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‘É natural que a participação do Eike nas empresas caia de 60% para 30%’

David Friedlander, Raquel Landim e Ricardo Grinbaum, de O Estado de S.Paulo

23 Março 2013 | 22h 30

Esteves, porém, diz que Eike vai se recuperar: ‘ele continua sendo um dos empresários mais bem capitalizados do País’

 

SÃO PAULO - À frente da operação lançada dias atrás para tentar resgatar Eike Batista da crise de confiança que vem demolindo o valor de suas empresas, o banqueiro André Esteves diz como enxerga o futuro do grupo EBX: a participação que o empresário possui hoje nos negócios que criou, na casa dos 60% a 70%, tende a diminuir. "O natural deveria ser o Eike ter participações menores, de 20% a 30%. Mas ele não perde o controle", afirma o banqueiro, em sua primeira entrevista sobre a parceria fechada no começo do mês entre o BTG Pactual e o grupo EBX.

A situação de Eike, até outro dia apontado como o homem mais rico do Brasil e o sétimo do mundo, é dramática. Nos últimos 12 meses, suas empresas perderam R$ 53 bilhões de valor de mercado. Na sexta-feira, as ações das principais empresas sofreram mais um tombo espetacular: os papéis da LLX ( logística) caíram 11%, os da OGX (petróleo), 9% e as ações da MMX (mineração) perderam 8%. Esta semana serão divulgados os balanços de OGX e LLX, e o mercado especulou freneticamente, alegando uma suposta impaciência dos investidores com a demora de resultados da parceria entre Eike e BTG.

"Não temos nenhuma bala de prata, nem queremos ter uma visão sebastianista do assunto. Não vai ser em duas semanas que a parceria vai dar resultado", afirma o banqueiro. Apesar do cenário sombrio, Esteves diz que Eike vai se recuperar. "Ele continua sendo um dos empresários mais bem capitalizados do País. É jovem, empreendedor, acredita no Brasil e ainda vai construir muita coisa. Sua situação financeira é facilmente equacionável."

A missão de Esteves e sua equipe é reorganizar o grupo EBX, buscando parceiros estratégicos ou financeiros para as empresas e priorizando os investimentos de acordo com a nova realidade. Sobre a OGX, que era a estrela da coleção de empresas criadas por Eike, o banqueiro deixou claro que não existe a ambição de levar a petroleira ao patamar de preços em que já esteve. "Uma coisa não temos capacidade de fazer: tirar mais petróleo dos poços que estão lá. Se as ações vão valer R$ 5 ou R$ 2, não tem nada a ver com nossa capacidade."

A operação para tirar as empresas de Eike do sufoco será um teste e tanto para o jovem banqueiro de 44 anos. Sua ambição é colocar o BTG na liderança dos bancos de investimento da América Latina. Com US$ 15 bilhões de valor de mercado, a instituição administra U$ 120 bilhões entre recursos próprios e de terceiros.

Um dos motivos de orgulho no banco é a nova sede, com 13 mil metros quadrados de área num dos endereços mais nobres da Avenida Faria Lima, o novo centro financeiro de São Paulo. Lá dentro, Esteves e seus sócios sentam lado a lado com os operadores - quando querem privacidade procuram uma das muitas salas de reunião. É uma forma de mostrar aos mais novos que quem trabalhar duro pode chegar ao topo como eles. "O que queremos aqui são Ph.Ds", diz Esteves. "Poor, hungry and desperate to get rich (pobre, esfomeado e desesperado para ficar rico)." A seguir a entrevista ao Estado.

As ações das empresas de Eike desabaram na sexta-feira, o que foi atribuído a uma suposta impaciência de investidores com a demora de resultados da parceira entre EBX e BTG. Como o sr. encara essa pressão?

Não temos nenhuma bala de prata nem queremos ter uma visão sebastianista do assunto (uma salvação miraculosa). Não podemos ceder à pressão para tomar decisões. Elas só ocorrerão à medida que as oportunidades se apresentarem, e isso vai demorar bem mais que duas semanas. Temos de ter foco, compromisso e responsabilidade. E encarar a volatilidade das ações com uma certa naturalidade. A bolsa está no seu pior momento.

