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Ideias que vêm de fora

MARINA GAZZONI - O Estado de S.Paulo

16 Julho 2012 | 03h 07

Nos últimos seis anos, o Buscapé lançou 8 empresas e adquiriu outras 17.Por que o gigante da internet brasileira compra tanto

Romero Rodrigues, fundador e presidente do Buscapé, está convencido de que, para enfrentar os concorrentes na área de tecnologia, os projetos gerados dentro da empresa não bastam. Além de colocar o time para trabalhar em novos projetos, Rodrigues foi ao mercado buscar inspiração e, principalmente, bons negócios. Nos últimos seis anos, o Buscapé comprou 17 empresas e lançou outras oito. As aquisições trouxeram oportunidades, novos talentos, mas também um grande desafio de integração. "Pensar em gerar inovação só dentro de casa é muito romântico, mas é irreal", explica Rodrigues.

O Buscapé costuma comprar uma fatia das empresas e manter os fundadores à frente do negócio - o que ocorreu em 16 das 17 empresas compradas. Os únicos que deixaram a empresa foram os fundadores do Pagamento Digital, que aproveitaram a venda de 91% do Buscapé ao fundo sul-africano Naspers, em 2009, por US$ 342 milhões, para se desfazer de suas ações.

A onda de aquisições colocou no mesmo grupo empresas que, aparentemente, parecem atuar em mercados bem diferentes. O Buscapé é controlador, por exemplo, do e-bit, de pesquisas sobre e-commerce, do clube de compras Brandsclub e da FControl, especializada em proteção contra fraudes online.

Mas, para Rodrigues, uma análise mais profunda mostra que todas têm um objetivo em comum: dar mais poder ao consumidor no processo de compra pela internet. "Fizemos uma consultoria de marca e descobrimos que essa é nossa essência, que é a mesma que tínhamos quando começamos o Buscapé", diz.

O Buscapé chegou ao mercado em 1999 com a proposta de colocar na mesma tela os preços que os varejistas cobravam por determinado produto. Acostumado a controlar todo o processo de venda, o varejo chegou a resistir ao modelo. "Perdemos o nosso primeiro anunciante, um fabricante de televisão, porque nos recusamos a apagar um comentário negativo sobre o produto dele feito na seção de avaliação de usuários", diz Rodrigues. "Mas ele voltou depois."

O plano de negócios do grupo Buscapé é formar um conjunto de empresas que deem suporte ao consumidor em todas as fases do e-commerce, do momento de decisão de compra até o pós-venda. Essa visão foi o ponto de partida da empresa para buscar as aquisições. "Sabíamos o que precisávamos e fomos procurar o que tinha no mercado", diz.

No setor de tecnologia, aquisições visam entrar em novos mercados, aumentar a base de clientes ou de conhecimento tecnológico, afirma o diretor da consultoria Naxentia, Miguel Abdo.

Quando a onda de compras coletivas chegou ao Brasil, por exemplo, o Buscapé entrou neste mercado com a aquisição do agregador de ofertas SaveMe, em setembro de 2010, fundado dois meses antes pelos publicitários Guilherme Wroclawski e Heitor Chaves. "Recebemos propostas de investimento de fundos de venture capital, mas queríamos um parceiro com know-how de e-commerce", diz Wroclawski.

Os fundadores do SaveMe também puderam negociar outra aquisição, mas desta vez, na posição de compradores. O SaveMe comprou o Moda It, que reúne ofertas na área de moda, e eles também são acionistas da nova empresa do grupo.

O agregador de ofertas de compras coletivas tinha faturamento zero quando entrou no grupo Buscapé. Mas, dentro do grupo, teve acesso imediato a uma estrutura de TI, capital, marketing e a escritórios em outras cidades no Brasil e no exterior para acelerar sua expansão. Hoje é a quarta receita da holding, atrás do próprio Buscapé, da área de pagamentos online e do BrandsClub. Juntas, as novatas somam 60% do faturamento do grupo. Há três anos, não representavam nem 10%.

Integração. A chegada das startups (empresas iniciantes) ao grupo fez o Buscapé repensar seu organograma nos últimos dois anos. A holding Buscapé Company foi criada para abrigar todas as empresas. Abaixo do cargo de CEO, ocupado por Rodrigues, estão sete vice-presidências de aérea de negócios, como pagamentos e comparadores de preço. Assim, a vice-presidência de pagamentos, por exemplo, coordena os negócios de empresas como Pagamento Digital e DineroMail. Há ainda outras sete vice-presidências de serviços, como financeiro e marketing, que dão suporte às várias empresas.

O Buscapé Company também precisou mudar para uma sede maior no ano passado. "Com o crescimento, a empresa foi se espalhando em vários andares e ficou muito fragmentada. A linha de comunicação ficou prejudicada", diz Rodrigues.

A ideia dele é colocar startup ao lado de startup para estimular a troca de ideias e projetos conjuntos. O SaveMe, por exemplo, fez uma parceria com o e-bit para desenvolver pesquisas semanais sobre o mercado de compras coletivas.

Mais sócios. Mesmo com todos os desafios que terá para integrar as 26 empresas da holding, o Buscapé continua com novas aquisições no radar. De tanto ser procurado por empreendedores que tentam vender seu projeto ao Buscapé, o grupo criou um concurso de startups no ano passado, o "Sua Ideia Vale Um Milhão". A empresa pretendia selecionar uma empresa para investir, mas acabou escolhendo quatro vencedores. Neste ano, fará uma segunda edição do desafio.

O reforço dos negócios do grupo não é à toa. O embate entre o Buscapé e os grupos internacionais de internet ainda é pequeno, mas deve se intensificar. Rodrigues vê três concorrentes de peso e só um deles está no Brasil: Google, Amazon e eBay. "Os outros vão chegar", ele diz.

Os modelos de negócio são diferentes. Mas, em comum, todos querem atrair o consumidor que busca produtos para comprar na internet. Para ganhar essa briga, o Buscapé terá de ser rápido para chegar antes dos concorrentes às boas ideias.

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