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Eugene Borodin

Entre a fantasia e a realidade

O que a moda dos hoverboards, essas pranchas flutuantes que não flutuam, revela sobre a atual dinâmica dos negócios

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The Economist

20 Janeiro 2016 | 05h00

Essa passou rápido. Há alguns meses, os hoverboards (skates elétricos de duas rodas) eram a sensação do momento. Agora perderam a graça: descobriu-se que às vezes pegam fogo ou jogam a pessoa no chão e, mesmo quando não chegam a esses extremos, causam não pouca confusão. Em toda a sua carreira, Mike Tyson foi nocauteado apenas cinco vezes. Um vídeo no YouTube mostra o ex-campeão de boxe sendo derrubado por um hoverboard em questão de segundos.

Mais que a história de uma moda passageira, o frisson em torno do brinquedo pode ser visto como uma parábola da dinâmica corporativa no contexto daquilo que um político de esquerda mais radical, como o atual líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corby, provavelmente chamaria de “capitalismo avançado”. “No episódio estão presentes as principais características da economia moderna”, diz Josh Horwitz, do site de notícias Quartz: “tendências que se tornam virais, polos industriais gigantescos, batalhas judiciais envolvendo questões de propriedade intelectual, regulamentação precária, efeitos que se espalham globalmente.” Resta saber se, além de servir de parábola, a mania contém uma profecia: um número cada vez maior de analistas acha que 2016 será o ano em que, depois de sua vertiginosa excursão pelo mundo das nuvens, a nova economia se esborrachará no chão.

A onda do hoverboard ilustra três facetas do moderno mundo dos negócios. A primeira é a propensão a turvar a distinção entre fantasia e realidade. Antes de chegar às prateleiras do mundo real, muitos dos aparelhos de alta tecnologia atuais existiram no universo da ficção científica: basta lembrar dos “comunicadores” usados pelos personagens de Jornada nas estrelas, ou de seus computadores, que eram capazes de reconhecer comandos verbais. Elon Musk quer transportar pessoas pela Califórnia em cápsulas que circulariam por túneis a vácuo, alcançando velocidades extraordinárias. Jeff Bezos quer usar drones para entregar encomendas. Os próprios hoverboards foram apresentados ao mundo por Hollywood, em De Volta Para O Futuro 2.

Um dos problemas desses skates elétricos é que eles não se saem muito bem na hora de transpor o limite entre fantasia e realidade: em vez de flutuar alguns centímetros acima do chão, usam rodas para se locomover. Para contornar o problema, os fabricantes do brinquedo tiraram outro coelho de suas cartolas de fantasias: difundiram a ideia de que os hoverboards fazem parte da vida das celebridades. O truque foi colocar o produto nos lugares certos: na cerimônia de entrega dos prêmios da MTV e sob os pés de Justin Bieber. A mania ganhou impulso quando celebridades de segundo time passaram a imitar as de primeira grandeza, no que foram logo copiadas por diversos aspirantes a seus 15 minutos de fama. Kendall Jenner, uma modelo que ganhou algum destaque participando de reality shows, postou um vídeo andando num hoverboard. Mais de um milhão de pessoas “curtiram” o post no Instagram. O rapper Wiz Khalifa foi detido por circular com seu skate elétrico pelo aeroporto de Los Angeles. Um padre filipino usou o brinquedo para rodopiar pela nave de sua igreja enquanto cantava para os fiéis.

A mania dos hoverboards também ilustra a agilidade que atualmente caracteriza o mundo dos negócios, da excelência do parque industrial chinês de Shenzhen, ao alcance das plataformas de comércio eletrônico, tanto na China (Alibaba), como nos Estados Unidos (Amazon). Os fabricantes chineses são conhecidos por produzir imitações baratas com enorme rapidez. Agora, com a chegada das plataformas de internet, eles estão mais eficientes que nunca: fazem grandes pedidos de peças pelo Alibaba, que também atende aos atacadistas interessados em realizar grandes pedidos de produtos acabados. A Amazon fecha a procissão, permitindo que consumidores ocidentais adquiram seus hoverboards com o clique de um mouse.

Por fim, há uma terceira característica do mundo dos negócios atual de que a moda dos hoverboards é ilustrativa: a dificuldade em regulamentar uma cadeia global de suprimentos que começa com uma fantasia e termina com um pacote da Amazon, passando, no meio do caminho, por uma movimentada planta industrial chinesa. Em todos os momentos da cadeia de suprimentos do hoverboard, a ênfase recai sobre a rapidez, em detrimento da competência. Segundo a agência britânica de normas técnicas, de 17 mil hoverboards examinados, 15 mil apresentaram problemas com plugues e fios elétricos, carregadores, baterias e botões de desligamento de emergência. Responsabilizar por esses problemas as diversas empresas envolvidas na fabricação do brinquedo é tarefa árdua e frustrante: as fábricas terceirizam o máximo que podem a produção, e os varejistas online muitas vezes são apenas fachadas eletrônicas que não tem nenhuma influência sobre a qualidade do produto. O fato de que os direitos sobre o brinquedo estejam sendo reivindicados na Justiça por três fabricantes diferentes torna ainda mais complicada sua regulamentação — o que não explica, porém, como os varejistas americanos puderam comercializar os produtos sem que eles tivessem sido submetidos nem mesmo aos mais básicos testes de segurança.

Brincando à beira da legalidade. O problema talvez tenha se resolvido sozinho: tantos hoverboards pegaram fogo que a Amazon restringiu drasticamente o número de modelos que comercializa nos EUA e baniu o brinquedo de seu site na Grã-Bretanha. Na China, diversas empresas pararam de produzi-lo. No entanto, para um número extraordinário de empresas da nova economia, o problema regulatório permanece sem solução.

Muitas startups de tecnologia inclinam-se a adotar a estratégia dos fabricantes de hoverboards, aproveitando-se de ambiguidades legais na esperança de que legisladores e juízes acabem ajustando a legislação às novas realidades comerciais. É uma aposta arriscada: muitas das grandes empresas atuais são como skatistas se equilibrando em cima de hoverboards, a caminho de um terreno acidentado. O Uber pode ser obrigado a considerar seus motoristas como empregados, e não mais como simples prestadores de serviço, o que resultaria numa conta de milhões de dólares em salários atrasados. O impacto sobre o modelo de negócios da companhia seria devastador. É possível que o Airbnb tenha de respeitar as mesmas normas de segurança que se aplicam aos hotéis.

Se regulamentações adversas forem realmente adotadas, então, além de parábola, o fiasco dos hoverboards terá realmente servido de profecia. Faz tempo que o Vale do Silício exibe alguns dos traços característicos das bolhas especulativas: empresas disputando para ver quem constrói a sede mais chamativa, e CEOs competindo para gerar as ideias mais extravagantes, que irão “mudar o mundo”. Há indícios cada vez mais numerosos de que os valores atribuídos aos “unicórnios” de tecnologia não se sustentarão quando essas startups bilionárias abrirem seu capital e se expuserem aos rigores do mercado de ações. Algumas delas têm desistido no último momento, enquanto outras, como a desenvolvedora de softwares de segurança para dispositivos móveis Good Technology, lançam suas ações a preços mais baixos do que contavam fazê-lo. Eventuais mudanças na legislação podem tornar o cenário ainda mais inóspito, fazendo com que essas empresas tenham o mesmo destino dos hoverboards: explosões, seguidas da formação de nuvens de fumaça.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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