Por que o BTG se associou à EBX em um momento de risco?

Eike é um dos grandes empreendedores da última década, senão o maior do Brasil. É natural levar a nossa expertise nesse momento de desafio. Existem projetos muito distintos dentro do grupo EBX, com retornos e maturidades diferentes.

O grupo EBX é viável com o tamanho que tem hoje?

Eike concebeu projetos estruturantes e transformadores para o Brasil, como o Porto do Açu. O desafio é ordenar a execução deles. Todos são grandes projetos de infraestrutura, voltados para recursos naturais, de complexa execução e capital intensivo. E existe a dificuldade de executar vários projetos ao mesmo tempo. Vamos ajudar a ordenar, racionalizar e priorizar a execução. O Eike está aberto e animado com a ideia. Muitas pessoas questionam o endividamento do grupo EBX, mas, mesmo com as ações bastante depreciadas, existe um significativo patrimônio positivo. O endividamento não é tão grande. O que existe é uma demanda por investimento futuro que precisa ser equacionada, projeto a projeto.

Eike está perto de vender uma fatia de sua participação na MPX para a sócia E.ON...

O negócio não foi anunciado. A empresa comunicou ao mercado que existem conversas em andamento que podem se concretizar nessa linha. É um caso claro de uma companhia da EBX que tem um player de classe mundial que gostaria de ter uma participação ainda maior.

Vocês estão procurando parceiros para as empresas, a exemplo do que foi feito pela MPX?

Dada a qualidade dos projetos, existem diversos tipos de demanda: para parceiros estratégicos ou financeiros. Diria que é uma percepção correta que podem existir transações desse tipo em diversos projetos do grupo. O incomum é manter participações de 60%, 70%. O normal seria o Eike ter participações menores, de 20% a 30%. No mundo, em projetos como esses, não é natural ter concentrações de capital tão altas, dado o risco, o tamanho do capital envolvido e a complexidade. Existem diversos tipos de parceiros: financeiros, estratégicos, bancos de desenvolvimento, o empreendedor e o mercado de capitais. Vejo como anomalia o excesso de participação do grupo nos projetos. É natural ter fatias menores, em projetos que vão ser pagadores de dividendos e geradores de caixa. E manter a expertise do grupo na concepção dos projetos.

Quais projetos da EBX são mais problemáticos e quais estão adiantados?

Grandes projetos de infraestrutura são sempre complicados. A MPX (setor elétrico) já gera energia. É um projeto que começou do zero e hoje é extremamente útil para o Brasil. Mesmo a OGX (petróleo), cuja produção de petróleo veio abaixo das expectativas do mercado e do grupo, realizou uma campanha de exploração de petróleo que nunca tinha sido feita por uma empresa privada no Brasil. Faz parte do negócio de exploração achar mais ou menos petróleo. No Porto de Açu, há novas companhias se instalando e isso vai continuar durante décadas.

Existe a hipótese de profissionalizar o grupo, com a saída de Eike do dia a dia dos negócios?

O Eike tem uma capacidade única de concepção de projetos, conhece muito de recursos naturais e de logística, tem cabeça de engenheiro. Pensa grande e o Brasil precisa de gente assim. Cada companhia tem seu corpo executivo, conselho de administração e a maioria é de capital aberto.

 

Como resolver a situação da OGX, que perdeu mais de R$ 47 bilhões em valor de mercado em um ano?

