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Entrevista.

Para o economista, apesar da alta expressiva, a Selic teria caído muito antes e ainda não chegou ao nível certo para deter a inflação

'Elevar os juros adianta, desde que seja o suficiente', diz Schwartsman

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ALEXA SALOMÃO

11 Abril 2014 | 02h 08

Para o ex-diretor do Banco Central, o economista Alexandre Schwartsman, o ciclo de alta do juro não deveria ser interrompido neste momento. "Teriam de buscar 12%, 12,5%, 13%, alguma coisa assim para trazer a inflação para baixo." A seguir, os principais trechos da entrevista.

A ata do Copom indica que o ciclo de alta dos juros está perto do fim. Após a alta do IPCA em março, o que deve ser feito?

Por partes. O ciclo está perto do fim, sim. Muito provavelmente, a inflação de março vai levar a um novo aumento em maio - que deve ser o aumento final. O juro deve ir a 11,25%. A ata sinaliza mesmo que chega, acabou, mas veio a inflação e eles vão forçar mais um pouco. Guardadas as devidas proporções, foi o que aconteceu em janeiro. Sinalização na ata relativa ao encontro de novembro e no relatório de inflação que iriam diminuir o passo. Mas veio a inflação muito alta em dezembro e eles tiveram de manter o passo em 0,50 pontos em vez de reduzir para 0,25. Ou seja, o Copom continua se guiando pela inflação de curto prazo. Basicamente, porque cometeu tantos erros lá atrás que agora está tentando corrigir dessa forma um tanto desastrada. Mas ele vai parar o ciclo de alta. Tem mais o que a política monetária possa fazer? Claro que tem. As estimativas de taxa de juros neutra - aquela que mantém a inflação constante, é ao redor de 5% ao ano, real 5% mais 6, 2%, que é a expectativa de inflação para os próximos 12 meses, dá algo próximo de 11,5%, 11,75% para a taxa neutra agora. Em tese, teriam de trazer a Selic para cima desse valor. Não é que não funciona. Não funciona porque baixaram muito e agora, embora tenha tido um aumento expressivo, estão subindo de forma tímida. Mal estão repondo a taxa de juro neutra.

Teria de subir bem mais?

Não tenho a menor dúvida. Teriam de buscar 12%, 12,5%, 13%, alguma coisa assim para trazer a inflação para baixo. Não tem milagre nessa história. Dizem que subiu muito, mas subiu muito porque lá atrás baixaram muito. Vamos lembrar disso. Baixaram para 7,25% quando a expectativa de inflação estava em 5,5%, 6%. Fizeram uma aposta de que a taxa de juro real neutra cairia e ela não caiu. Erraram e agora tentam corrigir o erro.

Só aumento de juros adianta?

Se fizer com juros vai adiantar, desde que seja o suficiente. Mas poderiam fazer menos, se tomassem outras medidas, particularmente no campo fiscal. Se tivessem um superávit fiscal de verdade, em bons níveis, em 3% do PIB, provavelmente conseguiriam reduzir a inflação com menos juros. Mas também não parece que é algo que vá acontecer agora. Se o governo não faz a parte fiscal, cabe ao Banco Central fazer a parte monetária. A gente colhe exatamente o que plantou. Tivemos uma política monetária expansionista esse tempo todo, uma política fiscal expansionista, tivemos os bancos públicos também agindo do lado expansionista, temos uma economia que tem restrições para expandir a produção por conta de limitações de oferta - seja de mão de obra qualificada, de infraestrutura, de baixo investimento. A combinação disso se traduz exatamente naquilo que se observa hoje: inflação alta, crescimento baixo e piora nas contas externas. Não há nenhuma surpresa.

Qual a sua projeção para a inflação de 2014?

Vai estar acima de 6,5%. Algo como 6,6%. Vai passar o teto da meta. Do ponto de vista de política monetária, o jogo está jogado. O que se fizer hoje vai ter efeito na inflação do ano que vem. Na política fiscal também. O resto é o imponderável. A taxa de câmbio pode ajudar. Nos atuais níveis, não piora, mas não ajuda. Basicamente, é jogar na mão de Deus.

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