Laura Maia, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

A dificuldade de acompanhar os avanços da tecnologia não tem impedido que idosos, com 60, 70 anos, virem motoristas do Uber, anfitriões do Airbnb ou cuidadores de animais, oferecendo seus serviços em aplicativos de celular. A chamada economia do compartilhamento, além de ser um complemento de renda em tempos de crise econômica, é também uma forma de conhecer novas pessoas e se manter ativo.

Dados levantados a pedido do Estado pelo Airbnb, plataforma que conecta usuários de mais de 190 países para aluguel de quartos e apartamentos por temporada, mostram que o número de anfitriões com mais de 60 anos no Brasil mais que dobrou entre maio de 2015 e maio de 2016. É o maior salto porcentual (110,6%) de crescimento entre as faixas etárias que oferecem o serviço do site. Hoje, das 70 mil acomodações cadastradas no País, 8 mil são de anfitriões com mais de 60 anos.

Aos 75 anos, dona Vera Lúcia, moradora de Copacabana é uma delas. Mora sozinha e aluga dois dos três quartos do apartamento da família na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Cobra, em média, R$100 a diária por quarto. O dinheiro complementa a pensão que recebe desde a morte do marido, ajudando a pagar o plano de saúde e o condomínio.

Basta conversar cinco minutos com ela para perceber que a atividade traz outros benefícios além da renda. “Pera aí só um minuto que as meninas peruanas tão saindo”, interrompe a entrevista feita por telefone na noite da última quinta-feira. Do outro lado da linha é possível ouvir instruções, em um português bem pausado e articulado, de como pegar um táxi para ir à Lapa, bairro boêmio da capital carioca. “Eu fico preocupada com meus hóspedes, parece que são meus filhos”, justifica, ao voltar ao telefone.

O diretor-geral do Airbnb do Brasil, Leonardo Tristão, observa que mais de 50% dos anfitriões com mais de 60 anos são avaliados com nota máxima pelos hóspedes. “Costumam ser ainda mais receptivos e atenciosos do que a média – já alta – dos brasileiros.”

Para a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano, especialista em demografia, a tecnologia proporcionada por essas plataformas, apenas fomentou ainda mais atividades que já eram procuradas pelos idosos. “O movimento de aposentados que voltam ao mercado de trabalho por meio da prestação de serviços sempre existiu”, afirma. “Mas essas plataformas potencializaram atividades como a do aluguel de quartos e incentivaram outras que eram impossíveis sem aplicativos como o Uber, por exemplo.”

No carro. O aplicativo, que permite pedir carros com motoristas, não revela quantos de seus 10 mil parceiros têm mais de 60 anos. Mas não é raro ver senhores dessa idade rodando como motoristas do Uber por aí. É o caso de José Rodrigues Peres, de 68 anos. Aposentado há mais de dez anos, ele trabalhou até 2015 como técnico de supervisão de montagens de equipamentos em usinas hidrelétricas, mas, quando o contrato acabou, não conseguiu mais nada na área. “Hoje, consigo tirar uns R$ 1,2 mil por semana com o Uber. Apesar dos custos do carro serem bastante altos, é o que tem me ajudado a complementar a aposentadoria”, conta.

O pesquisador de Mercado de Trabalho do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) Bruno Ottoni acredita que, diante do envelhecimento da população e da necessidade de reformas da Previdência, daqui para a frente, haverá uma tendência cada vez maior de que os idosos busquem essa complementação de renda. “Fatalmente os idosos vão acabar sofrendo algumas perdas com as reformas que terão de ser realizadas. Do jeito que está desenhado, o sistema brasileiro está insustentável.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

A aposentadoria só dava para cobrir o aluguel, o trabalho como cabeleireira autônoma não garantia complemento de renda suficiente e, de quebra, a sua poodle de estimação, Lilika, tinha acabado de morrer aos 14 anos. Foi nesse contexto que a dona Jeanete Scriptore, de 70 anos, encontrou um jeito de ganhar dinheiro com uma de suas maiores paixões: cuidar de cachorros.

Estava fuçando sites na internet há cerca de dois anos, quando encontrou a Doghero, plataforma que conecta donos que buscam um lugar seguro para seus pets e pessoas dispostas a recebê-los em suas residências. “A oportunidade de cuidar de ‘peludos’ e ganhar dinheiro com isso me pareceu maravilhosa.” Janete cobra, em média, R$ 50 a diária da hospedagem.

No site, as avaliações de quem já experimentou seus serviços apontam para uma anfitriã cuidadosa, que já tem alguns hóspedes cativos.

O aplicativo foi adaptado para atender pessoas com a mesma faixa etária de Jeanete. As letras, por exemplo, foram ampliadas para facilitar a leitura. 

