Fintechs ocupam espaço dos bancos no empréstimo a empresas

Fintechs ocupam espaço dos bancos no empréstimo a empresas

Plataformas digitais mais consolidadas no empréstimo pessoal começam a oferecer crédito corporativo

Renée Pereira e Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 05h00

Sem nunca ter atrasado uma conta, Paulo Malvezzi, fundador da Tech For – empresa que presta serviços em tecnologia na área de informática –, foi surpreendido com um aviso do banco comunicando o corte de todas as suas contas garantidas.

“Foi do dia para a noite. O banco nivelou por baixo: falou que o mercado estava pressionado pela inadimplência e que iria suspender as nossas linhas de crédito – sendo que a empresa tem dez anos e nunca ficou inadimplente.”

Por meio de um colega empresário, há quatro meses Malvezzi conheceu a Biva – plataforma de empréstimos que faz a intermediação entre investidores e tomadores de crédito. Em 30 dias, o dinheiro já estava na conta. “A proposta é muito interessante, pois há uma avaliação do seu negócio, da sua necessidade e da sua gestão financeira”, diz. “Eu tinha um prazo de pagamento de 90 dias e fortaleci meu caixa para gerar mais venda. Com o aporte, alavanquei os clientes e aumentei o faturamento em 30%.”

A Biva é uma das fintechs que vêm ocupando o espaço deixado pelos grandes bancos de varejo, mais avessos ao risco, em meio ao enxugamento de crédito na praça. Essas plataformas digitais, já mais consolidadas na modalidade de empréstimo pessoal, agora também começam a oferecer soluções para empresas, seja por meio de leilões ou pela modalidade “peer to peer lending”, que une tomadores e credores.

“A gente permite que pessoas invistam no financiamento de outras pessoas e empresas. A vantagem, por haver um grupo de investidores, é que quem toma crédito paga menos juros e quem empresta tem rentabilidade bem acima da Selic”, conta Jorge Vargas Neto, fundador da Biva. 

Em sua plataforma, a fintech financia desde MEIs (Microempreendedor Individual) a empresas médias, com faturamento anual de R$ 130 milhões. O valor máximo financiado é de R$ 500 mil, com prazo de até dois anos. 

“Hoje, 76% do volume financiado é para pessoa jurídica. Nos bancos tradicionais, essa carteira se inverteu”, diz. A empresa já movimentou mais de R$ 46 milhões em empréstimos. 

Outro modelo para financiamento é o de leilão – a aposta da F(x), criada em 2015. Na plataforma, as empresas registram a necessidade de capital e as garantias de que dispõem, e podem receber propostas dos mais de 170 financiadores cadastrados, como bancos pequenos e médios, fundos de investimento e financeiras.

‘Matching’. Com algoritmos e inteligência artificial, a plataforma cruza dezenas de dados e faz o “matching” entre empresários e financiadores, mostrando a melhor opção segundo o perfil cadastrado e as necessidades da empresa.

“O grande problema do Brasil é o crédito, e nós queremos democratizá-lo utilizando a tecnologia”, diz Dan Cohen, sócio e fundador da F(x). Ele afirma que mais da metade das empresas que recorrem ao serviço não conseguiram financiamentos nos grandes bancos comerciais.

“Hoje, 90% das empresas cadastradas recebem propostas de financiamento – algumas até sete em um único dia”, diz Cohen. A plataforma já movimentou R$ 400 milhões em propostas de crédito, e tem registradas empresas com faturamento que vão de R$ 10 milhões a R$ 2 bilhões.

Essas modalidades, apesar de estarem em grande expansão, ainda não contam com regulamentação. No fim de agosto, porém, o Banco Central lançou consulta pública para regulamentar as fintechs – que vão de empresas de cartão a robôs investidores. 

No campo do crédito, a proposta do Banco Central é classificar as instituições financeiras entre as que concedem empréstimos com capital dos próprios acionistas e as que conectam investidores a tomadores. Pelo cronograma do Banco Central, a consulta vai até 17 de novembro.

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