MARCOS DE PAULA | ESTADÃO CONTEÚDO
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Incertezas inibem expansão na indústria

Para empresários, riscoé perder o ‘sopro de recuperação’ que economia vinha mostrando

Cleide Silva, Impresso

17 Junho 2017 | 17h00

Em meio a um processo ainda frágil de recuperação, a indústria brasileira teme ver abortados os sinais de crescimento da produção que já apareciam em setores como os de equipamentos de informática, eletrônicos, veículos, têxteis e máquinas agrícolas.

Para tentar manter esse recomeço e avançar mais no próximo ano, é praticamente unânime entre os empresários que as medidas adotadas pelo governo de Michel Temer, em especial as reformas trabalhista e da Previdência, investimentos em infraestrutura e corte de gastos tenham prosseguimento, independentemente de quem venha a ocupar o cargo.

“Não podemos correr o risco de estagnar lá embaixo”, diz José Augusto Fernandes, diretor de Políticas e Estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “Apesar de ser difícil um descolamento da crise política, é preciso ter uma equipe econômica que esteja à frente da agenda de reformas.”

Fernandes lembra que o cenário de incertezas tem afastado investimentos em novos projetos (os chamados greenfields). O presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Philipp Schiemer, confirma que o Brasil hoje já não está sendo considerado para novos investimentos, “porque não somos competitivos e a matriz prefere outros lugares”. Somente investimentos já aprovados estão mantidos.

Uma forma de reverter esse quadro, na visão de Schiemer, é a continuidade do projeto de modernização que o governo atual vinha adotando, com reformas e projetos de infraestrutura. “Isso criou um consenso entre a indústria e os agentes financeiros de que o Brasil estava mudando o rumo e indo no caminho certo. Hoje, a crise política está colocando em risco esse projeto.”

O presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), João Carlos Marchesan, espera maturidade por parte de deputados e senadores para aprovar as reformas. Ele conta que, antes de 17 de maio (data das delações dos sócios da JBS), ocorreram duas feiras de negócios do setor e houve grande procura por equipamentos.

Para muitas empresas, diz ele, esses negócios representariam até meio ano de pedidos. “Mas, agora, quase a totalidade está em compasso de espera”, diz o executivo. A expectativa da Abimaq, de crescimento de 5% no faturamento do setor neste ano, mudou. “Se parar de cair já vai ser bom”, diz Marchesan. Nos últimos três anos, o setor acumula queda de 50% nos negócios.

Sopro. Antonio Megale, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), espera uma definição rápida sobre o cenário político, “para que haja uma estabilização e a economia aproveite o sopro de recuperação para seguir adiante”.

Em sua opinião, é fundamental que as reformas comecem a ser aprovadas, primeiro pela trabalhista, o que, diz ele, possibilitará mais confiança aos investidores. “A medida trará maior segurança jurídica às empresas que vão trabalhar em um cenário mais previsível”. A reforma da Previdência, acrescenta, “mostrará ao mundo que o País começa a equacionar seu endividamento nessa área”.

O estágio em que o Brasil se encontra ainda é frágil e, dependendo de como for gerenciada a política econômica, será possível acelerar a retomada da economia ou acabar com ela, diz José Ronaldo Júnior, diretor de Macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“O Legislativo e o Executivo precisam ter responsabilidade neste momento, ter consciência de que a situação é grave e que não se pode perder a oportunidade de fazer as reformas”, diz Ronaldo Júnior.

O Ipea vem constatando melhoras nos investimentos, na atividade industrial, nos indicadores de comércio e na massa salarial, o que ajudaria na possível retomada do consumo.

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