Paulo Beraldo/Estadão
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Fundo da ONU para pequeno agricultor busca manter jovens no campo

Até 2021, o maior objetivo do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola será desenvolver projetos que melhorem a produção no campo, e criem condições para evitar a saída 'em massa' de jovens para as cidades

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2018 | 10h08

ROMA - O Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola da Organização das Nações Unidas (FIDA/ONU), agência criada em 1978 para reduzir a pobreza no meio rural, anunciou nesta terça-feira, 13, que o orçamento esperado para o triênio 2019, 2020 e 2021 é de US$ 3,5 bilhões. Os recursos, bancados pelos 176 países membros e pela iniciativa privada, após aprovados, devem se tornar empréstimos e doações para apoiar pequenos agricultores, principalmente na África e no sul da Ásia.

O foco dos investimentos, segundo Gilbert Houngbo, presidente da FIDA, será em projetos que melhorem a qualidade de vida dos jovens, que costumam abandonar as zonas rurais em busca de melhores oportunidades nas cidades. Para tentar evitar essa "sangria", a agência buscará facilitar o acesso a tecnologias de produção mais eficientes, e apresentar técnicas de cultivo mais resistentes às mudanças climáticas, como as estufas, que protegem as plantações de chuvas fortes. 

Além disso, explica Houngbo, a FIDA fortalecerá suas ações para promover a capacitação de mulheres e buscar a igualdade de gênero e de oportunidades de trabalho no campo. "Queremos aumentar nosso papel de catalisador de desenvolvimento para elevar os recursos disponíveis para a transformação do mundo rural", diz Houngbo. 

No Brasil desde 1980, o FIDA já financiou US$ 864,5 milhões em projetos em sete Estados da região Nordeste do País. No sul do Piauí, por exemplo, o programa 'Viva o Semiárido' tenta combater a pobreza no meio rural facilitando o acesso a crédito rural e fortalecendo cooperativas locais. Na Bahia, o projeto 'Pró-Semiárido', com foco em capacitação profissional, está presente em 30 municípios e beneficia cerca de 70 mil famílias. A ajuda é de extrema importância na medida em que o País tem cerca de quatro milhões de propriedades rurais familiares, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Em um contexto em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem se mostrado crítico à atuação da ONU e inclusive reduziu as contribuições do país ao orçamento da entidade, o FIDA tem sido pró-ativo na busca por formas complementares de arrecadação de recursos e aumentado a eficiência de sua gestão.

"Precisamos ser criativos e inovadores na mobilização e uso dos recursos, para atrair a iniciativa privada", afirmou Houngbo. "Quanto mais mostrarmos resultados, mais aptos estaremos a convencer as pessoas a contribuírem".

Fome e conflitos. "A fragilidade produz fome, pobreza e migração, que criam conflitos e instabilidade", disse Gilbert Houngbo. 

Para romper esse ciclo, o político togolês afirmou que a colaboração de todos os países é imprescindível. Assim, diz ele, será possível criar oportunidades para quem vive na zona rural e garantir alimentos para um planeta com mais de 800 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar - o número aumentou em 2016 após 13 anos de quedas.

Houngbo lembrou que 80% das pessoas em condição de pobreza no mundo vivem na zona rural, totalizando 500 milhões. O líder do FIDA defendeu que todos os países devem contribuir na luta para reduzir a fome em um contexto de conflitos, imigração massiva e mudanças climáticas. "Ainda hoje 815 milhões sofrem de fome e má nutrição diariamente", afirmou o chefe da única agência da ONU que atua exclusivamente com pequenos agricultores.  

Houngbo comentou que 2017 foi um ano com múltiplos conflitos, crises humanitárias, catástrofes climáticas e aumento da fome, forçando ainda mais pessoas a imigrarem. Ele citou ainda que 250 milhões de pessoas vivem fora de seus países. Esse número de pessoas, se fosse uma só nação, seria a quinta mais populosa do mundo.

Por isso, Houngbo explica que um dos objetivos do FIDA é reduzir a vulnerabilidade das regiões agrícolas e possibilitar que as pessoas possam viver bem no campo, sem a necessidade de deslocar-se. "Mais do que nunca a agricultura precisa de apoio, já que investimentos sustentáveis no campo permitem que as comunidades se tornem mais resilientes".

*O jornalista viajou a convite do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola da Organização das Nações Unidas

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