Foco no futuro

Brasil e Estados Unidos precisam se concentrar nos problemas reais

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2017 | 05h00

Em alguns dos meus primeiros ensaios abordei a similaridade, sob vários aspectos, entre a extrema direita (Trump) e a extrema esquerda (Dilma). Agora, repentinamente, Michel Temer, político de centro e conservador, se defronta com um impeachment. O que faz com que esses casos diferentes sejam similares?

Numa palavra, falta de moralidade. David Brooks, no The New York Times, referiu-se ao escândalo nos EUA envolvendo a resposta entusiasmada do filho de Trump à possibilidade de colaboração com os russos. Brooks conclui: “seus escândalos podem não levar a nada que resulte em um impeachment, mas escândalos nunca terminarão”.

Tanto no Brasil como nos EUA a verdade, nada mais do que a verdade, aparentemente não é mais importante. Nos EUA, temos “fatos alternativos” e mentiras descaradas. No Brasil grampeamos conversas desde o início da Lava Jato, afetando Lula, Dilma e mais recentemente Temer. 

A democracia exige uma imprensa livre e transparência.

Compreensivelmente, nem o Executivo e nem o Congresso concordam inteiramente entre si. Mas informações privadas, de uma maneira ou outra, sempre vazam. Isso é muito bom para o jornalismo e a internet, mas, no final, reduz a confiança da sociedade no tocante às ações governamentais. Por um tempo, seja o país africano, asiático, latino-americano ou esteja no mundo desenvolvido, pode funcionar. Com o tempo, se não imediatamente, um público informado reage.

A democracia também depende de um Judiciário engajado e honesto. O Brasil pode se orgulhar da evolução das suas instituições judiciárias nos últimos 30 anos. Importante tem sido a atuação do Ministério Público e da Polícia Federal na última década, à medida que um grupo mais jovem e determinado evoluiu, e não só em Brasília. 

A mesma observação se aplica a membros do Judiciário. O fato de pesquisas sobre candidatos para as eleições de 2018 mostrarem grande apoio ao juiz Sérgio Moro é uma demonstração disto.

Para saber o quão eficaz se tornou o Judiciário, bastar ver os esforços políticos para limitar o seu poder. Muitos empresários e autoridades públicas vêm sendo processadas e condenadas a longas penas de prisão. A delação premiada é a sua única saída. Essa tática tem fornecido mais informações sobre o envolvimento de outras pessoas. E o círculo se amplia continuamente.

Os crimes com frequência vão bem além das modestas violações do caixa 2. Apesar das tentativas políticas de caracterizar as ações dos promotores como excessivas, poucos brasileiros acham que é o caso. Embora Lula continue liderando as pesquisas para as próximas eleições presidenciais, seu índice de rejeição também é muito alto. O que é muito diferente da sua avaliação pela Newsweek em novembro de 2009 como o mais popular presidente do mundo.

Temer, após inúmeras substituições na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, garantiu uma maioria favorável de 40 contra 25 na comissão. A votação final está marcada para 2 de agosto. Ele deverá obter facilmente um terço dos votos exigidos na Câmara para continuar na função. Mas Janot tem outros casos prontos para levar adiante. Se a economia cambalear, o PSDB passará para a oposição, ou, se novas informações surgirem de outras testemunhas, essa decisão pode mudar.

Nos Estados Unidos uma maioria de americanos acha hoje que Trump tem culpa no caso de um conluio com a Rússia durante sua campanha presidencial. Putin nega ter interferido e Trump defende que se mude de assunto, apesar das fortes evidências de fontes da inteligência provando o contrário. Ninguém sabe onde vai terminar este seu mais recente problema familiar. Mas, desta vez, não obstante uma maioria republicana nas duas casas do Congresso, audiências vêm se realizando há algum tempo para se tentar averiguar em detalhes esse caso.

Mas Trump ainda enfrenta os outros problemas que o ajudaram a vencer a eleição. As promessas de menos comércio internacional e mais manufaturas domésticas, medidas severas contra a imigração e expansão da infraestrutura foram deixadas para trás. Em vez disso, o foco da sua atenção tem sido a assistência à saúde. Seu pesadelo. O Obamacare continua absorvendo também a atenção do Congresso. Uma votação final está marcada para a próxima semana. A oposição de uma maioria da população (e da comunidade médica) tem tido consequências políticas.

Brasil e Estados Unidos precisam se concentrar nos problemas reais relacionados com o desempenho econômico lento e regras políticas inadequadas. Em 2018, os dois países terão novas eleições. A esperança é de que elas levem a lideranças interessadas em soluções que tenham a ver com futuro e não com o passado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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