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Economia

Dilma Rousseff

Governo vai insistir no ‘plano Barbosa’

Apesar da pressão do PT para a adoção de medidas como uso das reservas para investimento, Dilma diz que vai tentar ajuste até o limite

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Vera Rosa; Lu Aiko Otta; Tânia Monteiro,
O Estado de S. Paulo

13 Março 2016 | 03h00

A presidente Dilma Rousseff recebe do PT pressão para dar uma guinada na política econômica, mas decidiu que vai tentar até o limite promover o ajuste fiscal delineado por Nelson Barbosa, dando respaldo ao ministro da Fazenda. Por uma questão de sobrevivência política, porém, o governo pode adiar o plano de reformar a Previdência.

O apelo para que essa agenda seja deixada de lado foi reforçado na quinta-feira, quando Barbosa desembarcou em São Paulo para conversar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, parlamentares e dirigentes do PT. A portas fechadas, o ministro ouviu que, se a economia não melhorar em pouco tempo, a política cobrará sua fatura com a deposição de Dilma.

Dirigentes do PT disseram a Barbosa não ser possível comprar uma briga com sindicalistas e representantes de movimentos sociais num momento de agravamento da crise, porque é o “andar de baixo” que pode salvar o governo. Lula também insistiu na necessidade de usar um terço dos US$ 372 bilhões das reservas internacionais para a criação de um Fundo Nacional de Desenvolvimento e Emprego.

A proposta consta do Programa Nacional de Emergência, aprovado pelo Diretório Nacional do PT em 26 de fevereiro. Dilma e Barbosa, porém, não pretendem seguir nessa toada. “Concordamos em 90% do diagnóstico. Não vamos fazer um cavalo de batalha em torno dos 10% em que a gente não concorda”, afirmou o ministro, na reunião com petistas.

Negociação. Na tentativa de salvar o seu mandato, a presidente pediu a Barbosa que negocie as medidas do ajuste fiscal com a oposição. Sua intenção é encaminhar ao Congresso, nesta semana, os projetos de alongamento da dívida dos Estados, da redução da meta fiscal e do limite para o crescimento do gasto público.

Com essa etapa, estaria concluído o pacote da área fiscal. Em seguida viriam mais medidas voltadas à retomada do crescimento, como as que buscam estimular a tomada de crédito e a liberação de R$ 9 bilhões para continuidade de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Esse segundo lote de propostas está alinhado com o PT, que pede prioridade para a geração de empregos, e não uma agenda de reformas e ajuste fiscal. Nos bastidores, Barbosa é acusado de ser pouco ousado e de manter a cartilha de seu antecessor, Joaquim Levy, com quem ele vivia às turras.

Sentar e chorar. O ministro, porém, continua a preparar medidas em ritmo frenético, enquanto petistas dizem que Dilma foi “abduzida” pelo mercado. “Qual é a alternativa? Sentar no meio-fio e chorar?”, pergunta Barbosa. “Há momentos em que o ministro da Fazenda tem de enfrentar temas impopulares. Mas isso faz parte do ofício.”

Questionada na sexta-feira sobre a permanência do titular da Fazenda, Dilma mostrou irritação. “O ministro não está enfraquecido, não existe essa hipótese e críticas são normais”, encerrou ela. Na prática, porém, a presidente está aborrecida com o tiroteio de Lula e do PT – que já derrubaram Levy – na direção de Barbosa.

O problema está nas medidas de ajuste fiscal. Para dar sustentação à proposta de conter o crescimento das despesas, o ministro defende a reforma da Previdência. Embora no Palácio do Planalto haja sinais de que o projeto pode ser deixado em banho-maria por tempo indeterminado, Barbosa ainda insiste em enviá-lo ao Congresso em maio.

“Todo mundo sabe que, tanto a reforma da Previdência quanto a CPMF são questões complexas e que exigirão muita dedicação da nossa parte”, afirmou Dilma. “Então, estamos avaliando.”

É justamente a reforma da Previdência que alimenta o “fogo amigo” contra Barbosa. Até mesmo em reunião com senadores do PMDB, na quarta-feira, Lula foi questionado sobre a conveniência de trocar Barbosa pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, mas desconversou.

A intensa preparação de medidas na Fazenda parece se chocar com o cenário em que o próprio governo pode estar perto do fim. “Não somos autistas a ponto de achar que a crise política não nos atinge, mas, independentemente disso, o Brasil continua”, disse um auxiliar de Barbosa. “Estamos preparando as bases para a retomada do crescimento.”

Reação. Por mais paradoxal que pareça, o governo começa a colecionar pequenos sinais de reação na economia. Na quarta-feira, por exemplo, foi divulgado que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro ficou em 0,9%, abaixo do que estimava o mercado. A produção industrial aumentou 0,4% em janeiro, em comparação com dezembro. O varejo, porém, apresentou queda de 1,5% no mesmo período. Alguns índices que medem a confiança de empresários e consumidores também começam a apresentar melhora.

O próprio mercado espera que a inflação fique mais comportada este ano. “Acho que haverá condições de os juros caírem em algum momento do segundo semestre”, disse o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. Para ele, o momento agudo de crise terá um desfecho em algumas semanas. “Pode ser um cenário mais ou menos desanuviado”, comentou. A expectativa é que, ao menos, seja afastada a incerteza dos dias atuais.

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