Mais conteúdo sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

O relógio marca 5h da manhã quando o aposentado José Rodrigues Peres, de 68 anos, sai de casa para dirigir seu Corolla pelas ruas da capital paulista como motorista do Uber. Por 40 anos ele trabalhou como técnico de supervisão de montagem de equipamentos de usinas hidrelétricas, mas ficou sem emprego em 2015. Depois de um ano sem conseguir nada na área, viu no aplicativo, em fevereiro deste ano, a oportunidade de seguir ativo. “Trabalhar, para mim, é saúde. Além de ajudar a complementar a minha aposentadoria, eu gosto de ter a responsabilidade de acordar cedo, arrumar as balas no carro e conhecer tanta gente diferente por aí.”

Peres conta que foi o filho que o incentivou e o ajudou com a tecnologia. Trocou de carro, de celular e tem conseguido tirar, em média, R$1,2 mil por semana. “Se contar os custos com o carro, não chega a um terço do que eu ganhava, mas o importante é estar trabalhando.” Ele ressalta que ainda quer voltar para sua área. “Quando o País voltar a crescer, quem sabe.”

Mais conteúdo sobre:
Uber Airbnb Terceira Idade

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

Dona Vera Lúcia tem 75 anos, mora sozinha em Copacabana, na zona sul do Rio, mas nos últimos meses já recebeu hóspedes dos quatro cantos do Brasil, da Argentina, do Peru e até do Japão no seu apartamento, por meio do Airbnb.

A ideia de se cadastrar há um ano na plataforma que conecta usuários de diferentes países para aluguel de temporada partiu de sua filha Ivana, que mora na Itália. E é de lá mesmo, que ela ajuda a mãe a gerenciar as reservas no site. “Não sei mexer direito na plataforma e no começo eu fiquei muito desconfiada em receber estranhos, mas hoje o meu problema é que me apego aos hóspedes”, brinca Vera Lúcia.

Ela conta que o dinheiro que consegue ao alugar dois dos três quartos do apartamento da família, complementa a pensão que recebe desde a morte do seu marido e a ajuda a pagar o condomínio e o plano de saúde. Em média, cada quarto é alugado por R$ 100 a diária, mas os preços variam de acordo com a demanda e a concorrência.

Vera Lúcia faz questão de dizer que apesar da idade, não tem “nada de paradona”, gosta de fazer ginástica de manhã, pintar nas horas vagas, escrever poesias e fazer palavras cruzadas. “Mas eu gosto mesmo é de conversar”, ressalta. E é aí que entram os hóspedes. Apesar de não falar outros idiomas, ela diz que sempre dá um jeito de se comunicar com eles para dar dicas sobre como se locomover e o que fazer na cidade. “Mas fico preocupada que nem mãe, quando eles demoram a chegar de noite. Às vezes me dá até taquicardia”, confessa.

Mas, o que ela gosta mesmo é de ter a casa movimentada e alguém para quem possa preparar um café.

Mais conteúdo sobre:
Airbnb Terceira Idade Tecnologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Laura Maia, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

O irlandês Peter Mangan vai lançar nas próximas semanas uma plataforma que funciona como uma espécie de Airbnb só para quem tem mais de 50 anos. No “Freebird Club”, a ideia é que os viajantes compartilhem não só acomodações, mas principalmente companhia em uma altura da vida em que as pessoas costumam ficar mais isoladas socialmente. 

Como surgiu a ideia da plataforma?

Eu moro em Dublin (capital da Irlanda), mas tenho uma casa no campo, onde eu cresci, que eu alugava pelo Airbnb. Meu pai, viúvo, aos 70 anos, era quem ficava com esses hóspedes. De repente, vi o quanto ele começou a se dar bem quando os viajantes eram mais velhos. Logo saía para tomar alguma coisa nos pubs da região, para jantar. Eles tinham muito em comum e foi daí que surgiu a ideia de adaptar o modelo do Airbnb e ir além, focando nessas pessoas mais velhas.

Qual a principal diferença em relação ao modelo do Airbnb?

A plataforma funciona primeiramente como um clube no qual só viajantes acima de 50 anos podem se cadastrar e há uma taxa de adesão, de  €20 a €25. Além disso, no nosso modelo, quem se cadastrar como anfitrião só pode oferecer quartos para aluguel e não a casa toda como é permitido no Airbnb. Isso porque o objetivo da plataforma é que essas pessoas convivam. Elas não selecionam só um lugar legal para ficar, mas a pessoa com a qual vão dividir esse tempo.

A idade dos usuários traz algum desafio novo para a plataforma?

Temos um time que pensa na acessibilidade do site. Para que a navegação seja simples, mas ao mesmo tempo interessante. Além disso, para que as pessoas sintam confiança na plataforma, exigiremos na adesão do clube cópia de passaportes, além de checar todos os dados do anfitrião. 

Vocês já receberam algum investimento?

Estamos em busca deles. Por enquanto, tocamos o projeto com os €75 mil que recebemos de prêmios (inclusive o da Comissão Europeia de Inovação Social).

Vocês vão atuar só na Europa ou pensam em expandir? 

O interesse pelo site tem sido bastante grande nos Estados Unidos e na Europa, mas recebemos cadastros também de pessoas da América do Sul, e até do Brasil. Inicialmente, queríamos começar aqui pela região do Reino Unido e da Irlanda, mas acho que teremos rapidamente uma atuação global, depende dos investimentos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.