Marcos Müller
Marcos Müller

Incógnitas na política e recuperação da economia

Não há nenhuma clareza de como se dará a reforma da política, mas a economia dá sinais de melhora

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 21h00

Antes que o conteúdo das delações da Odebrecht tivesse sido divulgado, todas as expressões que indicam calamidade foram empregadas. Foram as denúncias do fim do mundo, previsões de furacão iminente, tempestade perfeita, tsunami, terremoto, incêndio na floresta e tudo o mais.

As revelações vieram com toda força, abalaram reputações, mas as instituições estão intactas, as cotações do dólar não dispararam, a Bolsa não derreteu. E cada vez mais os adjetivos catastrofistas estão sendo substituídos pela nova percepção de que a Operação Lava Jato e o que vem em seguida são a grande oportunidade de passar o Brasil a limpo. Afinal, que países se dispuseram a enfrentar a divulgação e o ajuste de contas de suas próprias mazelas? Que nome dar a isso se não for o de uma passagem para a idade adulta? Há quem ainda aposte em que nada disso terá consequência e em que o Brasil logo esquecerá o que agora sabe... e será o irresponsável de sempre?

Os riscos ainda são enormes, ninguém sabe se, além do julgamento dos réus, virão as mudanças que impedirão repetição desse passado.

Mais que tudo, não há nenhuma clareza de como se dará a mãe de todas as reformas, a da política. Ninguém tem ideia de como serão encaminhadas as eleições do ano que vem. Será ano de Copa do Mundo e até meados de agosto não terá outro assunto que não seja futebol – mais uma limitação para nomes novos que queiram se apresentar para o eleitor e se viabilizar nas urnas. E as reformas, sem as quais não se chegará a porto seguro, não estão nem um pouco asseguradas.

O que se pode dizer é que, por força do princípio conhecido de que não há vácuo em política, alguém haverá de aparecer para liderar o País. 

Também se pode dizer que se multiplicam os sinais de que a economia começa a se recuperar da maior recessão de sua história. Não é apenas o comportamento do Índice da Atividade Econômica (IBC-Br) medido pelo Banco Central que apontou expressivo avanço em fevereiro. O despejo de R$ 35 bilhões das contas inativas do FGTS vem contribuindo significativamente para a redução do endividamento das famílias, já que cerca de 90% dos recursos estão sendo usados para pagamento de dívidas. Se aumenta a capacidade de tomada de crédito, também deve melhorar o consumo. 

A arrecadação começa a sair do fundo do poço, a inflação vai mergulhando para os 4% ao ano, os juros básicos vão atrás: já estiveram a 14,25% ao ano, hoje estão a 11,25% e ao final do ano deverão fechar nos 8,50% ao ano. É um fator que, além de reduzir os custos da atividade econômica, deverá reduzir o próprio endividamento do Tesouro. As contas externas vêm tendo excelente comportamento, o risco Brasil, que estava nos 500 pontos no início de 2016, agora foi para os 220 pontos. Não há crise cambial, como tantas vezes aconteceu nas crises dos anos 80. As exportações já crescem em 2017 a 24,4% em relação ao mesmo período do ano passado, o setor do agronegócio vai bombando, com crescimento previsto de 25% neste ano. Os leilões de concessão estão sendo retomados. Ainda não dá para dizer que o emprego, último setor a se recuperar nas crises, já esteja em reversão. Mas já há alguns sinais disso, especialmente o do aumento das contratações pela indústria.

O resto é esperar para ver.

CONFIRA:

No gráfico, a trajetória do dólar na crise de 2017. Na acumulada do ano, queda de 3,26%. 

Sete o quê?

O BNDES, mesmo ao longo da direção de Luciano Coutinho, durante o governo Dilma, recusou-se a financiar, por serem economicamente inviáveis, todos os projetos da Sete Brasil, a empresa encarregada da construção de 28 sondas para a Petrobrás. Pergunta que não quer calar: nessas condições, como cumprir as exigências de conteúdo local?

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