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Em tecnologia, diversidade é 'deprimente'

FERNANDO SCHELLER , ENVIADO ESPECIAL / CANNES - O Estado de S.Paulo

19 Junho 2014 | 02h 05

Avaliação é da diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, conhecida por lutar pela igualdade da mulher no mercado de trabalho

A diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, esteve ontem no Cannes Lions - Festival Internacional de Criatividade e voltou a criticar a dificuldade da indústria da tecnologia em abraçar a diversidade de gêneros, culturas e raças em suas equipes como uma bandeira importante. "Quando olhamos onde estamos, a questão da diversidade de gêneros é bastante deprimente", disse.

Segundo ela, a questão é grave no setor de tecnologia, mas afeta o mercado de trabalho como um todo. "Há pelo menos três décadas, em mercados desenvolvidos como os EUA e a Europa, as mulheres já são 50% ou mais do total de pessoas que sai das universidades. Ainda assim, 94% dos principais presidentes de empresas ainda são homens."

Números divulgados em maio pelo Google reforçaram o argumento da executiva: 70% dos 45 mil funcionários do buscador no mundo são homens. O porcentual de mulheres em cargos de liderança é de 21%. O Yahoo, comandado por Marissa Mayer, tem mais mulheres (37%), mas a presença delas em cargos de liderança não é muito maior (23%).

Ambas as empresas dizem que querem melhorar esse balanço. Sheryl afirmou que o Facebook também está engajado na causa da diversidade e deverá divulgar em breve informações sobre o andamento desse tema em seus recursos humanos.

Em tecnologia, disse a executiva, o problema é duplo: além da resistência social em promover mulheres a cargos de liderança, elas também resistem a se matricular em cursos como ciências da computação - nos EUA, só 13% dos formandos nesta área são mulheres.

Por isso, Sheryl diz que o trabalho para equilibrar o poder de homens e mulheres em grandes empresas precisa começar mais cedo, no jardim de infância. Um dos programas da organização que a executiva fundou - a Lean In - envolveu escoteiras. "Percebemos que, na adolescência, as meninas começam a se afastar das posições de liderança, para não serem vistas como agressivas."

Marketing. Na opinião de Sheryl, os profissionais que visitam Cannes todos os anos podem ter um papel vital em criar um quadro entre gêneros mais equilibrado. O setor de marketing pode ir além dos estereótipos em campanhas publicitárias. Ela citou a campanha Retratos da Beleza Real, da Ogilvy Brasil, como um exemplo de propaganda que desafia visões pré concebidas sobre as mulheres, começando por elas mesmas.

Sheryl criticou a opção de mostrar a mulher que trabalha sempre em dúvida sobre que peso dar à carreira e à família. "Por que a mulher tem de estar em conflito, e segurando um bebê enquanto trabalha?", questionou. "Entre mulheres que trabalham, 70% precisam ajudar nas despesas da casa. E por que elas não podem ser felizes no trabalho?"

Essa mudança de percepção precisa também passar pelas funções associadas ao homem. "Gosto das campanhas que mostram os pais sendo pais. (Mas) a quantidade de pais que ficam em casa para cuidar dos filhos também é pequena", disse. Segundo ela, a inspiração para a questão do gênero pode vir dos casais homossexuais: "Entre casais do mesmo sexo, as responsabilidades são partilhadas de forma mais igualitária."

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