Governo namora Microsoft

O argumento do software livre era técnico, porém, foi contaminado por ideologia

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2016 | 06h00

Uma das mudanças que o governo Michel Temer quer promover é a substituição do uso de software livre por programas da Microsoft. O prazo final para que os órgãos fizessem seus pedidos foi ontem.

Nenhum argumento técnico justifica esta mudança. Sem ter fechado ainda a lista de pedidos, o governo não tem como saber quanto a transição para o software comercial vai custar. No mínimo será um custo desnecessário na casa das centenas de milhões de reais.

Seu principal argumento é segurança. Não é um argumento que se sustente perante qualquer dado real. Por trás de sistemas como Facebook e Google está uma base de softwares livres. A internet inteira se sustenta por programas e protocolos de código aberto.

O governo americano mantém alimentado um banco de dados dos sistemas mais vulneráveis a ataques, o NVD. No ranking mais recente, de 2015, a Microsoft aparece como o segundo lugar em número de pontos fracos conhecidos. Seu navegador, o Internet Explorer, é o mais frágil de todos. Isto não quer dizer que os outros sejam seguros. No jogo da segurança, na verdade, todos têm pontos de fraqueza e ninguém pode argumentar de cara limpa que ganha.

Desde o início do governo Lula se fez um discurso de que o governo adotaria software livre. Sua instalação é gratuita e, porque os códigos podem ser mexidos por qualquer um, são maleáveis. Quinze anos depois, o governo poderia ter hoje uma suíte de ferramentas cuidadosamente customizada para suas funções. Mas não tem.

Esses pacotes da Microsoft são como um vício. São programas muito caros, com muitas funções, a maioria desnecessárias para quase todos os usuários, e, no entanto, todo mundo usa sem saber explicar bem o porquê. As mesmas atividades podem ser desempenhadas por muito menos dinheiro sem sacrificar nada.

No governo, o PT jamais conseguiu avançar muito com sua proposta de utilizar software livre. Segundo um estudo da Controladoria-Geral da União publicado em maio do ano passado, apenas 43% dos ministérios e secretarias utilizavam-se de programas abertos. No relatório, o cálculo feito era de que se a virada fosse completa, o governo federal economizaria algo como R$ 604 milhões.

O argumento do software livre era técnico, porém foi contaminado por ideologia. Ainda assim, em um tempo de cortes de gastos, é inconcebível que se torre dinheiro com um único fornecedor para resolver problemas que não existem.

O governo Temer é um governo de transição. Quem votou em Dilma Rousseff na eleição de 2014 não está feliz de vê-lo no Planalto. Quem votou em Aécio Neves não o escolheu presidente. Independentemente do dinheiro gasto com estes novos programas, ainda haverá o custo da transição. Milhares de instalações, treinamento, conversão de arquivos, talvez novos equipamentos. Tudo por uma escolha filosófica.

Sim: filosófica. Escolher programas abertos é ter, nas mãos, o poder de construir softwares específicos para quaisquer usos futuros que o governo venha a necessitar. Programas que serão sempre compatíveis com todos os outros que já estejam em uso. Que possam ser alimentados por planilhas, textos, que consultem bancos de dados já existentes. A Microsoft, por outro lado, oferece softwares fechados e não adaptáveis. Pior. Está em fase de mudanças profundas. Além disso, não garante apoio para a vida. Qualquer empresa que use Windows XP, por exemplo, não tem mais direito a suporte técnico. O Windows 8 deixará de ser garantido em 2018. Com software livre, este problema nunca existirá.

Nada justifica que um governo de transição, em meio a uma crise econômica, tome uma decisão que custe tão caro e com tamanho impacto futuro.

O argumento do software livre era técnico, porém, foi contaminado por ideologia

Uma das mudanças que o governo Michel Temer quer promover é a substituição do uso de software livre por programas da Microsoft. O prazo final para que os órgãos fizessem seus pedidos foi ontem.

Nenhum argumento técnico justifica esta mudança. Sem ter fechado ainda a lista de pedidos, o governo não tem como saber quanto a transição para o software comercial vai custar. No mínimo será um custo desnecessário na casa das centenas de milhões de reais.

Seu principal argumento é segurança. Não é um argumento que se sustente perante qualquer dado real. Por trás de sistemas como Facebook e Google está uma base de softwares livres. A internet inteira se sustenta por programas e protocolos de código aberto.

O governo americano mantém alimentado um banco de dados dos sistemas mais vulneráveis a ataques, o NVD. No ranking mais recente, de 2015, a Microsoft aparece como o segundo lugar em número de pontos fracos conhecidos. Seu navegador, o Internet Explorer, é o mais frágil de todos. Isto não quer dizer que os outros sejam seguros. No jogo da segurança, na verdade, todos têm pontos de fraqueza e ninguém pode argumentar de cara limpa que ganha.

Desde o início do governo Lula se fez um discurso de que o governo adotaria software livre. Sua instalação é gratuita e, porque os códigos podem ser mexidos por qualquer um, são maleáveis. Quinze anos depois, o governo poderia ter hoje uma suíte de ferramentas cuidadosamente customizada para suas funções. Mas não tem.

Esses pacotes da Microsoft são como um vício. São programas muito caros, com muitas funções, a maioria desnecessárias para quase todos os usuários, e, no entanto, todo mundo usa sem saber explicar bem o porquê. As mesmas atividades podem ser desempenhadas por muito menos dinheiro sem sacrificar nada.

No governo, o PT jamais conseguiu avançar muito com sua proposta de utilizar software livre. Segundo um estudo da Controladoria-Geral da União publicado em maio do ano passado, apenas 43% dos ministérios e secretarias utilizavam-se de programas abertos. No relatório, o cálculo feito era de que se a virada fosse completa, o governo federal economizaria algo como R$ 604 milhões.

O argumento do software livre era técnico, porém foi contaminado por ideologia. Ainda assim, em um tempo de cortes de gastos, é inconcebível que se torre dinheiro com um único fornecedor para resolver problemas que não existem.

O governo Temer é um governo de transição. Quem votou em Dilma Rousseff na eleição de 2014 não está feliz de vê-lo no Planalto. Quem votou em Aécio Neves não o escolheu presidente. Independentemente do dinheiro gasto com estes novos programas, ainda haverá o custo da transição. Milhares de instalações, treinamento, conversão de arquivos, talvez novos equipamentos. Tudo por uma escolha filosófica.

Sim: filosófica. Escolher programas abertos é ter, nas mãos, o poder de construir softwares específicos para quaisquer usos futuros que o governo venha a necessitar. Programas que serão sempre compatíveis com todos os outros que já estejam em uso. Que possam ser alimentados por planilhas, textos, que consultem bancos de dados já existentes. A Microsoft, por outro lado, oferece softwares fechados e não adaptáveis. Pior. Está em fase de mudanças profundas. Além disso, não garante apoio para a vida. Qualquer empresa que use Windows XP, por exemplo, não tem mais direito a suporte técnico. O Windows 8 deixará de ser garantido em 2018. Com software livre, este problema nunca existirá.

Nada justifica que um governo de transição, em meio a uma crise econômica, tome uma decisão que custe tão caro e com tamanho impacto futuro.

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