Obviamente a resposta é complexa. Quem investe em exploração de petróleo tem de estar preparado para altos retornos e eventuais decepções. Muito provavelmente o mercado de capitais ficou excessivamente otimista com as perspectivas da empresa e talvez a administração tenha se tornado excessivamente otimista. Ainda existem muitas oportunidades no setor de petróleo e gás no Brasil. Está em curso a 11.ª rodada de concessões e ocorrem negócios constantes de blocos de petróleo. A OGX tem um corpo técnico bom. As oportunidades estão aí. Vai depender da gestão da companhia. Uma coisa que não vamos fazer e não temos capacidade de fazer é tirar mais petróleo do fundo dos poços. Se as ações vão valer R$ 2 ou R$ 5, não tem nada a ver com a nossa capacidade. O que podemos trazer para o grupo é racionalidade, uma estrutura de capital correta, controlar os investimentos. Isso é suficiente para o grupo ter sustentabilidade financeira de longuíssimo prazo.

O mercado diz que a LLX (logística) é a menina dos olhos do Eike. Vocês esperam apoio do governo no Porto de Açu? Investimentos de fundos de pensão estatais, por exemplo?

Existe uma frustração que não é só do Eike, mas de vários empresários, que gostariam de ver investidores institucionais brasileiros mais engajados em projetos estruturantes. É um debate válido em um momento em que o Brasil precisa de um choque de infraestrutura. Melhor do que ter projetos puramente governamentais é ter investidores institucionais se ligando a projetos privados. Ao longo das últimas décadas, o ganho dos investidores institucionais foi muito facilitado pelos juros altos. Agora que caminhamos para a última fase da estabilização da economia brasileira, o desafio é ter uma boa alocação de capital para investidores que focam no longuíssimo prazo. Não só os fundos de pensão, mas também as seguradoras.

 

Qual é o papel do BNDES e da Petrobrás na reestruturação do grupo EBX?

A Petrobrás não tem um papel determinante. Pode ser um parceiro, um cliente e até um concorrente. A Petrobrás tem interesse em ver a indústria de serviços de óleo e gás indo bem no Brasil e acho que também vê como positiva a ideia de companhias privadas de petróleo. Fora isso, não vejo nada determinante. Já o BNDES, como banco de desenvolvimento econômico, é natural que participe desse projeto e de outros. Para falar a verdade, gostaria de ver o BNDES menos envolvido com capital de giro e mais com grandes projetos de infraestrutura. Vejo muitos economistas reclamando da existência do BNDES e discordo. O BNDES é uma qualidade e uma conquista brasileira.

 

Como foi a aproximação para a parceria entre BTG e Eike? Qual é a sua exposição ao grupo?

Temos um relacionamento com o grupo histórico e intenso. Fomos sócios em projetos no passado e participamos de todas as aberturas de capital. Essa aproximação não aconteceu e, sim, já estava lá. O nosso papel é racionalizar o grupo e, obviamente, atrair investidores. Temos alguma exposição de crédito ao grupo como todos os bancos comerciais. Também podemos participar de projetos futuros como investidores ou não.

Vocês abriram uma linha de crédito de R$ 1 bilhão para o grupo EBX?

 

Abrimos linhas de crédito lastreadas em ativos existentes e a magnitude bate com esse valor.

O Eike corre o risco de quebrar?

Está longe disso. Ele continua sendo um dos empresários mais bem capitalizados do País. É jovem, empreendedor, acredita no Brasil e ainda vai construir muita coisa. Sua situação financeira é facilmente equacionável.

 

No mercado, especula-se que vocês estão ajudando Eike a pedido do governo ...

Não tem absolutamente nenhum pedido do governo. Não seria cabível uma coisa dessas.

Como é a sua relação pessoal com o Eike? São amigos?

Temos uma longa história de investimentos. Ganhamos dinheiro juntos. Então está ótimo. O grupo continua operando com todos os parceiros financeiros. O desafio de execução dos projetos do grupo EBX é tão grande que precisamos de mais braços. Não temos vergonha ou ciúme disso. Somos muito pé no chão.

O BTG está crescendo muito rápido, com a participação em várias empresas.

Qual é a estratégia do banco?

