Efeito demonstração

O que aconteceu nesta quinta-feira nos mercados vai se irradiar para toda a economia

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2017 | 05h00

O Brasil experimentou nessa quinta-feira, uma prova do que será o País sem o ajuste econômico que a ex-presidente Dilma tentou desastradamente iniciar no seu segundo mandato, e que ganhou tração com o presidente Michel Temer.

Normalmente, a turbulência no mercado financeiro é vista como um problema apenas dos ricos, que especulam com ações, ou no máximo da classe média que pode ser prejudicada em seus planos de viagem ao exterior por causa da alta do dólar.

Por isso, é mais interessante olhar o que acontece com os juros quando o pânico se instala nos mercados, como ocorreu nesta quinta-feira. Tomando os juros futuros com vencimento em janeiro de 2021, um referencial do custo de dinheiro no Brasil, a taxa subiu de 9,6% para 11,39%, com um salto em apenas um dia de 1,79 ponto porcentual.

Em 28 de dezembro, os juros com vencimento em janeiro de 2021 estavam em 11,38%, mesmo nível de quinta-feira. Daquela data até quarta-feira desta semana, esses juros vieram em tendência de queda, com as oscilações de praxe. Em outras palavras, em apenas um dia, os juros subiram toda a queda acumulada em quase cinco meses.

E tem mais. A alta ontem só não foi maior porque a negociação foi paralisada por ultrapassar um limite máximo de variação. O estrago em apenas um dia teria sido ainda maior se o mercado funcionasse de forma totalmente livre.

Para um cidadão comum que paga 150%, 200% ao ano num cheque especial, uma alta de 1,8 ponto porcentual num contrato de juro futuro pode parecer pouco. Mas isso é uma ilusão. Esses contratos, assim como a taxa Selic fixada pelo Banco Central, são como os alicerces do sistema de juros no Brasil. Quando eles sobem, todas as taxas sobem junto, e as taxas mais do alto sobem muito mais que as da base.

Em outras palavras, o movimento que se iniciou ontem nos mercados, e que num primeiro momento só provocou dores em investidores que foram pegos com o pé trocado, vai se irradiar nas próximas semanas e meses para toda a economia: famílias vão se complicar ainda mais com suas dívidas, trabalhadores perderão empregos, pequenas empresas passarão por dificuldades e fecharão as portas e os muitos pobres terão ainda menos acesso às migalhas da sua sobrevivência.

É importante ter tudo isso em mente quando se tenta entender as interações entre a política e a economia no Brasil. O enfraquecimento radical de um presidente, como ocorreu de forma fulminante com Temer, sempre provocará estresse no mercado, mas não necessariamente um abalo cataclísmico como o de ontem.

A hecatombe de ontem tem uma razão cristalinamente clara. O Brasil é um país estruturalmente quebrado nas suas contas públicas, e a situação só vinha melhorando porque um plano de reconstrução fiscal, do qual a principal parte é a reforma da Previdência, vinha sendo tocado com relativo sucesso.

Ontem e hoje, “literalmente do dia para a noite, e com o ‘literalmente’ usado de forma certa”, como comentou conhecido gestor de recursos, sumiram do mapa a reforma da Previdência e outras providências para consertar os estragos da política econômica irresponsável da segunda metade do governo petista. 

Com a governabilidade de Temer reduzida a pó – esta é, pelo menos, a fotografia do momento –, adeus reformas politicamente difíceis, como a da Previdência e a trabalhista. E o País entrou de forma instantânea no futuro negro da inviabilização fiscal e da paralisia em termos da busca de eficiência.

É claro que muita água vai rolar e, a médio prazo, variados cenários, dos horripilantes aos bons, podem derivar dessa quinta-feira. O que fica claro, entretanto, é a necessidade absoluta de o Brasil encontrar uma forma de tocar a agenda de reformas torpedeada ontem. A não ser que a gente conclua que juros altos, desemprego, empresas fechando e pobres sofrendo não sejam nenhum grande problema. 

 

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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