritmo de crescimento adequado. A questão é: alguém vai fazer campanha com isso? 

Está dado, então, que o próximo um ano e meio é um período de espera para a economia?

Ainda há muita incerteza pela frente. A questão dos Estados é um exemplo. Veja o Rio de Janeiro. É dramático o número de perdas de vidas por bala perdida, assaltos, tiroteios. Escolas estão ficando sem aula por causa da violência. Eu li uma reportagem mostrando que o número de mortos na cidade do Rio é maior que em lugares da Síria. Eu tenho dificuldade de acreditar nisso, mas são os dados. À medida que a situação fiscal piora, é isso que vemos: o comprometimento de uma série de serviços básicos, como o de segurança.

Isso que o sr. descreve é consequência da recessão?

É consequência do desarranjo do Estado brasileiro. E o problema é: se não houver uma retomada da atividade e, consequentemente, da arrecadação, não se pode descartar a possibilidade de que outros Estados comecem a ter problemas, se não similares, de difícil resolução. E o que todos os Estados exigem? Ajustes nos gastos, já que não têm como aumentar impostos no meio dessa crise. Mas reduzir gastos está necessariamente associado ao corte do que hoje se considera direito adquirido. Essas discussões que vemos hoje no Congresso e nas assembleias dos Estados mostram como o cenário é difícil. O risco é que, nesse ambiente, as eleições levem à implantação de projetos mais populistas, baseados em promessas que, eu diria, seriam impossíveis de serem cumpridas.

Pelo que o sr. está descrevendo, a estabilidade da economia dependeria, então, do enfrentamento de corporações e de uma política, digamos, mais moderna daqui para frente?

Enfrentamento é uma forma dura de dizer. Acho mais adequado dizer que depende do convencimento das categorias mais beneficiadas, em particular às associadas ao poder público, de que a contribuição delas deve ser bem maior do que a das classes mais pobres. Esse processo de convencimento vem da política. Essa história de que a economia está se desatrelando, descolando da política, que tenho lido, me parece inocência. A gente está aqui conversando sobre economia. Eu sou economista. Não sou cientista político. Mas a gente passa uma parte relevante da conversa falando de política. É difícil para mim desatrelar a situação política do quadro econômico. A crença do mercado, na minha leitura, é que as mudanças virão depois de 2019. Por isso, considero extremamente relevante fazer uma reforma política para viabilizar isso. É até difícil dizer o que é mais relevante no momento: a reforma política ampla ou reforma da Previdência ampla. Eu chego até a dizer que uma reforma política, que diminua o número de partidos e melhore a representatividade desses partidos é mais importante que a reforma da Previdência, na medida em que a reforma da Previdência viria a reboque. 

Mas como viabilizar mais essa reforma neste momento?

É importante que a sociedade se manifeste. Se mexa. Por enquanto, temos apenas uma elite se manifestando. Todos os políticos falam das tais redes sociais e de como são pressionados por elas. É um espaço para essa manifestação.

O sr. diz que os políticos, agora, sentem as ruas no bolso?

Diria diferente: que os políticos estão no bolso das ruas. 

Qual o seu balanço sobre a política econômica até agora?

A equipe econômica defendeu uma estratégia gradualista. Nós defendíamos, que o caminho adequado seria cortar gastos mais enérgico – para cortar gastos têm de ser gastos obrigatórios, daí a importância de uma reforma da Previdência ampla. Defendíamos a redução de renúncias tributárias, corte de subsídios. Ir por aí. Reconhecíamos que esse caminho seria praticamente impossível, mas o que nos parece e que esse processo teria sido aprovado e que a reversão do déficit primário seria muito mais sólida. O País está indo para quatro anos com déficit primário, muito próximo a 2,5% do PIB (Produto Interno Bruto, que mede a geração de riqueza dos países). A dívida pública continua a crescer em um ritmo razoável. Até o final do ano, chegaremos a uma dívida pouco abaixo de 80% do PIB. No ano que vem, acima disso. Um déficit primário dessa natureza, nos parece, abre espaço para um ambiente insustentável se o cenário global mudar, por exemplo. De qualquer forma, isso não foi perseguido pelo governo, e agora estamos numa situação em que será muito difícil cumprir a meta de déficit primário deste ano, do próximo ano e também a de 2019.

