Tiago Queiroz/Estadão
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Gasolina sobe 19,5% em seis meses e já beira os R$ 5 em algumas cidades

Combustível. Valor médio, de R$ 4,20, é o maior já registrado na série histórica da ANP, sem descontar a inflação; escalada está relacionada à nova política de ajustes da Petrobrás e especialistas sugerem adoção de tributo variável para amortecer as variações no preço

Fernando Nakagawa e Anne Warth / BRASÍLIA, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2018 | 21h00

Nos últimos seis meses, o preço médio da gasolina subiu 19,5% nos postos de combustível e já se aproxima dos R$ 4,20. Em algumas cidades, está perto de romper a barreira dos R$ 5. O preço médio, sem descontar a inflação, é o maior já registrado na série histórica da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que começou em 2001. 

A gasolina mais cara do Brasil está na região Norte. Em Tefé, no Amazonas, o preço médio é de R$ 4,941 por litro. Em Alenquer, no Pará, chega a R$ 4,838. Para os paulistas, a gasolina mais cara é de Dracena (R$ 4,196) e a mais barata fica em São José dos Campos (R$ 3,863). 

A escalada do preço está relacionada à nova política de ajustes da Petrobrás, em vigor desde julho de 2017, quando a estatal anunciou que as variações ocorreriam com mais frequência. Nesse período, os preços foram reajustados 133 vezes. A mudança foi feita para dar agilidade aos reajustes e acompanhar a volatilidade da taxa de câmbio e da cotação de petróleo. O barril ficou 28% mais caro nesse período. 

Quando se compara o preço da gasolina no País com o do mercado norte-americano – de livre concorrência e sem nenhum tipo de política de preços – percebe-se um ritmo diferente. Nos EUA, o combustível ficou cerca de 7,6% mais caro quando o preço é convertido a reais. 

Uma das explicações pode estar na sazonalidade. O período comparado começa no verão – quando os combustíveis ficam mais caros nos EUA – e termina em pleno inverno – quando os preços historicamente são mais baixos. Lá, a gasolina custa, em média, US$ 2,639 o galão ou R$ 2,2576 por litro.

Para não colocar em cima do consumidor todo o peso da volatilidade internacional do petróleo, especialistas sugerem um “amortecedor de preços”. Um dos mecanismos mais citados seria usar a atual Cide (o tributo federal que incide sobre os combustíveis) como um “colchão” para suportar a variação internacional, sem causar instabilidade no preço praticado no Brasil. O tributo seria variável: quanto maior o valor do litro, menor o porcentual da alíquota. E vice-versa. 

“No Reino Unido, por exemplo, há certa estabilidade no valor cobrado, pois a volatilidade é amortecida pelo tributo variável. Isso dá mais estabilidade para o consumidor. A maior parte da Europa faz isso, e o Japão também”, defende o presidente da consultoria agrícola Datagro, Plínio Nastari.

O diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), Adriano Pires, elogia a atual política de preços da Petrobrás por acabar com a “ficção econômica” praticada nos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff – que represaram os preços para conter a inflação. 

Pires defende, no entanto, o aprimoramento do sistema com a adoção da Cide como imposto ambiental – que oneraria a gasolina em favor de combustíveis mais limpos, como etanol – e também para corrigir externalidades – como a variação do preço internacional dos combustíveis. “A próxima etapa é rever a questão tributária. É preciso avançar na questão ambiental e na volatilidade de preços.” 

A disparada da cotação do petróleo é resultado da maior demanda e consequente diminuição dos estoques, já que a produção não cresceu no mesmo ritmo, segundo o relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Mas nem todo esse aumento chegou às bombas. “De maneira geral, o petróleo não é um bem consumido diretamente, mas utilizado para produção de derivados. As negociações são realizadas com base nas cotações dos próprios derivados e não na do petróleo”, explica a Petrobrás em nota ao Estadão/Broadcast

A estatal reconhece que, no longo prazo, petróleo e derivados têm comportamento semelhante, mas “no curto prazo podem ocorrer, e de fato ocorrem, oscilações de diferentes magnitudes”.

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Fernando Nakagawa e Anne Warth, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2018 | 21h00

Quartas ou sextas são os dias em que Silvio Luiz muda a rota do trabalho para casa por um compromisso. Na avenida São Gualter, no Alto de Pinheiros, o locutor esportivo estaciona o Gol 1.0 ano 2011 prata para abastecer. “Sempre no mesmo posto, sempre na mesma bomba”. Quando o tanque enche, tira um caderninho do porta-luvas e anota dia, mês, tipo de combustível e quilômetros rodados. Foi assim que começou uma cruzada contra a gasolina cara.

