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Fitinhas do Bonfim ficam mais resistentes e frustram desejos de fiéis

Antonella Zugliani - Especial para o Estado

21 Outubro 2013 | 18h 40

Antes feito de algodão, o produto tipicamente baiano hoje é produzido com o resistente poliéster, que pode levar meses até se romper

SALVADOR - Amarradas com três nós no pulso ou no tornozelo, as fitinhas, originalmente com cores vibrantes, vão ficando desgastadas e opacas com o tempo. Pela tradição, os três nós representam três pedidos ao Senhor do Bonfim, realizados quando a fita se rompe.

Antes feito de tecido de algodão, o produto cultural tipicamente baiano permitia que os desejos fossem realizados mais prontamente. Com a popularização, as fitinhas do Bonfim hoje são feitas de poliéster, material mais resistente, e aquelas três vontades podem levar anos para se concretizar.

Frustração. Em um recente encontro em São Paulo, o governador do Ceará, Cid Gomes, comentou com o secretário do Planejamento de Salvador, José Gabrielli, que as fitas que traz amarradas ao pulso resistem ao tempo há meses.

"Antigamente elas duravam menos e os desejos eram atendidos mais depressa", brincou o governador. "Elas agora são de poliéster", respondeu o secretário baiano. "Eu desejo sempre muita luz", comentou o governador Cid Gomes. Um jornalista ironizou que isso explicaria o recente apagão no Nordeste. O governador apenas sorriu.

A frustração pela demora em ver a fita se romper abala os fiéis, famosos ou não. Mas os fabricantes não se comovem com os apelos. O principal produtor da fitinha do Brasil, responsável por 90% do mercado, fica em Sumaré, no interior de São Paulo.

O empresário Osnir Moreno Rolin, 50, vende a crença para todo o Brasil e ainda exporta para alguns países, como França e Alemanha. Apesar de afirmar que acredita na tradição, Rolin assume que, por questões financeiras, fez adaptações da fitinha original.

"Algumas pessoas já me pediram para fazer em acetato, mas seria inviável economicamente. O poliéster é mais facilmente encontrado", diz. De acordo com o empresário, suas fitas podem durar cerca de seis meses, enquanto a fibra natural fica frágil em apenas um mês.

Desejos esquecidos. A estudante de Direito Jeannine Hagnauer, de 23 anos, conta que ficou mais de dois anos com a sua fitinha amarrada no braço. "Chegou um momento que eu já tinha me esquecido dos meus desejos", conta ela.

Tendo visitado Salvador pela última vez em 2009, a carioca conta que sempre que vai à cidade amarra uma fitinha no pulso, mais para se lembrar da "mágica do lugar" e menos por acreditar na tradição.

"Salvador tem uma boa energia, a fitinha só é um jeito de levar esse espírito positivo depois da visita". Além da modificação do material, o tamanho também foi alterado. Inicialmente as fitas tinham 47 centímetros, por se acreditar que era a medida do braço direito da estátua de Jesus. As fitas encolheram para baixar o custo e hoje medem 43 centímetros.

Lado negativo. O preço médio de cada rolo com 100 fitas gira em torno de R$ 50, segundo o fabricante. Em Salvador, o preço varia de um comerciante para outro. Nas redondezas da Igreja do Bonfim, o produto é vendido por vários ambulantes nas calçadas.

"Pra você, faço por R$ 2 trinta fitas", anuncia um vendedor, a cada turista que passa.