SERGIO CASTRO/ESTADÃ?O.
SERGIO CASTRO/ESTADÃ?O.

Em tempo de crise, nível escolar faz a diferença

Para profissionais com ensino médio, superior completo e incompleto foram criadas 116 mil vagas, segundo dados do Caged

Paulo Saldaña, Rodrigo Burgarelli, Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 03h00

Quanto maior a escolaridade, menor a chance de ficar desempregado em tempos de crise. Apesar do derretimento de vagas de trabalho nos últimos meses, profissionais com mais anos de educação estão em situação mais confortável no mercado de trabalho formal. A situação para quem tem ensino superior, completo ou incompleto, e ensino médio – o que inclui também educação profissional – foi de aumento de oportunidades, mesmo com o cenário de fechamento de milhares de vagas.

Com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego, o Estado cruzou todos os registros de contratação e demissão partindo do nível de escolaridade. Os dados são referentes aos 12 meses anteriores a maio, mês mais recente com informações detalhadas disponíveis.

Mesmo dentro de um cenário em que o saldo total é de fechamento de 593 mil vagas no País, houve criação de116 mil vagas para os grupos de profissionais com ensino médio, superior completo e incompleto. Esses são os três únicos perfis, entre os nove catalogados no registro do governo, em que o saldo de vagas é positivo. No outro lado da moeda, estão profissionais que não tiveram oportunidades de, pelo menos, acessar o ensino médio. 

Produtividade. Professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Madeira explica que a formação se torna um ativo importante em tempos de enxugamento de vagas, porque as empresas vão privilegiar funcionários com potencial mais produtivo. “Quanto mais qualificado é o profissional, maior o encaixe dele na demanda específica que a empresa tem, que exige habilidades especificas.”

Madeira diz que a perda de vagas entre os profissionais com pouco estudo reflete um grande desafio do País: a baixa produtividade dos trabalhadores. “O trabalhador menos qualificado é menos produtivo e mais substituível. Na hora de cortar gastos, o empregador se desfaz dele”, explica.

Rodrigo Barbalho, de 19 anos, nem precisou procurar para conseguir um emprego depois que melhorou sua qualificação. Recém-formado no curso técnico de mecânica de precisão no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Barbalho foi contratado por uma fábrica de peças para o setor têxtil. “O encarregado da empresa foi à escola procurando alguém com o perfil para a vaga, duas semanas depois de acabar o curso”, conta ele, contratado há dois meses.

O jovem diz que não estava preocupado com a possibilidade de desemprego. “Eu sabia que o mercado precisava de profissionais com a minha qualificação. Dos meus colegas, a maioria está empregada.” Barbalho é o primeiro da família a conquistar o diploma: o pai parou na metade do ensino fundamental e a mãe não concluiu o ensino médio. “Tenho tios e um primo que trabalhavam em empregos sem qualificação e foram mandados embora.” 

O professor Leonardo Trevisan, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que a atual adversidade econômica tem mostrado certo amadurecimento do mercado de trabalho brasileiro. “Apesar da violência da crise, o mercado está menos suscetível a fatores conjunturais do que se pensava”, avalia. “A conquista de aumento real nos reajustes salariais, embora pequeno, derruba a leitura de que o mercado está excessivamente precarizado, fragilizado. A negociação não está toda com as empresas e há força com as categorias.”

Segundo Trevisan, a perda de vagas entre os menos escolarizados reflete ainda o cenário de aumento da oferta de mão de obra. “Com a crise, o empregador consegue candidatos com maior capacitação e experiência por salário mais baixo”, descreve. Além da conjuntura desfavorável, diz ele, o perfil estrutural da economia pesa contra quem estudou menos. “Esse tende a sair do mercado de trabalho, independentemente da crise. A demanda é por profissionais especializados.”

Fatores. O desemprego entre a população menos qualificada leva ao aumento da informalidade. Em agosto, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já mostrou que o número de trabalhadores sem carteira assinada aumentou 4,7% no segundo trimestre, na comparação com o mesmo período de 2014. E o custo social dessa tendência é alto. “A informalidade precariza o mercado de trabalho e é uma aposta negativa de futuro. Se nossa capacidade de produzir for menor durante a vida ativa, nosso custo na velhice, será maior para a sociedade”, explica Trevisan. 

Setores rapidamente atingidos pela crise, segundo Madeira, também são responsáveis pelo saldo negativo de empregos entre aqueles com baixa escolarização. “A indústria, por exemplo, tem um grande contingente de mão de obra desqualificada, ligado ao processo produtivo mais básico, que são os primeiros que saem quando para a produção.” O contrário acontece, no geral, com o grupo mais qualificado. “Eles vão justamente ajudar a empresa a repensar suas estratégias num cenário de crise. E, como no País esse trabalhador é um ativo raro, a empresa não quer se desfazer dele porque sabe a dificuldade de encontrá-lo depois. Será um custo alto formar outro profissional novamente.”

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