Estrangeiros já focam no pós-Temer

O que vai afetar o humor do mercado no curtíssimo prazo é se haverá, ou não, um desfecho mais rápido possível para a grave crise política do País

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 12h03

Os investidores estrangeiros já estão focando no Brasil pós-Michel Temer. Enquanto o presidente Temer se segurar no cargo e a perspectiva de aprovação da reforma da Previdência for enterrada, o Brasil deve começar a perder o peso "overweight" nas carteiras de investidores estrangeiros que aplicam em renda fixa e na Bovespa.

O que vai afetar o humor do mercado no curtíssimo prazo é se haverá, ou não, um desfecho mais rápido possível para a grave crise política do País que resulte num sucessor ao presidente peemedebista. E que esse sucessor represente a continuidade da política econômica tocada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

FÁBIO ALVES: Denúncia torna avanço das reformas mais difícil

Entre as opções de desfecho da crise deflagrada com a denúncia do dono da JBS, Joesley Batista, de que Temer teria dado o aval para comprar o silêncio de Eduardo Cunha, a permanência de Temer como um presidente mortalmente ferido politicamente e gastando seu tempo apenas para se defender das acusações é considerada negativa, disse a esta coluna um gestor de fundos com uma das carteiras dedicadas a países emergentes nos Estados Unidos.

Para esse gestor, que pediu para não se identificar, a eventual renúncia de Temer (por enquanto, negada por fontes ligadas ao Palácio do Planalto) ou uma saída por meio do Supremo Tribunal Federal (STF) ao julgar uma ação por obstrução de justiça podem ser os desfechos mais rápidos para a crise, resultando numa eleição indireta "em poucos meses", o que seria o cenário mais favorável para o mercado.

"Mas nesse caso, numa eleição indireta, é preciso pensar nos possíveis candidatos e quem seria um candidato mais 'friendly' (amigável) para o mercado", disse o gestor. "Lula seria um candidato forte? Poderia mesmo se candidatar? Teria Lula os votos necessários de uma maioria simples dos parlamentares numa eleição indireta ou alguém da base aliada de Temer poderia ser mais competitivo numa disputa com Lula no Congresso?", indagou a fonte.

Em conversa com esta coluna do seu escritório em Londres, Simon Quijano-Evans, estrategista de mercados emergentes do fundo Legal & General Investment Management (LGIM), lembrou que um dos motivos pelos quais o Brasil estava com peso "overweight" na carteira de vários investidores estrangeiros estava no fato de que outros países, como África do Sul, Rússia e Turquia, eram vistos como tendo risco político elevado demais neste momento. "Era por isso que havia uma posição elevada no Brasil, além da expectativa de aprovação da reforma da Previdência", explicou Quijano-Evans.

Sem a reforma da Previdência, o gestor disse que nenhum investidor voltará a aumentar sua exposição ao Brasil novamente após o atual movimento de venda ("sell-off") com a crise política envolvendo o presidente Temer.

"Mesmo se o presidente Temer deixasse o cargo em breve e todo o processo de eleição indireta fosse até rápido, talvez em dois meses, esse atraso na votação da reforma da Previdência na Câmara já seria muito longo e com muito barulho para justificar uma retomada de um aumento da exposição ao Brasil pelos investidores estrangeiros", afirmou Quijano-Evanos.

Mas o ponto crucial para Quijano-Evans é que o mercado não deveria mais focar no presidente - seja ele quem for - como representante da instituição Presidência da República e sim focar no que o Congresso brasileiro quer para o País.

"A figura do presidente do Brasil está com a credibilidade tremendamente arranhada, diante de tanto ruído e ruptura do cargo nos últimos anos, incluindo mais de um processo de impeachment", afirmou Quijano-Evans. "Assim, não depende mais de um presidente, mas sim dos parlamentares brasileiros: eles querem, de fato, avançar com uma reforma da Previdência e colocar o Brasil no caminho da recuperação?"

Também em conversa com esta coluna, uma renomada gestora de um grande fundo de investimentos com elevada exposição a mercados emergentes disse que o seu cenário é de que a reforma da Previdência está morta ("the reform is gone", na resposta original em inglês).

Sobre a perspectiva para o Brasil num cenário em que o presidente Temer deixa o cargo, ela diz: "O melhor cenário para os investidores é que eles (a força política em poder no momento) cheguem a um acordo e decidam por um candidato (nas eleições indiretas) que tenha um perfil semelhante ao do (Henrique) Meirelles, esforçando-se para aprumar o navio, mesmo que não consiga aprovar reformas".

A gestora estava trabalhando com um "range" (faixa de negociação) para o dólar frente ao real de R$ 3,10 como piso e R$ 3,50 como teto. Agora ela elevou esse "range" em R$ 0,30. "O sentimento ainda não é de pânico, mas o problema é que o ambiente externo está se tornando mais desfavorável e o Brasil vai ter um desempenho mais fraco do que os outros ('underperform') num mercado global mais fraco", afirmou a gestora.

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