ALEX SILVA / ESTADÃO
ALEX SILVA / ESTADÃO

É o descolamento?

O comunicado do Banco Central aponta que as incertezas não têm causado grandes impactos à economia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2017 | 21h00

O Banco Central em comunicado oficial reconheceu nesta quarta-feira, 26, após a reunião do Copom, que a inflação está atuando descolada tanto da crise política quanto da crise econômica.

O Banco Central dirigido por Ilan Goldfajn não desconhece nem as incertezas nem o aumento delas, sejam as provocadas pelo adiamento das reformas, seja as ligadas ao rombo fiscal. A novidade está em que esse aumento de incertezas “não se mostra inflacionário nem desinflacionário”; é neutro. Ou seja, a crise produz impacto inferior à tal marolinha que o então presidente Lula identificou como consequência da crise global de 2007-2008.

Mais que isso, o Banco Central enxerga uma inflação ainda mais fraca tanto no curto prazo como no longo prazo. Independentemente das demais agruras da política, prevê 3,6% em 2017 e 4,3% em 2018, um ano eleitoral, ao longo do qual tanta coisa pode acontecer.

É discurso diferente do conteúdo dos comunicados, das Atas do Copom e dos Relatórios de Inflação anteriores, quando as incertezas, não menos intensas do que as atuais, eram tidas como incubadoras firmes de inflação.

Se as previsões anteriores bem menos confiantes do Banco Central não se confirmaram, até que ponto é possível contar com o cumprimento das novas previsões, tão positivas? O que se pode dizer é que não dá para contar. O Banco Central não elimina a possibilidade de surpresas negativas que derrubem de repente esses prognósticos. Limita-se a dizer que delas não há sinais nos sismógrafos. E que, tudo continuando como está, os juros básicos (Selic) continuarão seu mergulho, provavelmente em direção aos 7% ao ano.

A questão de fundo consiste em saber até que ponto a atual fraqueza da inflação e seu descolamento é estrutural, e vem para ficar, ou se é fruto apenas de circunstâncias cambiantes. Muita gente argumenta que a alta dos preços perdeu a virulência anterior apenas pelos fatores ruins: porque estamos no meio de uma recessão profunda, porque o desemprego atinge 14 milhões de brasileiros e porque a crise fiscal está segurando as despesas públicas. Tudo isso junto derrubou a demanda de mercadorias e serviços e, assim, tirou pressão sobre os preços.

Isso realmente conta, mas não é tudo. Elementos que apontam para uma mudança estrutural da inflação estão espalhados pela economia. A inflação global, por exemplo, nunca foi tão baixa e não há sinais de retomada. Não há hoje a disparada das cotações das moedas estrangeiras no câmbio interno, tão presente nas crises anteriores, fator que poderia empurrar para cima os preços dos produtos importados. Não há atraso no reajuste dos preços determinados ou por leis ou pelo governo (preços administrados), como tarifas de energia elétrica, telefonia e combustíveis. Além disso, o País vive um momento de fartura de alimentos, um dos principais itens da cesta de consumo. E os juros estão desabando, fator que, enfim, deve começar a baratear também o crédito. São fatores que se realimentam uns aos outros.

Ainda pesam, e pesam muito, contra essas causas estruturais positivas outros elementos estruturais altamente negativos que são a desorganização das contas públicas e a baixa disposição política para promover a reforma da Previdência. Mas, por enquanto, como sugere o Banco Central, isso não está produzindo inflação.

CONFIRA:

» Devagar, devagarinho

As operações de crédito pelo sistema financeiro seguem o ritmo da economia: devagar e em queda, como mostra o gráfico. O simples fato de que a expansão do crédito é lenta aponta, também, para a continuação da maré baixa na atividade econômica. Em compensação, o calote, que é o atraso de mais de 90 dias no pagamento dos financiamentos pelos tomadores, também conhecido como inadimplência, recuou em junho de 4% para 3,7%. Esse indicador sugere certa queda no risco do crédito bancário.

 

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