KAREN BLEIER/AFP
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Especulativo, bitcoin ainda não representa risco sistêmico

Mercados financeiros raramente perdem a chance de lucrar, especialmente no caso das criptomoeda

The Economist

18 Dezembro 2017 | 05h00

Compras futuras de bitcoins começaram no Cboe Global Markets na semana passada; o CME Group iniciará suas próprias operações de futuros com a moeda hoje, dando novo impulso ao valor dessa criptomoeda, que já registrou um aumento de 1.550% este ano. Os retornos fenomenais estão atraindo uma torrente de dinheiro especulativo. Mas há uma razão fundamental para investir em bitcoin?

Os instrumentos financeiros habituais não servem de guia. A equity é a participação em ativos e lucros de uma empresa: títulos dão direito ao investidor a pagamentos e compensações posteriores no seu vencimento. O bitcoin não comporta fluxos de caixa para o proprietário; o único retorno é o aumento do seu valor. Quando não existe uma maneira clara de avaliar um ativo, é difícil dizer que um preço pretendido é menos provável do que outro. Um bitcoin pode valer US$ 10 ou US$100 mil.

Por outro lado, os investidores precisam avaliar os cenários propostos pelos entusiastas: e se, digamos, todos os fundos de pensão investiram 1% do seu portfólio na criptomoeda? Um argumento apresentado pelos especialistas é que ela é uma espécie de “ouro digital”. Como reserva de valor ela supostamente manteria seu preço. Mas, pelo contrário, o valor do bitcoin é extremamente volátil. Seu sistema de codificação garante que não mais do que 21 milhões de moedas sejam criadas: o que a coloca à parte do papel moeda, que os bancos centrais podem emitir à vontade.

Essa limitação da oferta é uma condição necessária, mas não suficiente, para a moeda ter valor. Fotos autografadas de jornalistas da Economist são raras, mas, infelizmente, seu valor é desprezível. Tampouco a oferta da moeda realmente é limitada. Existem muitas outras criptomoedas.

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É possível que o bitcoin venha a substituir as moedas comuns nas transações quotidianas? Não tão cedo. Quem quer se desfazer (ou aceitar em troca) de uma moeda cujo valor pode ganhar ou perder 20% do seu valor em uma hora? E moedas reais são usadas para denominar passivos e ativos; imagine a derrocada daqueles que assumiram uma hipoteca ou contraíram um empréstimo em bitcoins no início deste ano.

O bitcoin triunfará se moedas como o dólar e o euro sucumbirem à hiperinflação, mas não há sinais de que isto venha a ocorrer. Um cenário mais provável é de o sistema de blockchain que respalda o bitcoin, se tornar tão útil a ponto de ser amplamente adotado. Neste caso, a moeda se tornaria um veículo para outros serviços e as pessoas necessitariam possuir algumas, ou uma fração de uma, para utilizá-lo.

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Mas originalmente o bitcoin atraiu seguidores dos princípios libertários e os interessados em negócios como commodities ilegais, como drogas, longe dos olhos das autoridades. O anonimato e a falta de transparência da moeda não atraem os grandes bancos (ou os órgãos reguladores), que estão desenvolvendo suas próprias blockchains.

Se a explosão do bitcoin parece ter se tornado uma obsessão, apelos para que seja banida também extrapolaram. Os órgãos reguladores estão certos em monitorar as “ofertas iniciais de moeda” – tentativas de empresas para levantar recursos emitindo tokens digitais próprios. E também agem corretamente ao alertarem os investidores do varejo sobre os riscos de um mercado que opera em poucos volumes um ativo sem nenhum valor inerente e são escassos os recursos no caso de situações anômalas.

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Mas é difícil saber como a moeda é fonte de risco sistêmico; segundo um cálculo, o valor do bitcoin é menor do que a metade da capitalização de mercado da Apple. Um dano econômico real se verifica quanto uma forte deterioração nos preços dos ativos é combinada com o uso generalizado de dinheiro que foi tomado emprestado, especialmente pelos bancos. Esses elementos ainda não se apresentaram.

Para os que acreditam que as moedas virtuais serão o próximo grande sucesso, comprar bitcoins equivale a um contrato de opções: pode oferecer bons resultados. Para os demais o caminho mais sensato é observar. Vem aumentando o número de investidores entusiasmados com a criptomoeda; mas o teste de fato será quando, repentinamente, precisarem rapidamente escapar dela.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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