Nilton Fukuda | ESTADÃO CONTEÚDO
Nilton Fukuda | ESTADÃO CONTEÚDO

Renée Pereira/Textos Nilton Fukuda/Fotos ENVIADOS ESPECIAIS ICARAÍ DE AMONTADA (CE), O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

O vento forte que não para de soprar fez da pequena Icaraí de Amontada, na costa oeste do Ceará, uma ilha de usinas eólicas. Elas geram energia elétrica usando a força dos ventos. Ali, para qualquer lado que se olhe, modernas e gigantescas torres de quase 150 metros de altura – do tamanho de um prédio de 42 andares – destoam do cenário rústico da antiga vila de pescadores, com suas dunas, praias e lagoas. Reduto de atletas estrangeiros praticantes de kitesurf e windsurf, a comunidade, de 2,4 mil habitantes, entrou para a lista dos melhores ventos do Brasil e ajudou a elevar a participação da energia eólica para mais de 30% do consumo do Nordeste.

Os parques instalados na região de Amontada estão entre os mais eficientes do planeta. Enquanto no mundo, as usinas eólicas produzem, em média, 25% da capacidade anual, no Complexo de Icaraí esse porcentual é mais que o dobro. As 31 torres que compõem o parque produzem 56% da capacidade anual. Para ter ideia do que isso significa, nos Estados Unidos, esse indicador é de 32,1%; e na Alemanha, uma das maiores potências eólicas do mundo, de18,5%. “O vento no Nordeste é muito diferenciado”, afirma Luciano Freire, diretor de engenharia da Queiroz Galvão Energia, dona do complexo eólico de Icaraí.

É por causa da qualidade desse vento – forte e constante – que o Nordeste despontou como uma das maiores fronteiras eólica do mundo. Hoje, os parques em operação na região são responsáveis pelo abastecimento de boa parte da população local de 56 milhões de pessoas. Em 17 de abril deste ano, por exemplo, quando os nordestinos iniciavam mais uma jornada de trabalho, às 9h06, as eólicas produziram 50% da energia consumida naquele momento. Por períodos mais longos, como um dia inteiro, os parques – que até bem pouco tempo eram incipientes no Brasil – chegaram a produzir 35% da carga média do Nordeste, recorde alcançado no dia 19 de maio.

Não é difícil entender a rápida expansão das eólicas no Brasil. Em 2008, com a crise internacional, o consumo mundial de energia despencou, paralisou uma série de projetos e deixou as fábricas ociosas. Em busca de demanda, elas desembarcaram no Brasil – onde o uso da energia crescia a taxas de dois dígitos – e derrubou o preço das eólicas, até então caras por aqui. A partir de 2009, com leilões dedicados à essa fonte de energia, os investimentos decolaram.

De lá pra cá, o setor recebeu R$ 67 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Esse montante colocou o País na 10ª posição entre as nações com maior capacidade instalada do mundo. Foi um grande avanço. Até 2008, a potência do parque eólico brasileiro era de 27 megawatts (MW). No mês passado, alcançou a marca de 9,7 mil MW, volume suficiente para abastecer mais de 45 milhões de habitantes. No total, são 5.141 turbinas instaladas Brasil afora. Cerca de 82% delas estão no Nordeste.

Complementar. Mas, ao contrário das hidrelétricas que entram na base do sistema elétrico, as eólicas devem ser usadas como complementos por serem intermitentes. Mesmo no Nordeste, onde o vento é mais constante, é preciso considerar as intempéries da natureza, ou seja, pode parar de ventar a qualquer momento. Em 2015, entretanto, não fossem por elas, o Nordeste poderia ter entrado num traumático racionamento por causa do baixo nível dos reservatórios, especialmente o da hidrelétrica de Sobradinho, responsável por 58% do armazenamento da Região.

Segundo Bernardo Bezerra, diretor da consultoria PSR, especializada em energia elétrica, entre 1993 e 2015, a vazão de Sobradinho ficou 25% abaixo da média histórica. “Houve uma mudança no padrão do Nordeste.” Até abril deste ano, o volume dos lagos da região estava 57% abaixo do verificado em 2012 – último ano em que as represas conseguiram ficar acima de 70%.

