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Enriquecimento de urânio pelo Brasil tem início adiado

Agencia Estado

16 Janeiro 2006 | 21h 04

Marcado para ser iniciado nesta terça-feira, na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o início da operação de enriquecimento de urânio em escala industrial, realizado pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), foi adiado. A mudança de data é um problema recorrente, já que o começo das atividades foi prorrogado por quase dois anos em função da insistência da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em ter acesso à tecnologia brasileira. A inspeção teria como objetivo garantir que o material produzido não seria usado em bombas atômicas. Segundo a assessoria de imprensa da estatal, localizada em Resende, na região do Vale do Médio Paraíba, a nova data depende "da agenda das autoridades". Lula tem compromissos no Rio na sexta-feira (20), mas a possibilidade de que a unidade entre em operação durante a visita presidencial foi descartada. A Fábrica de Combustível Nuclear está funcionando em fase de testes desde agosto. Durante este período, foi produzida uma pequena quantidade de urânio enriquecido para adaptar as centrífugas aos padrões necessários à produção industrial e também para atender aos requisitos da Comissão Nacional de Energia Nuclear, da AIEA e da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC). A etapa de checagem, no entanto, deveria ser encerrada em janeiro, segundo a direção da INB, que já admitiu problemas de restrição orçamentária. Com isso, o cronograma do projeto foi afetado, adiando de 2008 para 2010 a conclusão da primeira etapa, quando 10 conjuntos de centrífugas serão capazes de produzir, anualmente, 114 mil Unidades de Trabalho Separativo (UTS) - medida utilizada para o urânio. Este total corresponde a 60% das necessidades de combustível nuclear das usinas de Angra 1 e Angra 2. Para atingir a auto-suficiência, é preciso produzir quase o dobro de urânio enriquecido, no total de 203 mil UTS. O orçamento para o projeto de enriquecimento previsto para este ano é de R$ 22,4 milhões, informou a assessoria de imprensa, admitindo, porém, que o total ideal para garantir o cumprimento da meta de 2010 é uma quantia anual de, aproximadamente, R$ 35 milhões. No ano passado, foram inicialmente investidos R$ 9,96 milhões e aprovados recursos suplementares da ordem de R$ 8,7 milhões. O processo de enriquecimento do urânio corresponde a 35% do custo da transformação do minério em combustível nuclear. O quilo do urânio natural custa US$ 40, mas quando é enriquecido, ou seja, tem a sua concentração aumentada, passa a custar US$ 1.500. Para ser usado na geração de energia, o grau de enriquecimento varia entre 3% e 4%, já que para artefatos bélicos é necessário se chegar a 90%. Atualmente, o urânio extraído das minas de Caetité, na Bahia, é transformado em uma pasta amarela (yellow cake) e, em seguida, enviado para o Canadá, onde é modificado para a forma de gás, e, em seguida, enriquecido na Europa, por um consórcio de empresas da Holanda, da Inglaterra e da Alemanha. De volta ao Brasil, é convertido em pó, prensado em pastilhas e acondicionado em varetas que, por sua vez, são usadas como combustível nas usinas. A fase estratégica de enriquecimento, hoje realizada por apenas oito países no mundo, só vai ser possível por causa das centrífugas desenvolvidas no Centro Tecnológico da Marinha, em Aramar, São Paulo. Elas são mais econômicas do que as tradicionais, pois giram sobre um eixo magnético, viabilizando um menor desgaste do material, e, por sua vez, dos custos, se comparados ao eixo mecânico.

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