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Fator Lava Jato

As gigantescas manifestações populares deste domingo podem ter riscado um elemento fundamental da planilha de incertezas políticas com a qual o Brasil tem convivido desde a eleição de 2014, mas ainda há dúvidas a serem superadas. Os milhões nas ruas inviabilizaram a continuidade do governo da presidente Dilma Rousseff, que, a bem da verdade, já faz um bom tempo exibia escassas condições de viabilidade. Daí para a frente, porém, encontrar a melhor combinação político-institucional para ocupar o espaço presumivelmente vago e destravar a economia permanece um enredo em progresso.

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José Paulo Kupfer

15 Março 2016 | 05h00

Essa é a mensagem transmitida pela “voz das ruas” e replicada pela “voz dos pregões”, na Bolsa e no mercado cambial, a partir da abertura dos negócios, na primeira sessão depois do histórico 13 de março, na segunda-feira — mensagem algo tumultuada, no fim dos pregões, pela informação de que o ex-presidente Lula assumiria um lugar no Ministério de Dilma. Na linguagem do mercado, a reversão ocorrida no movimento de alta no mercado acionário e no recente mergulho da taxa de câmbio dos últimos dias, expressão da precificação antecipada da saída de Dilma, parece deixar aflorar alguns pontos de interrogação pós-impeachment. É um movimento pontual, que não define tendência, mas sob a capa da “realização de lucros”, costuma servir de termômetro das expectativas. No momento, a escala de mercúrio do termômetro parece oscilar.

A atual dinâmica da economia também não deve contribuir para reduzir o quadro de incertezas. Entre analistas, prevalece a visão segundo a qual o ritmo de contração da atividade econômica tende a ser menos intenso ao longo de 2016, com virada para o terreno positivo logo nos primeiros meses de 2017. Esse “alívio” refletiria, contudo, menos um esboço de recuperação do que efeitos cíclicos da inédita persistência e profundidade da contração em curso. Além do mais, o aumento forte previsto para o desemprego sinaliza sensação amplificada de desconforto e dificulta, via retração da demanda e do crédito, uma verdadeira recuperação.

O mesmo poderia ser observado no caso da marcha da inflação. São quase consensuais as expectativas de uma redução no ritmo de alta dos preços daqui até 2017. Segundo grande número de análises, a inflação, em 12 meses, deixaria os dois dígitos neste mês de março, reencontraria o teto da meta no começo de 2015 e alcançaria o centro da meta em 2018. Mas essa progressão dependeria do que ocorresse com a taxa de câmbio nesse longo intervalo de tempo e do grau de indexação remanescente.

Incertezas, portanto, ainda dominam o horizonte e elas se tornam mais espessas diante de um fator imprevisível, inteiramente fora da caixa da economia. Os operadores do mercado não são os únicos que depois de domingo devem estar se perguntando a respeito dos desdobramentos da Operação Lava Jato. A confirmação pura e simples da hipótese hoje muito mais plausível da retirada de cena de Dilma abriria espaços necessários de correção de rota, mas pode ser que só isso não seja suficiente para recolocar a economia nos trilhos.

Dotar a combinação política que venha a ser encontrada de condições para liderar o processo de rearrumação da economia exigiria tornar bem sucedido o esforço de alinhar Executivo e Legislativo — exatamente uma das muitas coisas que faltaram ao governo Dilma. Diante da imposição de uma reforma fiscal incontornável, é essa combinação que emprestaria credibilidade aos que se dispusessem a enfrentar o desafio de recuperar os superávits fiscais primários e assim evitar a consequente explosão da dívida pública e da própria economia.

Mais do que a persistência e a amplitude da crise econômica, há um complicador nesse roteiro. Trata-se do fator Lava Jato, visto que boa parte dos protagonistas restantes no centro do palco político está sob investigação policial ou é mencionada em delações premiadas.

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