Com alguns raros projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) em desenvolvimento no Estado de Pernambuco e sem potencial para grandes hidrelétricas, a vocação do Nordeste tem se inclinado cada vez mais para a energia eólica. Segundo a presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum, até 2020, a participação da energia do vento na matriz elétrica brasileira vai saltar dos atuais 6% para 20% da capacidade instalada. No Nordeste, essa participação será ainda maior, de 30%. Em termos de consumo, a fonte será capaz de atender cerca de 70% da carga da região em alguns momentos do dia.

Emprego. Nos próximos três anos, diz Elbia, o volume de investimentos em novos parques será de R$ 40,8 bilhões. Ela destaca que cada megawatt de eólica instalado cria 15 postos de trabalho em toda cadeia produtiva, desde o canteiro de obras até a fabricação de pás, aerogeradores e torres. Em tempos de crise econômica, a notícia é muito bem-vinda. Seguindo o cálculo da Abeeólica e considerando que entre 2017 e 2019 estão previstos mais 6,8 mil MW de potência, o setor pode gerar 102 mil postos de trabalho.

Bahia, Rio Grande do Norte e Ceará são os Estados com maior número de empreendimentos em construção ou com capacidade já contratada. Os novos investimentos podem amenizar um pouco a crise que se alastra pelo País. Quase sempre localizados em áreas pouco desenvolvidas, os empreendimentos trazem forte melhoria na renda da população local, que tem poucas opções de emprego.

Nos últimos anos, com a construção dos parques eólicos, muitas famílias passaram a contar, do dia para a noite, com uma renda generosa para os padrões da região – cada torre pode render até R$ 1 mil para as famílias. Segundo a Abeeólica, no Nordeste, a construção das usinas envolveu mais de 2 mil famílias. No Brasil inteiro, a construção dos parques gera R$ 10 milhões por mês de renda para as famílias que arrendaram suas terras.

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Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

Os moradores de Icaraí de Amontada, no litoral do Ceará, já se acostumaram com a nova paisagem da região, com torres eólicas a perder de vista. Mas ainda se fazem algumas perguntas. Questionam o impacto que as usinas podem causar à região no decorrer dos anos e não entendem por que continuam pagando uma conta de luz tão alta se os parques eólicos estão praticamente no seu quintal. “Deveríamos ter energia elétrica de graça”, afirma Raimunda Alves dos Santos, que paga R$ 180 por mês de luz.

Entre os moradores, essa é uma reclamação recorrente. É difícil compreender por que uma energia produzida com o vento – que é de graça – pode ser tão cara. Se eles fizessem essa pergunta às empresas geradoras, teriam como resposta uma explicação complexa, que envolve toda a estrutura do setor. “O Brasil funciona como um sistema único, a precificação é nacional e não regional”, diz a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum.

Em outras palavras, significa dizer que todos os custos do setor são divididos entre todos os consumidores do País. Para a eólica começar a fazer diferença na conta de luz dos nordestinos, é necessário que ela ganhe participação não só na região, mas em todo o País. “À medida em que a eólica ganhar espaço na carteira das distribuidoras, vai haver redução para os consumidores”, diz Elbia. Por enquanto, Raimunda e seus vizinhos terão de esperar.

Apesar da reclamação sobre a conta, os moradores da vila de pescadores, a cerca de 200 km de Fortaleza, reconhecem os avanços trazidos pelos parques eólicos. Embora mantenha o ar rústico do turismo praiano, as pousadas e restaurantes ganharam uma certa sofisticação nos últimos anos com a chegada dos profissionais que levantaram os parques.

O casal Maria Edilene Nascimento de Castro e o marido José Nunes de Castro, por exemplo, transformou uma pequena casa de sapé em um dos cinco melhores restaurantes da cidade. “Hoje, também temos quartos para alugar”, diz ela. Mesmo caminho seguiu Valdirene Maria Campos Comina, de 34 anos, natural de Jericoacoara (CE). Casada com um italiano praticante de wind surf, ela se mudou para Icaraí de Amontada, em 2009, e abriu uma lanchonete com o marido. “Logo em seguida chegaram os parques eólicos. Minha lanchonete virou um restaurante, que servia PF (prato feito) para os funcionários da obra.” Hoje, além do restaurante, ela toca uma pousada arrendada. “Só tenho a agradecer por esse projeto.”

