AP PHOTO/EVAN VUCCI
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Esbarrando numa guerra comercial

Trump se concentra noalto déficit comercial dosEstados Unidos com a China, mas há algo erradocom essa fixação

Paul Krugman, The New York Times

25 Março 2018 | 05h00

“Guerras comerciais são boas e fáceis de vencer”, declarou Donald Trump há algumas semanas, depois de anunciar novas tarifas sobre a importação de aço e alumínio. Na verdade, guerras comerciais raramente são bombas e de modo nenhum são fáceis de ganhar – especialmente se você não tem a mínima ideia do que está fazendo. E esse pessoal de fato não sabe o que está fazendo.

É estranho, num certo sentido. Afinal, comércio é uma matéria que Trump realmente nutre uma paixão. Ele tentou aniquilar o Obamacare, mas aparentemente sua principal preocupação foi manchar o legado do seu predecessor. Ele queria reduzir os impostos, mas apenas para contabilizar uma “vitória” do que por saber do que se tratava. Mas reduzir o déficit comercial é uma antiga obsessão do presidente, de modo que era de se esperar que ele aprendesse alguma coisa sobre como funciona o comércio mundial ou pelo menos que ele se cercasse de pessoas que entendessem do assunto.

Mas não. E o que ele não sabe vai prejudicar você, leitor.

No caso do aço, eis o que ocorreu: primeiramente Trump anunciou enormes tarifas, aparentemente em nome da segurança nacional, enfurecendo os aliados dos Estados Unidos, que são a principal fonte das nossas importações de aço. Em seguida, veio o que pareceu um recuo: o governo isentou Canadá, México, União Europeia e outros países daquelas tarifas.

Esse recuo foi uma reação às ameaças de retaliação ou o governo acabou entendendo que as tarifas afetariam especialmente os nossos aliados? De qualquer maneira, Trump viu-se diante da pior das situações: irritou países que deveriam ser nossos aliados e criou a reputação de um aliado e parceiro comercial nada confiável, sem contribuir muito para um setor que, supostamente, estava tentando ajudar.

Síndrome da China. Agora temos o Trumptrade 2, ou a Síndrome da China. Na quinta-feira, o governo anunciou que vai taxar vários produtos provenientes da China, e os detalhes serão informados mais tarde. Como vai funcionar essa taxação?

Vamos esclarecer: no que se refere à ordem econômica global, a China de fato não é um parceiro exemplar. Em particular se comporta de maneira imoral no campo da propriedade intelectual, roubando tecnologias e ideias desenvolvidas em outros lugares. E também subsidia alguns setores, incluindo o do aço, contribuindo para o excesso de capacidade do produto no mundo.

Mas embora sua equipe mencione esses problemas, Trump parece fixado no déficit comercial com a China, que insiste em dizer que é de US$ 500 bilhões (Na verdade são US$ 375 bilhões, mas quem se importa?).

O que há de errado com essa fixação?

Em primeiro lugar, grande parte desse enorme déficit é uma ilusão estatística. A China, como alguém explicou, é a “Grande Montadora”: muitas exportações chinesas são na verdade de peças montadas, produzidas em outros lugares, especialmente na Coreia do Sul e no Japão. O exemplo clássico é o iPhone, que vem com a inscrição “made in China”, mas cuja mão de obra e o capital chineses representam apenas uma pequena porcentagem do preço final.

Este é um exemplo extremo, mas se insere num padrão mais abrangente: a maior parte do aparente déficit comercial com a China – provavelmente quase a metade – é na realidade um déficit com os países que vendem componentes para a indústria chinesa (e com as quais a China contabiliza déficits).

Implicações. E isso tem duas implicações: os Estados Unidos têm uma alavancagem comercial sobre a China muito menor do que Donald Trump imagina e uma guerra comercial com os chineses vai enfurecer um amplo grupo de países, alguns deles estreitos aliados dos Estados Unidos.

E o mais importante, o superávit comercial total da China não é presentemente um grande problema para os Estados Unidos ou para o mundo como um todo.

Utilizo a palavra “presentemente” de propósito. Não faz muito tempo, os Estados Unidos registravam um alto índice de desemprego e a China, ao manter sua moeda desvalorizada e contabilizando enormes superávits comerciais, tornou nosso problema de desemprego ainda pior. Naquela época, insisti que os Estados Unidos deviam agir com mais agressividade a respeito.

Mas isso foi no passado. Os superávits comerciais chineses diminuíram; os Estados Unidos não contabilizam mais altas taxas de desemprego. Trump talvez pense que nosso déficit comercial com a China significa que ela está ganhando e nós estamos perdendo, mas não é o que ocorre. O comércio chinês, ao contrário de outras práticas condenáveis da China, não é um problema que nos deve preocupar no mundo de 2018.

E entrando desastradamente numa guerra comercial, Trump corrói nossa capacidade de fazer alguma coisa no caso de problemas reais. Se nós pretendemos pressionar a China a respeitar a propriedade intelectual, temos de reunir uma coalizão de nações prejudicadas pelos roubos cometidos pelos chineses, ou seja, uma união com outros países avançados como Japão, Coreia do Sul e países europeus.

Mas Trump vem sistematicamente isolando esses países com suas decisões, caso das novas tarifas sobre o aço e suas ameaças de taxar produtos que, montados na China, são produzidos em outros lugares.

Em termos gerais, a política comercial de Donald Trump está rapidamente se tornando uma aula prática sobre o preço da ignorância. Ao se recusar a fazer o trabalho de casa, a equipe do governo está perdendo amigos e ao mesmo tempo deixando de influenciar pessoas.

A verdade é que as guerras comerciais são ruins e quase todas acabam sendo perdidas do ponto de vista econômico. Se houver um “vencedor” ele estará entre as nações que ganharão influência geopolítica porque os Estados Unidos estão dilapidando a própria reputação. O que significa que, se houver um vitorioso nessa guerra comercial iniciada por Trump, será a China. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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