Fenômeno entre as corretoras, XP agora terá empresa de crédito

Grupo comandado pelo gaúcho Maisonnave e o carioca Benchimol foi criado em 2001 inicialmente para operar uma corretora de valores; no início do ano entrou para o ramo de crédito e agora se prepara para lançar o primeiro banco virtual do País

NAIANA OSCAR, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2013 | 02h07

O gaúcho Marcelo Maisonnave e o carioca Guilherme Benchimol levaram alguns bons anos para conquistar a confiança do mercado financeiro. Juntos, fundaram em 2001 uma pequena corretora de valores em Porto Alegre (RS) e se espalharam pelo País de forma impressionante, com a ajuda dos chamados agentes autônomos e sob o olhar desconfiado de bancos e corretoras independentes. Hoje, embora ainda sejam alvos de críticas, o que esses dois fazem é acompanhado de perto pelos principais concorrentes.

Não é para menos. O volume mensal negociado pela XP na bolsa brasileira passou de R$ 1 bilhão por mês em 2008 para R$ 20 bilhões atualmente. Ela já é a segunda maior corretora do País, com R$ 1,4 bilhão em ativos, atrás apenas da corretora do Itaú, que tinha R$ 3,2 bilhões em 2012, segundo levantamento da Austin Rating.

A XP ganhou esse porte apostando principalmente nos investidores pessoa física - que tinham pouca presença na bolsa de valores no início da década passada. O modelo, que evoluiu para o que eles gostam de chamar de "shopping center financeiro", por ter um cardápio mais variado de produtos, chamou a atenção de fundos de investimentos. Em 2010, a XP recebeu o aporte da inglesa Actis e, no ano passado, da americana General Atlantic.

Agora, Maisonnave e Benchimol, ambos com 37 anos, se preparam para mais uma empreitada. Eles querem expandir os negócios para outros segmentos do mercado financeiro. Já anunciaram no início do ano que estão montando a operação do primeiro banco virtual do País e, há um mês, colocaram no mercado uma empresa nova para atuar na área de crédito. A Novi é uma estrutura independente da XP mas que tem em comum os dois sócios e a filosofia da empresa mãe.

Assim como a corretora, que começou em 2001 oferecendo um produto pouco explorado por concorrentes - e que para dar certo teria de investir na educação financeira de seus potenciais clientes -, a Novi foi criada para oferecer uma modalidade de crédito que ainda está engatinhando no Brasil: empréstimos lastreados em imóveis, como as hipotecas.

"Nosso DNA é ser transformacional, por isso estamos apostando num segmento que ainda é praticamente desconhecido do brasileiro mas que tem um potencial gigantesco", diz Maisonnave.

O público alvo, segundo ele, são pessoas que já têm um imóvel, quitado ou financiado, mas que não têm dinheiro na mão para fazer, por exemplo, uma reforma ou investir em um negócio. Eles querem também capturar clientes de bancos que desejam trocar uma dívida de curto prazo por um financiamento mais longo, com juros menores. Na Novi, eles serão em média de 1,05% mais IGP-M.

A meta mais imediata da nova empresa é chegar ao fim de 2013 com uma carteira de R$ 20 milhões, mas dentro de alguns anos seu objetivo é superar a XP em faturamento - a corretora teve uma receita de R$ 320 milhões no ano passado.

Para entrar no segmento de crédito, como ainda não têm seu próprio banco, Maisonnnave e Benchimol se associaram à Companhia Província de Crédito Imobiliário, com sede em Porto Alegre.

Quem vai tocar a operação é Luiz Pedro da Cunha Albornoz, ex-diretor geral do Walmart e um velho conhecido da XP: ele foi um dos primeiros clientes da corretora, em Porto Alegre, quando os dois agentes autônomos ainda trabalhavam numa salinha alugada com dois computadores de segunda mão.

Outro reforço da Novi é Rodrigo Machado, ex-executivo da Brazilian Finance & Real Estate (BFRE), empresa especializada em crédito imobiliário, que foi comprada pelo banco BTG, de André Esteves, em dezembro de 2011. Machado está na XP há dois anos cuidando de fundos imobiliários e agora vai se dedicar à operação de "home equity", como também é chamada essa modalidade de crédito.

Obstáculos. Albornoz e Machado terão anos difíceis pela frente. Fazer a Novi dar tão certo quanto a XP será tarefa das mais espinhosas. Primeiro, porque o brasileiro não está habituado - e simplesmente não conhece - o refinanciamento do imóvel. Segundo, porque a palavra hipoteca faz estremecer quem acompanhou recentemente a crise financeira nos Estados Unidos, embora aqui a regulação proíba manobras tão arriscadas quanto as que foram feitas lá.

Por último, mas não menos importante, tem a concorrência com os grandes bancos, que muito timidamente começam a oferecer o produto aos seus clientes.

O Santander foi um dos primeiros entre os bancos privados a trabalhar com "home equity" no Brasil em 2007. Assim como as outras instituições financeiras, ele não divulga os números relativos a esse tipo de produto.

"Em comparação com o crédito consignado, por exemplo, é um parcela muito pequena", diz Ismael José de Andrade Júnior, superintendente de negócios imobiliários do Santander. "Mas em algum momento ele será muito importante no Brasil, à medida que aumenta o número de brasileiros com casa própria."

Caixa Econômica, Banco do Brasil, Bradesco e Itaú (este último por meio de uma joint venture com a imobiliária Lopes) também já oferecem o "home equity" para seus clientes. "Mas esse é um produto que fica na última gaveta do gerente do banco porque os ganhos com essa modalidade de crédito são menores se comparados com as outras", diz Benchimol.

Do outro lado, os bancos também alfinetam a iniciativa. "É preciso ter uma instituição financeira forte por trás para ganhar o jogo no mercado de crédito", diz o executivo de um grande banco brasileiro.

A ideia dos sócios da XP de empreender em outro ramo coincide com um momento complicado para as corretoras de valores. Além da crise econômica, que fez o mercado de capitais retrair, elas foram afetadas pelo aumento dos custos de operação. Levantamento da Austin Rating mostra que o lucro de um grupo de 77 corretoras brasileiras caiu 9,2% entre 2011 e 2012. "O setor está patinando", diz Luis Santacreu, analista da Austin Rating. "Buscar novas fronteiras, como a de crédito, é uma alternativa. Mas é preciso ter culhão para bater de frente com os grandes."

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