Valdinere conta que o movimento de funcionários dos parques diminuiu bastante com o fim das obras. “Hoje em dia fico rezando para quebrar alguma máquina do parque eólico para mandarem novas equipes de manutenção”, brinca. Agora, os principais clientes do restaurante de Valdirene são os turistas.

Mas eles torcem o nariz para a expansão das eólicas na região. Nos últimos anos, os estrangeiros tomaram conta do local. A partir do final de julho, eles começam a desembarcar em Icaraí para praticar esportes como kitesurf e wind surf, que dependem dos ventos fortes. Alguns ficam em pousadas. Muitos deles, no entanto, já compraram casas na vila de pescadores – empurrando os nativos para bairros mais afastados.

Os moradores de Icaraí contam que já houve casos de estrangeiros que tentaram processar as pousadas porque não foram informados da presença dos parques eólicos no local. “Eles reclamaram que as torres alteraram a paisagem natural da comunidade”, afirma o dono de uma pousada, que prefere não se identificar.

Durante a construção dos parques eólicos na região de Amontada foram criados milhares de empregos para a população da região. Só os complexos Taíba e Icaraí de Amontada, da Queiroz Galvão, criaram 1.734 empregos diretos e indiretos. Nesses parques, 22 proprietários foram beneficiados pelo arrendamento de suas terras para a construção das torres e recebem cerca de R$ 2 milhões por ano. Normalmente, os contratos de arrendamento duram entre 25 e 30 anos.

Pescadores. A construção dos parques eólicos e a expansão do turismo tiveram um efeito colateral. Com uma oferta maior de trabalho durante as obras, os pescadores deixaram o mar e viraram vigias, jardineiros e ajudantes gerais. José Santos do Nascimento era pescador desde criança. “Passava até oito dias no mar. Mas aí cansei e resolvi ficar em terra”, diz. Ele arrumou emprego como ajudante de pedreiro na construção de uma pousada e por ali ficou. Com o término da obra, virou vigia e hoje trabalha como jardineiro. “Também cuido de um burro que puxa a charrete com turistas interessados em conhecer a vila de Icaraí.”

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Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

Na tranquilidade de Icaraí, o barulho feito pelas pás eólicas com a força do vento incomodou muitos moradores que tinham casas próximas aos parques. José Daniel, conhecido como Dedé, mora ao lado das torres e conta que “no início acordava no meio da noite por causa dos ruídos” e não conseguia mais dormir. “Foi um período complicado, mas já estou me acostumando”, diz ele, que vive da pesca e da plantação de mandioca. Na tarde do dia 31 de maio, quando a reportagem esteve na região, Dedé atravessava o parque eólico de Icaraí de Amontada com uma carroça cheia de pés de mandioca puxada por um boi.

A aposentada Raimunda Martins dos Santos, de 77 anos, também sofreu no início da operação das torres. Algumas delas estão praticamente no seu quintal, entre pés de coqueiro, de limão e acerola. Todos os dias, basta abrir a porta da cozinha ou a janela, para avistar as dezenas de torres construídas ao lado de sua casa.

Apesar do movimento cadenciado, as pás fazem um certo barulho, reclama Raimunda. Mas, assim como Dedé, ela diz que já está se acostumando. “Tenho uma filha especial. O barulho perturbava ela, que não deixava ninguém dormir na casa”, conta a moradora, que mora no local há 30 anos. Para ela, que nasceu em Acaraú, também no Ceará, a região mudou muito nos últimos anos, especialmente em relação à oferta de emprego. “No passado, a gente tinha de fazer de tudo um pouco pra sobreviver. Eu trabalhei na roça, plantei milho, feijão, fiz bordado e costurei roupa.”

Com a chegada dos parques eólicos, o filho de Raimunda, Francisco Lourenço dos Santos, conseguiu uma nova profissão. Depois de trabalhar na construção de algumas usinas na região, fez curso e virou auxiliar de montador de eólicas. Depois dos parques de Icaraí, ele passou três meses numa construção no Uruguai. De volta, agora, aguarda o início da implantação dos próximos empreendimentos.

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