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Impeachment se torna o ‘cenário-base’ no mercado

Gravações telefônicas e manifestações fizeram consultorias elevarem para mais de 70% a possibilidade de a presidente não concluir mandato

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Altamiro Silva Junior, Álvaro Campos, Denise Abarca e Luiz Guilherme Gerbelli,
O Estado de S. Paulo

17 Março 2016 | 21h33

A previsão de parte dos analistas para a economia já considera o impeachment da presidente Dilma Rousseff como o cenário mais provável. A probabilidade de interrupção do mandato da petista ganhou força nos últimos dias por causa das manifestações de domingo e pela revelação das gravações telefônicas envolvendo Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A consultoria americana Eurasia elevou de 65% para 75% a possibilidade de a presidente Dilma não terminar o seu mandato, de acordo com o relatório dos analistas da consultoria especializados em Brasil, Christopher Garman, João Augusto de Castro Neves e Cameron Combs. Na visão deles, a votação do impeachment no Congresso deve ocorrer em maio.

A expectativa por um novo governo tem ficado evidente no mercado financeiro. Apenas em março a Bolsa subiu 18,98%, e o dólar recuou 8,78%. Na leitura dos analistas, um novo governo poderia fazer com que os ajustes considerados necessários saíssem do papel, o que melhoraria as perspectivas para a economia brasileira

No começo do mês, a Eurasia estimava em 40% as chances de Dilma não terminar o mandato, porcentual que foi subindo de forma rápida nas últimas semanas, à medida que o cenário político se deteriorava, principalmente após as primeiras notícias da delação premiada do senador Delcídio Amaral.

A consultoria estima que Dilma tem hoje entre 85 e 90 deputados de esquerda que vão votar contra o impeachment, principalmente por motivos ideológicos. Para que o impedimento não seja aprovado, ela precisa de 172 dos 513 votos da casa. Ou seja, a presidente precisaria convencer 80 de 260 parlamentares de partidos de centro a não abandonarem o governo.

Mas, com a deterioração acelerada do ambiente político e as manifestações nas ruas ganhando força, o governo pode sofrer ainda mais deserções, segundo os analistas. 

Na segunda-feira, dia seguinte às manifestações, a Tendências Consultoria Integrada também passou a enxergar um risco maior de interrupção do governo. A probabilidade de um impeachment ocorrer já no primeiro semestre aumentou de 55% para 70%. O cenário engloba uma interrupção do mandato da presidente pelo impeachment ou pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Se o impeachment se materializar, deve ocorrer uma valorização dos ativos”, afirmou Rafael Cortez, cientista político da Tendências. “O que não está precificado é o pós-Dilma. Todo mundo está assumindo que a saída da presidente revolve o quadro político em termos de construção de governabilidade, mas isso não é necessariamente verdade”, afirmou Cortez

Esse cenário é bastante parecido com o da MB Associados. Segundo a consultoria, a probabilidade de interrupção do mandato da presidente é de 70%. “Esperamos que a queda (da presidente) se dê no máximo até metade do ano, mas, pelos acontecimentos, parece que será antes disso”, afirmou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.

Na avaliação do economista, um eventual governo do vice-presidente Michel Temer começaria com um momento de euforia, mas a transição até 2018 não será fácil. “Será um governo novo, com uma nova relação com o Congresso, provavelmente com o apoio do PSDB e de alguns partidos para aprovar reformas mínimas, mas ainda assim seria um momento politicamente conturbado até 2018.”

A MB Associados projeta uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,8% este ano já num cenário de fim de governo Dilma. Se a presidente permanecer no cargo, o recuo da economia brasileira deve ser de 4,9%.

Um mês. Para a consultoria, Michael Temer deverá assumir a presidência em pouco mais de 30 dias, período em que possivelmente estará aprovado no Congresso o impeachment da presidente Dilma. 

A previsão consta em relatório enviado para o Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. O cenário da MCM também foi alterado depois da divulgação das gravações de conversas telefônicas do ex-presidente Lula. “Sérgio Moro explodiu o governo Dilma e o ex-presidente Lula. Talvez, tenha se explodido também”, disseram os analistas, acrescentando que Moro será submetido a um processo junto ao Conselho Nacional de Justiça e pode ser punido.

“Dilma enfrentará um processo que será aberto pela Procuradoria-Geral da República e correrá no Supremo Tribunal Federal. Contudo, antes que este se resolva, ela, muito provavelmente, será afastada da Presidência da República, via impeachment aprovado no Congresso em cerca de trinta dias”, diz o texto. Os analistas ponderam que há dúvidas em torno das condições de governabilidade de Temer “nesse terreno minado no qual se transformou a política brasileira”.

A MCM destaca, ainda, que, diferentemente de domingo, nas manifestações de quinta havia “jovens enfrentando a polícia, tomando spray de pimenta na cara, gente jogando pedra, queimando pneus”. “Não havia babá empurrando carrinho. Esse tipo de manifestação é ‘leading indicator’ (indicador importante) para queda de governo”, informa o relatório da consultoria. Sobre Lula, a MCM afirma que “tampouco escapará de uma ação criminal”. 

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