Formação técnica pode alavancar competitividade

Carência de mão de obra qualificada é apontada como um dos gargalos mais complexos enfrentados pelas empresas

BEATRIZ BULLA, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS, DAYANNE SOUSA, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2012 | 02h08

Com escassez de mão de obra qualificada e baixa proporção de jovens que chegam às universidades, o Brasil vive hoje o desafio de aumentar sua produtividade por meio de investimento em inovação e educação profissionalizante. Essa avaliação da educação nacional foi consenso durante o seminário "Educação e formação de mão de obra para o crescimento", terceiro da série Fóruns Estadão Brasil Competitivo, realizado pelo Grupo Estado em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O porcentual de 6,6% de jovens brasileiros de 15 a 19 anos matriculados em escolas de ensino médio profissionalizante, de acordo com o presidente do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Rafael Lucchesi, é muito baixo comparado à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que chega a 42%. Intensificar forças, tanto do governo quanto da iniciativa privada no ensino profissionalizante se mostra essencial para um país que, até 2015, precisará de 7,2 milhões de profissionais de nível técnico.

Diante do desafio, especialistas apontam que a valorização do diploma universitário em detrimento do ensino técnico, chamada de "cultura bacharelesca", é prejudicial para o desenvolvimento do País, já que o número de jovens que chega ao ensino superior no Brasil ainda é irrisório, cerca de 15% do total. "Temos problemas antigos de capacitação de mão de obra que se devem à cultura bacharelesca, à ideia de que apenas um diploma de ensino superior basta para garantir uma boa vida", reforçou James Wright, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e coordenador do Programa de Estudos do Futuro da Fundação Instituto de Administração da USP (Profuturo-FIA).

Sem preparo. Lucchesi chama a atenção para o futuro dos jovens que não chegam ao ensino superior atualmente e, de acordo com ele, se deparam com o mercado de trabalho sem preparação profissional. "Todo o conteúdo de aprendizado é pensado como se todos fossem para a universidade, mas a maior parte não vai", criticou. Também presente no evento, o diretor de integração de redes do Ministério da Educação (MEC), Marcelo Feres, reforçou que vivemos uma cultura que dá muito valor ao diploma. Feres afirmou que o País tem aproximadamente 6,5 milhões de estudantes no ensino superior e 1,3 milhão no ensino técnico. "Isso não é sustentável para uma economia que busca o crescimento", complementou Feres.

O reitor da Unimonte, Ozires Silva, também relacionou a educação com inovação e ganho de competitividade. Ele apontou que o "fanatismo" da Coreia do Sul por educação durante anos proporcionou a eleição de um veículo da montadora coreana Hyundai como "carro do ano" nos Estados Unidos este ano. "Nós temos parâmetros fundamentais para dar um salto para o futuro. Por que não o Brasil?", indagou Ozires.

Wright concorda que a formação profissional está essencialmente ligada ao aumento da produtividade nacional. "Temos um desafio enorme de melhorar a produtividade, o que obviamente envolve qualificação profissional, infraestrutura e taxa de poupança, entre outros. Mas o desafio fundamental é o desenvolvimento da educação", afirmou Wright. De acordo com ele, o Brasil vem perdendo a corrida da competitividade nos últimos dez anos para outras economias emergentes, ao crescer à média de 1,5% ao ano, ante os 9% da China ou até mesmo os 3% da Coreia. "A distância está aumentando em termos de geração de renda", lamentou.

O professor apontou que um trabalhador brasileiro em 2011 gerava anualmente R$ 31.085 de Produto Interno Bruto (PIB) em relação à População Economicamente Ativa (PEA). Para atingir a mesma produtividade que um mexicano em 2040, cada trabalhador brasileiro deverá gerar R$ 120.545 naquele ano. "É um grande desafio de produtividade."

Área técnica. Ele destacou ainda que o problema brasileiro não é o número de formados na universidade, e sim o reduzido número de pessoas com formação na área de ciência, tecnologia e áreas técnicas. "Nossa proporção de engenheiros é extremamente baixa", afirmou Wright. Segundo ele, 40% dos matriculados em cursos superiores estão cursando Administração, Direito e Pedagogia, ante 7% de matrículas em áreas técnicas. O número deveria chegar próximo a 25% da população universitária, para fins de comparação com outros países, segundo o professor.

Dados da OCDE mostram que no Brasil a proporção de engenheiros em relação ao total de universitários é de apenas 4,6%, enquanto essa relação é bem maior em países como Chile (13,7%), Japão (19%), Coreia do Sul (23,2%) e Malásia (45%). Na média da OCDE, a proporção é de 12%. Lucchesi afirmou ser preciso "melhorar a matriz educacional" do País, com mais formação de engenheiros. Wright complementou: "Precisamos orientar nossos alunos para aprenderem efetivamente matemática e para uma formação técnica profissional". De acordo com o presidente do Senai, contudo, a valorização do profissional técnico tende a ser crescente no mercado profissional no País.

"Na medida em que os novos programas hoje estão aliados a uma política de valorização profissional, seguramente esse profissional técnico de nível médio começa a ter o valor salarial e o valor social do trabalho inclusive maiores do que em casos de profissional de nível superior", concordou Feres.

O diretor ressaltou a importância do lançamento do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), há um ano, como fundamental para ampliar a escolaridade no nível técnico e em cursos de tecnologia. "O Pronatec é um conjunto de iniciativas que visa a ampliação acelerada da oferta de cursos técnicos e de educação continuada."

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