Essa é uma área do banco (private equity). Também somos muito atuantes no mercado de capitais e temos uma atuação latino-americana. Mas nosso papel é ser o óleo da engrenagem da economia brasileira. No fundo, o fato de sermos um BNDES eficiente e privado é muito útil para a economia brasileira. Quando a economia americana passou pelo mesmo estágio da brasileira, há 50 anos, os Morgan e os Rothschild exerceram esse papel. É que nos desacostumamos no Brasil a ter um banco de investimentos que investe.

O BNDES segue a política industrial do governo. Qual é a sua lógica na hora de investir?

A nossa lógica é o bom negócio. Apoiamos nossos clientes em vários setores e por várias razões. Geralmente é uma lógica de consolidação. A consolidação, que aumenta a produtividade da economia, precisa de muito capital. Também existem as sucessões familiares, em que muitas companhias estão passando de um estágio familiar para outro mais profissional.

Qual é o tamanho do BTG hoje?

O BTG tem US$ 15 bilhões de valor de mercado e um volume de gestão, entre banca privada e recursos institucionais, de US$ 120 bilhões.

O BTG está se internacionalizando. Qual é a estratégia?

Somos o maior player no Chile, Peru e Colômbia e também somos um player importante no México. Temos 100 pessoas em Londres, 100 em Nova York e 15 em Hong Kong. O México é a última perna na América Latina (o BTG está abrindo uma filial no país), porque precisamos ter mais estabilidade para investir na Argentina e na Venezuela e podemos atender os países de menor escala com os escritórios atuais. A paisagem financeira mundial será de poucos bancos globais competindo com líderes regionais. E nós temos todo o potencial de ser o líder da América Latina. Essa é a nossa visão estratégica. Atrair investimentos para a América Latina e levar as empresas da região a investir fora.

No Brasil, o setor privado se queixa da incerteza econômica e do intervencionismo. Qual é a sua avaliação?

Existem dois mundos: o do investidor de portfólio (financeiro) e do setor real, que é o mais relevante. O Brasil teve US$ 65 bilhões de investimento estrangeiro direto no ano passado, um recorde e três vezes o volume do México, o que sinaliza uma confiança enorme do investidor. Esses são os fatos. Mas é claro que o volume total de investimento da economia brasileira poderia e deveria ser maior. O governo pode investir mais e, principalmente, dar condições para o setor privado investir mais. O que vimos é o governo indo numa direção muito boa, mas com uma execução que causou incerteza. Os problemas de execução criam esse sentimento de excesso de intervencionismo. Mas a direção é inegavelmente boa.

O sr. está preocupado com a inflação? O Brasil precisa elevar a taxa de juros?

Não concordo com as críticas de que exista um descontrole inflacionário. O que vejo hoje é a inflação desconfortavelmente acima do centro da meta, e isso pode ser combatido com alta da taxa de juros. As medidas macroprudenciais não fazem sentido hoje porque o crédito está crescendo de maneira moderada. Ocorreu uma mudança estrutural nos juros brasileiros, mas isso não significa que as taxas não vão mais subir ou cair. Só que vão subir para 8,5% ou 9% e não para 14%, 15% ou 16%. E na frente vão cair de novo. Se a inflação se mostrar resiliente, o BC pode e deve elevar os juros. Não acho que haverá nenhum tipo de interferência governamental impedindo o BC de atuar. Isso é uma falsa crença de parte do mercado e não consigo entender o porquê. Essa mesma composição de presidente do BC, ministro da Fazenda e presidente da República elevou os juros em 175 pontos base no início do governo.

O sr. é visto como um dos conselheiros da presidente Dilma no setor privado. Como é o seu relacionamento com ela?

Tenho enorme respeito pela presidente, mas não exerço esse papel de conselheiro. Nós somos pró-Brasil. O nosso negócio depende da boa condução da economia brasileira. E sempre que pudermos contribuir com o que temos de melhor, que são ideias, estamos abertos. Respeitamos muito a presidente, sua conduta pessoal e seu compromisso com o Brasil. Estamos dispostos a ajudar, não apenas a ela, mas a quem estiver sentado naquela cadeira com a responsabilidade de tocar o Brasil.

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