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Economia

PIB

Exaustão anticíclica

Agora que empresas e pessoas perdem fôlego e pedem suporte, setor público está exaurido

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José Paulo Kupfer

22 Março 2016 | 05h00

Por todos os lados pelos quais se observe a movimentação das operações de financiamento na economia, ela revela, a partir da crise de 2008, uma dinâmica bem definida: enquanto o setor público avança, o setor privado encolhe – e numa velocidade que chama a atenção.

Em dezembro do ano passado, por exemplo, o saldo consolidado das operações de financiamento – dívidas bancárias e títulos de crédito emitidos por governo, empresas e indivíduos – correspondia a 128% do PIB e a participação do setor público atingia metade do total, enquanto as empresas privadas respondiam por cerca de um terço e as pessoas físicas, por um quarto. Em relação ao PIB, o montante de financiamentos destinados ao setor público mais do que dobrou em dez anos, enquanto a parcela do setor privado evoluiu menos da metade. 

Esses números fazem parte de um estudo ainda inédito realizado pelo Cemec, o centro de estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), sob a direção do economista Carlos Antonio Rocca, professor da Faculdade de Economia da USP e ex-secretário de Finanças de São Paulo. “O que aparece é que o setor público demanda mais da metade da poupança financeira existente não para sustentar investimentos, mas para fazer frente a seus desequilíbrios”, resume Rocca. 

Mostra o levantamento do Cemec que o fluxo de financiamentos na economia aumentou 13,5% entre 2013 e 2015, e que só a parcela do setor público respondeu por 9,6% dessa expansão. “Ou seja, 70% de todos os empréstimos bancários e de recursos gerados por emissão de títulos de divida, no período, foram absorvidos pelo financiamento dos desequilíbrios do setor público”, calcula Rocca.

É preciso critério e cautela para concluir que o encolhimento privado se deu em resposta ao avanço público, até porque é possível levantar a hipótese de que o lado público expandiu sua participação na medida em que o setor privado se retraiu. Tivesse ocorrido apenas a primeira possibilidade, uma conclusão natural seria a de que bastava reduzir a participação pública para que o setor privado voltasse a expandir sua fatia no bolo do financiamento. Isso, porém, não é verdade e uma política nessa direção, dependendo do momento em que fosse adotada, poderia produzir apenas um vácuo não necessariamente preenchido por bancos privados e pelo mercado de capitais.

Em momentos de crise aguda, historicamente, a retração na oferta de crédito e na emissão de títulos pelo setor privado é compensada por uma reação anticíclica ativa da política econômica, por meio de injeções de crédito pelo setor público. Foi o que ocorreu – e de forma até desejável, segundo Rocca – em 2008 e 2009, quando os mercados de ativos enfrentaram episódios de colapsos e as fontes de financiamento secaram. 

No caso brasileiro, porém, o prolongamento da intervenção oficial provocou distorções de grande amplitude. É notável a alteração da participação de instituições públicas, privadas nacionais e privadas estrangeiras na evolução da concessão de crédito entre 2008 e 2015, conforme registra o estudo. Enquanto as primeiras saem de um terço e chegam a mais da metade do total, os bancos privados nacionais, no mesmo período, contraem sua parcela de 43,5% para menos de 30%, e os estrangeiros descem de 22% para baixo de 15%.

O excesso de ativismo estatal por um período demasiadamente longo, além das disfunções que produziu na estrutura de financiamento da economia, aspirou tantos recursos do Tesouro Nacional e pressionou a tal ponto a política fiscal que exauriu a capacidade de reação dos bancos públicos a episódios de parada de crédito dos bancos privados. Agora que empresas e famílias perdem fôlego, sucumbindo à recessão, desemprego e alta da inadimplência, os bancos públicos, em tese mais aptos a socorrê-las, se encontram exauridos.

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