Ouvindo o sr., a percepção é que foi feito pouco, diante do que poderia ter sido feito.

Foi feito muito, mas era preciso fazer muito mais. Se olharmos, a equipe econômica tem apresentado uma lista bastante extensa: aprovou PEC-95 (Proposta de Emenda Constitucional que instituiu o teto para os gastos), encaminhou a reforma da Previdência. Várias medidas de caráter microeconômico estão avançando.

Estão fazendo uma arrumação da casa?

Estão fazendo, e isso exige tempo. Por hora, o governo tem apoio do mercado e da sociedade. Estão dando esse tempo. Mas há riscos. No quadro externo, se houver maior volatilidade, essa complacência com o País diminui. Há também o quadro político. Mesmo que a atual reforma da Previdência passe, não há dúvida que vamos precisa de outra já em 2019. É difícil num cenário básico escapar do aumento de impostos, mesmo com todos os problemas e prejuízos associados. Mas ele trará benefícios para o fiscal.

O sr. está recomendando, então, que a próxima medida em favor do fiscal é o aumento de impostos?

É o necessário, não é o adequado. O adequado é eliminar renuncias tributárias, fazer uma reforma da Previdência bem mais ampla, incluindo o funcionalismo público. O déficit provocado pelos funcionários públicos equivale a 3% do PIB. Enquanto todo o restante do INSS, que são quase 10 vezes mais em número de pessoa, tem pouco mais de o dobro disso.

Mas há espaço político para isso?

O espaço político para isso está se reduzindo, o que é natural. Quanto mais perto da eleição, mais difícil convencer os políticos a tomar medidas mais duras.

Perdemos uma oportunidade, já que o espaço político era maior no começo?

Foi feito um balanço de riscos e o julgamento foi que havia espaço para uma estratégia bem mais gradual, mas sob a hipótese de que a retomada da atividade econômica seria mais vigorosa e, consequentemente, a própria necessidade de ajuste seria menor.

Na sua avalição, por que a retomada ficou aquém do esperado pela maioria?

A retomada veio ao encontro de nossas expectativas. Nos argumentávamos que o consumo das famílias não apresentaria uma grande recuperação por uma razão simples: o mercado de crédito estava em processo de retração, o endividamento das famílias estava alto e já se observava um ciclo desfavorável e profundo no mercado de trabalho, com significativo aumento do desemprego. Assim é difícil trabalhar com hipótese de recuperação no consumo das famílias. Também não dava para imaginar aumento no consumo do governo no momento em que passamos, como discutimos aqui, por uma crise fiscal. Também dizíamos que, diferentemente do que se viu em recessões passadas, o setor externo não seria o principal motor. Antes, o que se via era crise no balanço de pagamentos, depreciação cambial, queda nas importações e aumento das exportações, que eram muito dependentes de bens manufaturados. Qual era o processo? O câmbio depreciava, os produtos da indústria ficavam mais baratos, as exportações aceleravam e os investimentos vinham para ajudar a aumentar a capacidade produtiva. Depois vinha o consumo. Desta vez, as exportações brasileiras são muito mais dependentes de produtos básicos do que manufaturas. Os produtos brasileiros perderam competitividade, e a competição externa é bem maior. Basta olhar o que era a China em 2003 e quanto é hoje. E quando falo China, falo também de Paquistão, Indonésia, que não existiam antes como participantes. O Brasil depende hoje muito mais de commodities com preços internacionais. Bom, então, sobrava o que? Investimentos. Mas porque o empresário vai investir quando olha todo esse quadro? No nosso entender, por isso não havia razão para esperar um crescimento forte.

Qual era a previsão lá atrás?

Quase a mesma coisa de hoje, 0,2%.

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