‘É mais negócio receber o dinheiro hoje’, diz David Zylbersztajn

O ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, avalia o modelo de concessão de áreas do petróleo e investimentos

Vinícuis Neder, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2017 | 20h57

Entrevista com David Zylbersztajn, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

O fim da obrigatoriedade de a Petrobrás ser a operadora nas áreas do pré-sal atraiu mais investidores?

Na verdade, isso resolveu um problema da Petrobrás. Ela estava amarrada com uma obrigatoriedade que ela não podia cumprir. Em tese, seria um privilégio para a Petrobrás, mas não era privilégio nenhum. Era uma obrigação, uma armadilha. Ficou menos ruim, porque houve um afrouxamento nas regras. No (modelo) anterior, ia acontecer igual ao primeiro leilão, de Libra, em que não teve concorrência. Se a Petrobrás é obrigada a ser operadora com 30%, o consórcio em que ela tiver é o vencedor e vai ser sempre pelo valor mínimo.

O governo deu sinais de que pode acabar com o modelo de partilha. Isso atrairia mais investidores?

Não tenho a menor dúvida. Se o governo voltar para o modelo de concessão, voltaríamos a 2007. São dez anos de atraso. Em 2007, foram retiradas 41 áreas do pré-sal, num momento em que o petróleo estava a US$ 110 ou US$ 120 o barril. Foi antes da crise dos EUA, do início da exploração do shale- gas, antes de o México abrir o setor de petróleo, antes de o Irã voltar a produzir. Todas as condições favoráveis estavam naquele momento e o Brasil perdeu. Hoje, estamos revendo um filme que poderia ter acontecido, só que o final não é tão bom quanto poderia ser.

Mudar a partilha agora não afeta os leilões já anunciados?

Não. Entre o governo sinalizar e fazer vai uma distância. Para as empresas, no fim das contas, a diferença não é tão grande. Para elas, é melhor até pagar lá na frente em petróleo (como ocorre na partilha) do que ter de investir muito agora (como ocorre na concessão).

Se o governo acabar com a partilha antes do próximo leilão do pré-sal não afasta investidores?

Não. Isso daria um pouco mais de trabalho para a ANP por causa do modelo, mas isso a ANP faz com muita facilidade.

O modelo de concessão é melhor?

Para o governo, é muito mais negócio receber o dinheiro hoje do que ficar com a expectativa de daqui a cinco, seis, sete anos receber em petróleo, que você não sabe quanto vai estar valendo. Pode estar valendo menos do que hoje. O petróleo é um animal em extinção. Hoje, o consumo do petróleo é uma fatalidade, mas já vivemos uma transição muito forte para gás natural e fontes renováveis.

Ainda dá para o Brasil recuperar o tempo perdido?

Sim, porque o petróleo vai durar um bom tempo e o pré-sal é extremamente competitivo. 

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