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Evelson de Freitas/ AE

'Fluxo de dólar para o Brasil é bolha', diz Nobel de Economia

Durante palestra em SP, Paul Krugman diz que entrada de capitais resulta de avaliação exagerada sobre o País

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Leandro Modé e Ricardo Leopoldo, de O Estado de S. Paulo ,

03 Dezembro 2009 | 08h43

O professor da Universidade Princeton e prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, é um dos incontáveis investidores estrangeiros que aplicam parte de seus recursos no Brasil. Mas já começa a pensar em tirar dinheiro do País por causa do otimismo, para ele, excessivo com a economia brasileira.

 

"O Brasil não será uma superpotência amanhã, mas os investidores já estão colocando essa possibilidade nos preços dos ativos", afirmou. Krugman, que fez na quarta-feira, 2, palestra em um evento em São Paulo, disse que tem aplicações em fundos que investem na moeda brasileira.

 

O prêmio Nobel ressaltou que o atual fluxo de capitais para o País é "uma bolha", mas não manifestou se ela vai estourar nos próximos meses. Na sua avaliação, o ingresso maciço de recursos no País é fruto de uma avaliação exagerada dos investidores internacionais.

 

Por causa desse fluxo, Krugman alertou que a valorização da taxa de câmbio brasileira "é um problema real e, se for mantida no atual nível - por um prazo duradouro -, pode prejudicar a economia nacional".

 

Ele referiu-se especialmente aos efeitos negativos sobre as exportações e ao agravamento do déficit em conta corrente. "O nível atual do câmbio é semelhante ao registrado no início de 2008, quando os preços das commodities estavam muito elevados. Isso não é saudável", observou.

 

O professor reconheceu que é difícil, para qualquer governante, lidar com uma situação dessas. "Talvez seja o caso de as autoridades brasileiras dizerem aos investidores: ‘Estamos melhor do que antes, mas não tão bem’", brincou.

 

Do ponto de vista prático, ele sugeriu que o governo brasileiro aumente o ritmo de compra de reservas - "ainda que não queira fazer isso". O Ministério da Fazenda tem defendido que o Banco Central (BC) adquira ainda mais reservas para tentar sustentar a cotação do dólar. No entanto, o BC argumenta que, quanto maiores forem as compras, mais seguro fica o País e mais capital atrai.

 

TAXAÇÃO

 

Ele também não mostrou oposição aos impostos sobre o ingresso de capitais no País, como o governo fez recentemente com a alíquota de 2% de IOF sobre o investimentos estrangeiros em ações e títulos públicos. Mas observou que a medida não está "funcionando muito bem".

 

Krugman afirmou que os Estados Unidos devem registrar modesta expansão em 2010 e manter o alto nível de desemprego. "Acredito que o crescimento deve ser próximo de 2%. Contudo, os estímulos fiscais realizados pelo governo foram insuficientes e devem perder fôlego no segundo semestre do próximo ano. Dessa forma, acredito que o desemprego deve se manter no nível de 10% em 2010, na melhor das hipóteses" afirmou.

 

Para ele, esse cenário de fraqueza deve fazer com que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) mantenha a taxa de juros em zero nos próximos dois anos. Na avaliação do acadêmico, o presidente Barack Obama precisaria injetar um montante entre US$ 200 bilhões e US$ 300 bilhões para reanimar a economia do país.

 

"Seria necessário que o estímulo total atingisse uma marca próxima a US$ 1 trilhão", disse. "Esses recursos deveriam ser aplicados basicamente na criação de empregos por algumas vias, entre elas a geração de vagas no setor público, redução de impostos e ajuda a governos regionais para contratações."

 

DESEMPREGO NOS EUA

 

Krugman ressaltou que o atual nível de desocupação nos EUA é muito sério, pois não permite que as famílias retomem com rapidez o consumo, que seria o principal elemento a incentivar os investimentos nas empresas. "Como nos EUA não há uma rede de proteção social para quem perde o trabalho, normalmente é curto o período em que as pessoas ficam desempregadas. Infelizmente, a atual crise financeira foi tão séria que esse problema levará um bom tempo para ser solucionado."

 

Ele acrescentou que há 40% de chances de a crise internacional voltar a apresentar uma recaída intensa no horizonte de 12 meses. "Eu avalio que o ‘double deep’ (duplo mergulho) ainda não é meu principal cenário, mas está perto de ser."

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