“Minha conta da gasolina passa fácil de R$ 500 por mês. Bem pouco tempo atrás não era mais de R$ 400”. Essa disparada de preço o levou a uma campanha pessoal que dura mais de um ano. “Antigamente, aumentar a gasolina era um escândalo. Hoje ninguém mais liga”, escreveu em 4 de janeiro de 2017 no Twitter. Aos poucos, as manifestações ganharam apoio de seus mais de 620 mil seguidores. 

Seguindo à risca o “acerte o seu aí, que eu arredondo o meu aqui”, o posto começou a reagir aos aumentos anunciados pela Petrobrás. Silvio Luiz passou a reclamar mais e elegeu alvos. “Qual é a mágica: gasolina sobe e a inflação desce? Conta outra, Meirelles”, reclamou em 14 de setembro ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

“Foi realmente uma pancada violenta. Não sei como os taxistas não aumentaram o preço”, diz. A indignação fez Silvio Luiz insistir com o homem forte da economia. Tantas mensagens deram resultado. Em 4 de janeiro deste ano, Meirelles respondeu com uma confissão. “Os preços da gasolina estão mais altos do que todos gostaríamos”, com uma breve defesa do atual sistema de preços da Petrobrás.

A resposta surpreendeu o narrador e foi comemorada por seus seguidores no Twitter. “Fiquei satisfeito com o fato de ter respondido, mas sei que ele pode ter feito isso porque dizem que quer ser candidato”, diz. “Mas coloca aí que sigo insatisfeito com o preço da gasolina.”

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Fernanda Nunes e Rafael Cicconi, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2018 | 21h00

Mesmo próximo das maiores refinarias da Petrobrás, o Rio de Janeiro está no topo da lista dos Estados que pagam mais caro pela gasolina, atrás apenas do Acre, segundo levantamento feito pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O litro do combustível era vendido na capital fluminense por até R$ 4,998, na semana passada. 

Em um posto da região central da cidade, o gerente Diego Pontes conta que o movimento caiu nos últimos meses. Para compensar, o posto optou por cortar custos. “Não chegamos a demitir. Mas estamos economizando. Em água, por exemplo. E acabamos com o cafezinho do lado da bomba, para todos os clientes.” 

Os consumidores também buscam alternativas para economizar. O motorista profissional Milton Santos, de 60 anos, diz que passou a deixar o carro mais tempo na garagem e que “o jeito tem sido andar mais de bicicleta”. “É claro que não estou satisfeito. O governo só dificulta a nossa vida.” Ele afirma que, no dia a dia, não tem sentido os efeitos da queda da inflação oficial. 

O agente fiscal Nazareno dos Santos, de 65 anos, está buscando alternativas para diminuir os gastos. “Até o mês passado, a gasolina estava a R$ 3 e pouco. Agora, está a R$ 5. Passei a economizar mais em casa, a gastar menos no supermercado.”

Vizinhos. Cubatão, cidade litorânea com 127 mil habitantes a 70 quilômetros de São Paulo, tem cenário diferente de suas vizinhas. Sem praias, o município tem como base da economia as empresas do polo industrial, dentre elas a Refinaria Presidente Bernardes, da Petrobrás. Mas a localização também não ajuda quem precisa abastecer seu veículo por lá.

De acordo com a ANP, Cubatão é a quarta cidade de São Paulo com os preços mais altos de combustíveis nos postos. O motorista particular George Harynson Vieira de Almeida, de 25 anos, diz que vai para cidades vizinhas, como Santos e São Vicente, para abastecer seu carro. “Só coloco gasolina no carro por aqui se eu estou na reserva.”

A média dos preços em Cubatão é de R$ 4,214, segundo a ANP, mas na Avenida 9 de Abril, a principal da cidade, é possível encontrar a gasolina comum até por R$ 4,289. 

“Já cheguei a pagar de R$ 0,70 a R$ 1 a menos por litro nas cidades vizinhas. Não dá para entender: como temos um combustível tão caro, se temos uma refinaria a apenas dois quilômetros de distância do posto?, questiona o jornaleiro Jason dos Santos, de 35 anos. 

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