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Governo Trump resiste à entrada de Brasil na OCDE

Telegrama confidencial revela que representante da Casa Branca indicou que faltaria no Brasil 'consenso claro sobre as reformas', especialmente por meio de 'respaldo eleitoral'

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2018 | 04h00

GENEBRA - O governo de Donald Trump já deixou claro ao Palácio do Planalto que deu preferência para a adesão da Argentina à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), alegando que existia um “respaldo eleitoral” em Buenos Aires pelas reformas que Maurício Macri estaria realizando e que essa ainda não seria a realidade do Brasil. O recado foi dado ao governo brasileiro no final de março, durante encontros de representantes da Casa Civil com Landon Loomis, assessor especial para o hemisfério ocidental e economia global do vice-presidente americano, Mike Pence.

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Nos últimos seis meses, o governo brasileiro proliferou encontros com a cúpula da OCDE para encontrar formas de fazer avançar seu processo de entrada no organismo internacional e considerado como “o clube dos países desenvolvidos”. 

Mas, ainda que a secretaria da entidade seja favorável à chegada do Brasil, o voto americano tem impedido que o processo ganhe força. Em janeiro, em Davos, Temer aproveitou suas reuniões bilaterais para tratar do caso com o secretário-geral da OCDE, Angel Gurria. O diplomata, porém, sugeriu que o governo brasileiro se aproximasse de membros da administração americana para os convencer dos pontos positivos da adesão do Brasil. 

Nos meses que se seguiram, foi exatamente isso que o Brasil fez. Entre os dias 26 e 27 de março, o representante da Casa Civil, Marcelo Guaranys, esteve em Washington para alguns desses encontros, cujo teor foi colocado em um telegrama da chancelaria no dia 3 de abril. 

A posição do governo brasileiro, nos encontros mantidos nas últimas semanas com os americanos, era de que era importante que o processo de adesão do Brasil à OCDE fosse iniciado ainda sob a gestão do presidente Michel Temer. 

Um dos efeitos explicados aos americanos, segundo o telegrama de 3 de abril obtidos pelo Estado, seria a capacidade de o processo na OCDE consolidar o andamento das reformas regulatórias promovidas por Temer. De uma certa forma, a adesão à entidade internacional que coloca tais reformas como critérios ajudaria a “lock-in” o rumo que o governo gostaria de dar para a economia. 

O governo brasileiro também insistiu que não via um obstáculo que seu processo de adesão ocorresse de forma simultânea a da Argentina, já que nos últimos anos teria avançado na adesão de diversos instrumentos da organização com sede em Paris, mesmo não sendo um membro-permanente. 

Apesar do discurso do governo, o que representantes do Palácio do Planalto ouviram da Casa Branca não foi positivo. 

Num dos documentos obtidos pela reportagem, a diplomacia nacional indica que Loomis teria elogiado o “processo de reformas atualmente implementado pelo Brasil”. Mas “indicou que, na visão norte-americana, a OCDE deveria aceitar poucos países por vez, levando em consideração os pedidos de diferentes regiões”.

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Eleitoral. Mas foram os pontos da política doméstica que também pesaram. “Faltaria no Brasil 'consenso claro sobre as reformas', especialmente por meio de "respaldo eleitoral" - algo que pôde ser verificado na Argentina nas últimas eleições presidenciais e legislativas”, destacou o texto. 

O documento ainda deixa claro que o representante de Mike Pence foi explícito em indicar que a Argentina já estaria um passo adiante. “(Loomis) grifou, ademais, que o presidente Donald Trump já anunciou seu apoio à Argentina - o que é determinante para a definição, por parte do governo dos EUA, de quais seriam os países prioritários para o início imediato das tratativas de acessão”, completou. 

Em uma nota ao Estado, a Casa Civil confirmou a existência do encontro no dia 26 de março. Mas ponderou a posição americana. “Cada órgão americano transmite um conjunto de informações, mas nenhuma seria impeditiva do ingresso do Brasil”, disse.

“Na reunião com a assessoria do vice-presidente norte-americano, foi informado que os EUA apoiam o Brasil, mas estão preocupados com a concentração de esforços da OCDE na análise da acessão de seis países ao mesmo tempo, razão pela qual entendem que seria necessário organizar um fluxo de análise”, explicou o governo. 

“Neste caso, Argentina poderia ter precedência por ter solicitado ingresso antes e por ter tido apoio direto do presidente Donald Trump em conversa com o presidente Mauricio Macri”, confirmou a Casa Civil.

“Esta informação, no entanto, não reflete uma posição conclusiva do governo norte-americano ou da OCDE, uma vez que o assunto está sendo debatido nas reuniões mensais da Organização”, completou o governo Temer.

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