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E os dólares, chegando

O risco que corre o Brasil é de outra vez deixar de tirar proveito da abundância de recursos hoje existente no mundo

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Celso Ming

19 Fevereiro 2016 | 21h00

Na última quarta-feira, esta Coluna observava que há tanto dinheiro sobrando no mundo e tão pouca disposição para canalizá-lo para países emergentes, onde poderia contribuir para a retomada da economia mundial.

No entanto, poucos emergentes estão preparados para receber esses recursos, ou porque estão imensamente desarrumados ou por não disporem de regras confiáveis de jogo para investimentos em infraestrutura.

Neste sábado, o tema é o mesmo, mas o foco é outro. Certo número de analistas econômicos olha para as mazelas do Brasil e conclui que o pior está por vir. Por conta da destruição da confiança, do naufrágio das contas externas, da disparada da dívida pública, da inflação no telhado e de tudo isso junto, entendem que os capitais fugirão daqui ou deixarão de vir para cá. Nessas condições, as cotações do dólar só poderiam disparar no câmbio interno. E, no entanto, as coisas podem não acontecer assim. Nos dias seguintes ao do novo rebaixamento dos títulos do Brasil pela Standard & Poor’s, as cotações do dólar não dispararam.

O mercado financeiro continua trabalhando com o dólar no final deste ano a R$ 4,38, como se vê pela Pesquisa Focus, do Banco Central, mas a firmeza do câmbio à altura dos R$ 4,00 vai contrariando as previsões de tempestade perfeita.

O conhecido administrador de ativos do Fundo Verde, da Credit Suisse Hedging Griffo, Luís Stuhlberger, por exemplo, vem confessando que suas apostas mais contundentes de desvalorização do real não vêm se confirmando.

Diante da flagrante deterioração dos fundamentos da economia brasileira, por que os dólares continuam chegando firmes, a ponto de se prever, neste ano que tem tudo para ser economicamente desastroso, uma entrada de Investimentos Diretos no País (IDP, antes chamados de IED) de pelo menos US$ 60 bilhões, como projeta o Banco Central.

Uma boa hipótese é a de que os administradores de capitais estão sem opção. Os mercados estão encharcados de recursos, como se sabe, o próprio Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) teve de suspender seus planos de retirar moeda dos mercados; grandes bancos centrais já vêm operando a juros negativos ou admitem que podem partir para essa saída dentro de pouco tempo; a China deixou de absorver capitais e passou a perdê-los; insistentes sinais vêm apontando para novas dificuldades em grandes bancos globais; volume nunca visto de investimentos começa a dar prejuízo diante da recessão global, do mergulho dos preços do petróleo e das demais commodities; e grandes fundos de pensão no mundo todo começam a enfrentar a necessidade de reduzir os benefícios a seus associados porque seu patrimônio já não promete os resultados anteriormente esperados.

A verdade é que, apesar dos aleijões políticos, financeiros e morais que já não consegue dissimular, o Brasil não aparece nessa paisagem como o pior dos mundos. O rombo em conta corrente deve cair à metade neste ano e pode ficar positivo em 2018 ou, quem sabe, já em 2017. Há US$ 371 bilhões em reservas e, mais que tudo, o sistema bancário brasileiro demonstra solidez.

Nessas condições, não é tão maluco imaginar que, apesar dos pesares, pequenas proporções de capitais de risco continuem fluindo para cá, o suficiente para evitar novas disparadas do câmbio.

Ao longo da década passada, o mercado global assistiu a um extraordinário boom das commodities. O Brasil tirou pouco proveito disso porque, em vez de investir, de produzir as reformas e de consolidar a capacidade de produzir, preferiu o consumo.

O fim da bonanza das commodities parece estar dando lugar a uma extraordinária bonanza dos capitais. O risco que corre o Brasil é de outra vez, por falta de determinação e pelas vacilações dos seus políticos, deixar de tirar proveito da abundância de recursos hoje existente no mundo.

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