Fernando Loaiza, presidente do Laboratórios Bagó

Uma confusão numa entrevista de emprego levou o programador de software a deixar o local com uma oferta para ser propagandista médico. Foi assim que, 25 anos atrás, a vida do equatoriano Fernando Loaiza mudou de rumo. Após desempenhar essa função foi coordenador, supervisor de vendas, gerente distrital, gerente de marketing, diretor de marketing, diretor comercial. Veio para o Brasil em 2002 presidir a filiar do argentino Laboratórios Bagó - a companhia fatura US$ 600 milhões globalmente e R$ 70 milhões aqui no País, produzindo remédios. Loaiza já liderou trabalhos conjuntos com grandes empresas do setor como Merck, Roche e Glaxo. Graduado em pedagogia pela Universidade UTPL Católica do Equador, é pós-graduado em direção de empresas e gestão de recursos humanos e realizou vários cursos de marketing.

/C.M., O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2011 | 03h10

Qual foi a maior dificuldade que enfrentou ao assumir a empresa no Brasil?

Tive de mostrar, vindo de um país diferente, que tinha a bagagem, os conhecimentos e a experiência para dirigir brasileiros.

Sentiu desconfiança sobre isso? Sobre sua capacidade?

Sim. O Equador tem 260 mil quilômetros quadrados, o Brasil tem 8 milhões de km²; nossa população é de 13 milhões de habitantes, a do Brasil é de quase 200 milhões. Então, foi um desafio demonstrar às pessoas que não importa a religião, o país e a nacionalidade, o importante é ter conceitos, experiências e respeito entre os profissionais. Eu tive de demonstrar que era capaz, que podia dirigir. Mas tudo deu certo.

O sr. vem de uma longa experiência na área. Sempre pensou em seguir essa carreira?

Na verdade foi um acidente da vida. Sou programador de Cobol, uma linguagem de computador, e um dia fui a uma entrevista para uma vaga nessa área. Era uma empresa nova, havia muita gente na sala, me confundiram e entrei em uma entrevista para propagandista médico. Quando saí, pedi desculpas dizendo que havia ocorrido um erro. Mas o entrevistador argumentou que eu tinha futuro (como propagandista) e me fez uma proposta. Foi aí que tudo começou. Mas eu não havia pensado que seria assim.

Mas formou-se em pedagogia? Justamente porque minha vida não estava direcionada para a indústria farmacêutica. Mas depois que entrei, comecei a me aprimorar. Então, eu fiz MBA, estudei muita coisa ligada à medicina, estudava muito os produtos. Me dediquei porque gostei da profissão. Ainda que nunca tivesse pensado em entrar, quando entrei, percebi que minha vida estava nisso, adorei o assunto. E comecei a trabalhar para crescer.

Acreditou na sua escolha.

Sim. E o que eu mais tenho incentivado nas pessoas é a crença nelas próprias. Acho que nós - CEOs, presidentes - temos a oportunidade brilhante de falar para as pessoas que elas são boas, mas têm de acreditar, têm de ter fé. Não só confiança, porque confiança pode terminar, mas a fé de que as coisas vão ser melhores. Mas essa fé tem de ser construída, não pode só pensar. É preciso agir construindo um futuro melhor.

Então, muito do trabalho do CEO é lidar com pessoas?

É verdade. Ainda mais na Bagó, que é uma empresa que gosta muito de novos talentos. E quando você pega novos talentos, vê claramente que, muitas vezes, eles ainda não sabem para onde vão, quem são e quem poderiam ser. Aí entra nossa função, que é basicamente mostrar uma visão e incentivar muita confiança neles próprios. Porque as pessoas se desanimam rapidamente e não lutam por um futuro melhor. Veem a vida negativamente. A vida já é difícil, e se não tivermos essa atitude mental positiva, dificilmente vamos encontrar o sucesso.

Há dificuldades para encontrar e manter talentos?

Sim. Mas falaria mais em falta de estabilidade. A chamada geração Y quer o presente, não trabalha por um futuro melhor. Isso faz com que a rotatividade seja muito elevada, pois vai ter sempre uma empresa que paga mais. Então, tentamos fazer com que as pessoas acreditem em um projeto de vida, que não seja um emprego no qual somente o salário seja fundamental. Porque, se não se sentirem bem, não forem bem tratadas, não se desenvolverem, elas não ficam. É preciso haver bom ambiente de trabalho, ter salário bom, e que as pessoas sejam reconhecidas. Tentamos praticar isso, pois nem sempre o salário é o que melhor temos. Ainda não somos uma grande farmacêutica no Brasil.

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