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Homens americanos desistem de trabalhar

Baixas remunerações aumentam o grupo dos 'desalentados' nos Estados Unidos

BINYAMIN APPELBAUM , THE NEW YORK TIMES

15 Dezembro 2014 | 02h03

ANNAPOLIS,  MARYLAND  - Frank Walsh ainda paga sua contribuição ao sindicato dos eletricistas, mas, no entanto, mais de quatro anos se passaram desde que seu nome foi chamado à sede do sindicato onde os poucos empregos disponíveis são distribuídos. Walsh, sua mulher e dois filhos vivem com a renda do trabalho em tempo parcial dela e de uma pequena herança deixada pela mãe dele, que está acabando.

Sentado na praça de alimentação de um shopping próximo à sua casa em Maryland, ele nota que alguns restaurantes estão contratando, e diz que não pode ficar muito mais tempo sem emprego, mas que ainda não está preparado para aceitar as ofertas que aparecem. "Eu trabalharia para eles, mas eles só estão pagando US$ 10 por hora", disse, apontando para um Chick-fil-A que provavelmente paga menos do que isso à maioria dos seus funcionários. "Tenho 49 anos e dois filhos - US$ 10 por hora simplesmente não vão ser suficientes."

O trabalho está em declínio nos Estados Unidos. A quantidade de homens na faixa etária mais produtiva - de 25 a 54 anos - que não está trabalhando mais que triplicou desde os anos 1960, para 16%. Mais recentemente, desde a virada do século, a proporção de mulheres sem emprego remunerado também vem aumentando. Os EUA, que tinham umas das mais altas taxas de emprego entre as nações desenvolvidas até 2000, caíram para o fim da lista.

No momento em que a economia lentamente se recupera da recessão, muitos homens e mulheres estão ansiosos para encontrar trabalho e estão dispostos a fazer grandes sacrifícios para isso. Muitos outros, porém, estão preferindo não trabalhar, segundo uma pesquisa feita pelo New York Times, pela CBS News e pela Kaiser Family Foundation que oferece um olhar detalhado sobre as vidas de 30 milhões de americanos com 25 a 54 anos que não têm trabalho.

Êxodo. Muitos homens, em particular, decidiram que empregos mal remunerados não melhorarão suas vidas, em parte porque mudanças na sociedade americana tornaram mais fácil para eles viver sem trabalho. Essas mudanças incluem a disponibilidade de benefícios federais por invalidez; o declínio do casamento, que significa menos homens provendo para filhos; e a ascensão da internet, que reduziu o isolamento do desempregado.

Ao mesmo tempo, ficou mais difícil para homens encontrar empregos bem remunerados. A competição estrangeira e avanços tecnológicos eliminaram muitos empregos nos quais as pessoas com formação apenas secundária como Walsh podiam ganhar US$ 40 por hora. A pesquisa revelou que 85% dos homens sem emprego na faixa etária mais produtiva não têm formação superior. E 34% disseram que tinham antecedentes criminais, o que dificulta encontrar qualquer emprego.

A ausência de milhões de trabalhadores em potencial do mercado tem sérias consequências não só para os homens e suas famílias, mas para a nação como um todo. Uma força de trabalho menor provavelmente acarretará um crescimento mais lento da economia e uma menor parcela da população para cobrir o custo do governo justo quando uma parcela maior procura ajuda.

"Eles não estão trabalhando porque não estão sendo remunerados o suficiente para trabalhar", disse Alan B. Krueger, economista de relações do trabalho e professor da Universidade de Princeton. "Significa que a economia está mais fraca."

A tendência foi reforçada pela última recessão. Em 2009, a taxa de homens sem trabalho chegou a 20% - depois, o índice se recuperou parcialmente. Mas a recuperação provavelmente não será completa. Sem saber o que fazer, muitas pessoas que param de trabalhar se esforçam para ficar em pé novamente. Alguns trabalhadores demoram anos para voltar ao mercado, enquanto outros não voltam jamais.

'Efeito dominó'. Além disso, um número crescente de pesquisas revela que filhos de pais que não trabalham são menos propensos a prosperar. "Os efeitos disso no longo prazo são grandes", disse Lawrence F. Katz, um professor de economia na Universidade de Harvard. "Podemos perder a próxima geração."

Para a maioria dos homens desempregados, a vida sem trabalho não é fácil. Em entrevistas de acompanhamento, cerca de duas dezenas de homens descreveram os dias passados principalmente em casa, consumindo recursos cada vez menores, dependendo de amigos, estranhos e do governo federal. A pesquisa revelou que 30% haviam usado cupons de alimentação, enquanto 33% disseram ter recebido comida de alguma organização religiosa ou sem fins lucrativos.

Os homens podem se sentir menos pressionados a encontrar emprego porque têm menos responsabilidade com a família. Somente 28% dos homens sem emprego - contra 58% das mulheres - disseram ter um filho menor de idade. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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