Thierry Zoccolan, Pool via AP
Thierry Zoccolan, Pool via AP

Frente a produtores, Macron defende Mercosul e pede acordo com Europa

Para presidente da França, sindicatos que acusam os países sul-americanos de prejudicar o mercado francês de carne bovina são hipócritas, porque o acordo de livre-comércio ainda nem foi assinado

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2018 | 20h01

Frente a mil agricultores convidados ao Palácio do Eliseu, o presidente da França, Emmanuel Macron, fez na quarta-feira, 21, seu mais forte pronunciamento em defesa de um acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul. Discursando a uma plateia hostil a qualquer negociação que resulte em abertura do mercado de carnes sul-americanas, o chefe de Estado francês criticou sindicatos e entidades setoriais que atribuem as dificuldades dos produtores de carne bovina ao tratado – que nem sequer foi assinado. Segundo Macron, a abertura do mercado vai acontecer, mas "não haverá carne produzida com hormônios” no país.   

Os agricultores e pecuaristas foram recebidos no salão nobre do palácio presidencial em um sinal de prestígio do setor e da aproximação que seu governo pretende com os produtores rurais, na véspera da abertura do Salão da Agricultura de Paris, o maior evento do setor na França. Já o objetivo dos trabalhadores era obter garantias contra a suposta “invasão" da carne brasileira e argentina na Europa após o acordo UE-Mercosul. Os produtores também voltaram a reclamar que os criadores da América do Sul não respeitam os mesmos standards sanitários e ambientais que os europeus, e por isso seu custo de produção é mais baixo.

De acordo com Macron, o setor é marcado pelo que chamou de "hipocrisia" de líderes que pedem a abertura dos mercados estrangeiros, como a Turquia, a China e o Japão, mas não aceitam a abertura na Europa. "Vocês acreditam que as dificuldades do setor bovino (francês) estão ligadas ao Mercosul?”, questionou, em um discurso enfático. "Há quanto tempo as dificuldades existem? Quem pode olhar nos meus olhos e dizer que o Mercosul é a causa do seu problema? Ninguém! Ninguém salvo aqueles que se aproveitam do mercado fechado, que organizaram o mercado francês para os seus próprios interesses”, disparou.

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Macron afirmou que o problema do setor bovino na França é o fato de que 70% da carne bovina consumida por consumidores privados não é de origem francesa. "Não é o Mercosul o problema, é a nossa organização. Somos nós todos os irresponsáveis, são aqueles que dizem que defendem os trabalhadores e que não o fazem há muitos anos”, ressaltou. "Não há futuro para nossa agricultura se não houver uma abertura racional, organizada, de nosso mercado.”

O presidente francês fez ainda uma forte defesa do acordo com Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, confirmando que a França de fato mudou de posição e agora defende que as negociações sejam concluídas o mais rápido possível. Segundo Macron, o acordo poderia ter sido assinado em dezembro passado, mas as “linhas vermelhas" impostas por seu governo obrigaram a Comissão Europeia a não fechar a negociação. Bruxelas é favorável ao aumento da cota anual de importação de 70 mil toneladas de carne bovina a 100 mil toneladas sem tarifas aduaneiras.

"As discussões com o Mercosul tem vários ganhadores. E nós vamos ter vários ganhos, porque temos interesses ofensivos, como a proteção das indicações geográficas francesas”, exemplificou Macron. "O acordo é bom no estado atual. É preciso que não sejamos hipócritas entre nós sobre esse tema.”

Mobilização. Desde a quarta-feira, sindicatos de produtores rurais estão se mobilizando para o Salão da Agricultura, aproveitando a ocasião para se manifestar contra os preços dos produtos agrícolas e contra o acordo UE-Mercosul. Presente no Palácio do Eliseu, Jérémy Decercle, presidente do movimento dos Jovens Agricultores, ainda pretendia passar a mensagem de preocupação da categoria. “Com esses acordos de livre-comércio que podem ser assinados, abriremos as portas a produtos alimentares desses países que não correspondem às expectativas sociais francesas e europeias”, argumentou. “As condições de produção dos animais ou de cereais não são idênticas às nossas e não respeitam as mesmas regulamentações.”

Em comunicado, a Federação Nacional dos Sindicatos de Produtores Agrícolas (FNSEA) reclamou ainda do que considerou a incoerência do governo. “Como poderemos promover o engajamento na transição ambiental na França, com segurança sanitária irrepreensível e ao mesmo tempo autorizar importações de produtos cujos métodos de produção são proibidos na França?”, questionou o sindicato. 

Macron garantiu em seu discurso que não aceitará que os padrões sanitários europeus sejam rebaixados para permitir a abertura do mercado a carnes produzidas em condições proibidas na Europa. “Não haverá jamais carne bovina produzida com hormônios na França. Não haverá jamais, e não tentem assustar as pessoas”, advertiu, garantindo que haverá contrapartidas do Mercosul em termos de controle de fronteiras, traçabilidade e normas de produção. “Não haverá nenhuma redução de nossos standards de qualidade, sociais e ambientais ou sanitários por meio dessa negociação.”

Em compensação à abertura dos mercados, Macron prometeu um plano de investimentos da ordem de € 5 bilhões para a agricultura do país, entre medidas em favor da produtividade, da economia de energia e de saúde e bem-estar dos trabalhadores do campo. Outra medida será a concessão de uma linha de crédito de € 1 bilhão a jovens agricultores e a proibição de compra de terras agrícolas por estrangeiros.

 

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