Está mais difícil decorar as senhas bancárias

Senha para caixa eletrônico, para atendimento telefônico, para acesso pela Internet. Além disso, para aumentar a segurança, os bancos passaram a adotar nas contas correntes, além dos números, uma senha com letras. Isso tem complicado a vida de quem tem dificuldade em guardar as senhas. Mas até que ponto a existência de todos esses códigos garante a segurança? A adoção de senhas alfa-numéricas - que mistura número e letras - por alguns bancos, e que promete se tornar padrão, está deixando os correntistas de cabelo em pé. O contabilista Francisco Antônio Bragança Neto, 57 anos, é um deles. Para ele, decorar senhas sempre foi muito complicado. Agora que o banco, onde tem quatro contas (duas pessoais e duas do escritório), adotou o código com número e letra, a situação complicou muito. "Nunca consigo lembrar de tudo. O remédio é anotar em alguns lugares e tentar decorar." A dificuldade ainda é maior porque Bragança Neto sabe que, para ter maior segurança, é preciso evitar criar senhas com datas ou placas de carro, por exemplo, que ajudariam a memorização. "O pior é que, no fim das contas, o trabalho de decorar todos esses códigos acaba não adiantando muito, porque os cartões podem ser clonados." Mas tem gente que não reclama do excesso de senhas. O agente de reservas Ricardo Golçalves Caldeira, 20 anos, diz que números nunca foram problema. Ele se gaba de ter bem fixas na memória as seis senhas de e-mails pessoais, as duas dos cartões dos bancos, a da caixa postal do celular, a da caixa postal do telefone fixo e a senha que serve para desbloquear o sistema pay-per-view da tevê a cabo. A senha do cartão e do acesso ao Internet Banking da conta corrente do pai também é ele quem decora. "Ele nunca guarda as senhas." Para conseguir lembrar de todos os códigos, ele diz que procura usar datas - mas nunca repete a mesma senha para serviços diferentes. "Tenho facilidade em lidar com números, acho que é por isso que não tenho problemas para decorar tudo." O sacrifício vale a pena? Mas, uma vez que todo mundo é obrigado, de uma maneira ou de outra, a guardar todos esses números, a pergunta que fica é: o sacrifício vale a pena? Segundo o professor de Estatística da Unicamp, Paulo Guimarães, a possibilidade de se descobrir uma senha de quatro dígitos é de uma em 10 mil, enquanto a possibilidade de se descobrir uma senha de 6 dígitos é de uma em 1 milhão. "E, se a senha for formada por dígitos e letras, mais difícil ainda fica a descoberta." Nesse caso, a chance é de 1 em 10 milhões. Assim, quanto maior o número de dígitos, mais segura é a operação. O problema é que quem quiser descobrir uma senha dificilmente vai usar do artifício das tentativas aleatórias. O fraudador vai usar a forma mais fácil e mais artesanal de se descobrir o código: observar o cliente digitando. "Vigiar enquanto o cliente digita a senha ainda é o tipo de fraude mais comum", afirma o gerente-executivo da área de Inteligência e Segurança do Banco do Brasil, Edson Lobo. O diretor-executivo de Marketing do Unibanco, Armando Pompeu, concorda: "Quem está acostumado a fazer isso é capaz de perceber os números que estão digitados pela simples disposição da mão do cliente sobre o teclado." Por conta disso, os bancos estão sendo obrigados a criar novos mecanismos de segurança. As tarjas magnéticas começam a ser aposentadas, dando lugar a chips nos cartões. "O fraudador se atualiza. É preciso que a segurança seja modificada", diz Lobo. Os clientes do Unibanco, por exemplo, desde 1º de outubro têm de digitar nos caixas eletrônicos, além da senha de quatro dígitos, mais três letras que, a cada operação, são vinculadas a um número. "Assim, mesmo que alguém veja o que está sendo digitado, isso não será de muita serventia, porque os números mudam a cada nova operação feita", explica Pompeu. Desde que o código foi adotado, as fraudes praticamente zeraram. Da mesma forma, os clientes do Banco do Brasil são obrigados a guardar mais um código na memória. É uma seqüência de três letras, digitada em um teclado alfabético. A criação de novos códigos tem se tornado uma tendência entre os bancos. Hoje é comum, também, que, além da senha, o cliente tenha de digitar informações pessoais - como o número da conta corrente ou a data de nascimento. Segurança na Internet Apesar do esforço, a verdade é que a garantia de segurança não é total. Quem usa os serviços bancários pela Internet ainda corre bastante risco. "Pela Internet, é possível se fazer de tudo", diz "Bozo", um ex-hacker. Ele explica que é possível copiar uma senha digitada pelo computador facilmente. "Isso pode ocorrer se o equipamento usado para acessar o sistema de Internet Banking estiver contaminado por um vírus capaz de gravar as informações digitadas no teclado."

Agencia Estado,

17 Dezembro 2001 | 11h25

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