Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Governo perdeu ambiente para as reformas, diz Monica de Bolle

Para economista, decisão de Janot de fatiar denúncias contra Temer vai paralisar o Congresso

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2017 | 13h23

A decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de fatiar as denúncias contra o presidente Michel Temer, vai inevitavelmente paralisar o Congresso e deve deixar a agenda de reformas para o próximo governo, avalia a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, com sede em Washington. 

Com o ambiente político conturbado, o teto do Produto Interno Bruto (PIB) este ano deve ser de crescimento zero e há risco de a recessão voltar.

"Não tem ambiente algum para discussão de qualquer tipo de reforma", disse ela, ressaltando que o foco agora dos parlamentares serão estas denúncias contra o peemedebista. Para a economista, em meio a acusações graves contra Temer - de corrupção, formação de quadrilha e organização criminosa - nem mesmo uma versão esvaziada do texto que muda as regras para a aposentadoria deve passar neste momento.

+ QUE REFORMAS

Uma das consequências diz, é que o coro dos políticos contra as reformas, não pelo conteúdo dos textos, mas por serem feitas por um governo cada vez mais ilegítimo, vai crescer.

"Estamos em um cenário de absoluta falta de capacidade de avaliar o que vem pela frente. Qualquer coisa é especulativa neste momento", afirma Monica de Bolle.

+ OS ENFERMEIROS

A economista observa que assim como aconteceu nesta segunda-feira, 26, em Brasília, com Temer reunindo ministros e políticos para conseguir apoio e se manter no poder, outras reuniões do tipo vão ocorrer nas próximas denúncias do Janot. "A medida que essa estratégia se repetir, o capital político vai ficando cada vez mais desgastado."

No caso da primeira denúncia de Janot, a economista observa que já se tinha alguma ideia do conteúdo. Já para as outras duas que virão nos próximos dias, a incerteza é maior. "Dependendo do que vier nas outras e do que vier acompanhando como evidências, acho que a gente tem o risco de um cenário parecido com o fim do governo de Dilma Rousseff, de paralisia total."

Para Monica de Bolle, o caso atual, porém, é um pouco pior do que na fase final de Dilma, porque naquele momento havia a solução de que o vice-presidente assumiria o cargo. "Agora, não tem nenhuma solução óbvia", afirmou ela, ressaltando que além do envolvimento de vários políticos na Operação Lava Jato, não há um nome de consenso para substituir Temer.

A economista pondera que não ter um nome de consenso não basta para segurar Temer no Planalto. "A depender do teor das novas denúncias e do que vier como evidência, acho que o Temer perde o respaldo."

Equipe econômica. Na avaliação da economista, a equipe econômica faz parte do governo Temer e não está blindando nada. "Existe essa ideia muito equivocada no Brasil de que a equipe econômica é uma coisa e o resto é outra. A equipe econômica trabalha para o presidente, são cargos comissionados", disse ela, descartando a existência de separação entre uma coisa e outra. "O que acontecer no lado político vai impactar sim a equipe econômica e o que ela é capaz de fazer."

A economista cita uma frase do livro de memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em que o tucano menciona que a equipe econômica não é dona do seu destino em nenhum governo. "O [Henrique] Meirelles é funcionário do Temer, assim como o Ilan [Goldfajn]." 

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