Epitacio Pessoa/Estadao
Epitacio Pessoa/Estadao

Indicador de atividade econômica recua 0,38% em agosto e avaliação sobre retomada fica dividida

Depois de dois meses em alta, o IBC-Br recuou no 8º mês do ano; apesar do otimismo dos analistas, economista pondera que é cedo para apostar em recuperação

Thaís Barcellos, Francisco Carlos de Assis e Jéssica Kruckenfellner, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2017 | 15h33

O otimismo do governo federal e dos economistas quanto a retomada da economia pode não se refletir em uma recuperação efetiva. Depois de dois meses em alta, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,38% em agosto. 

 Os economistas consultados pelo Broadcast/Estadão avaliam que a queda no indicador não paralisa o processo de recuperação em curso, mas indica um comportamento volátil condizente com a retomada incipiente e gradual.

O desempenho desfavorável de agosto, acrescentam, não deve impedir novo crescimento da economia no terceiro trimestre, que pode ser, inclusive, mais forte que o registrado no segundo trimestre, de 0,2%. Para o PIB do ano, as expectativas estão entre 0,7% e 0,9%.

Sazonal. Apesar da avaliação positiva, o economista do Insper, Otto Nogami, lembra que a aceleração na atividade econômica nos últimos meses do ano é tradicionalmente puxada pela alta do consumo nessa época.

"É esperado que você tenha uma alta da atividade, porque a demanda tende a crescer nos últimos meses. Mas isso é sazonal", afirma Nogami. 

Os sinais efetivos de melhora da economia só devem aparecem, explica o economista, a partir dos meses de novembro e dezembro. "Se o indicador de atividade mantiver a trajetória de alta a partir desses meses, aí sim teremos sinais de melhora", diz.

Depois da virada do ano, se a atividade econômica continuar crescendo, teremos ainda dois eventos importantes que podem afetar o consumo no País, acrescenta Nogami: a Copa do Mundo e as eleições.

Indicador. O IBC-Br caiu 0,38% em agosto na comparação com julho, com ajuste sazonal, um resultado ligeiramente pior do que a mediana do Projeções Broadcast, que previa queda de 0,30%, a partir do intervalo de recuo de 1% a alta de 0,10%.

Em julho, o indicador do BC teve alta de 0,36%. Frente a agosto de 2016, o indicador continuou a subir (1,64%), embora tenha ficado aquém da mediana de 1,90% (intervalo de 1,30% a 2,30%).

Com a estimativa mediana do serviço especializado do Broadcast, de -0,30%, a economista Natalia Cotarelli, do Banco ABC Brasil, não se surpreendeu com o resultado do IBC-Br, sobre o qual diz que não interrompe o processo de retomada. "Reforça que será volátil."

"Em sua maioria, os dados [mais recentes] de atividade decepcionaram um pouco, depois de uma surpresa razoável em julho. Mas nada que mude o cenário de forma relevante [de retomada]", reforça o economista Igor Velecico, do Bradesco.

A produção industrial e as vendas do varejo ampliado tiveram alta em julho e depois caíram no mês seguinte. Só o volume de serviços cedeu nos dois meses.

O economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Melo, destaca o aumento do IBC-Br na comparação com agosto de 2016 como outro argumento a favor da continuidade do processo de recuperação.

"Há uma melhora relativamente espalhada. Talvez a parte de serviços é que esteja um pouco atrás. A melhora nas condições financeiras, o processo de desalavancagem das famílias e das empresas, além da queda dos juros devem continuar contribuindo com um ambiente mais favorável para o consumo, para retomada", avalia.

PIB. A tendência, segundo Velecico, do Bradesco, é de que a percepção de melhora da atividade fique cada vez mais evidente. A expectativa do Bradesco é de aumento entre 0,2% e 0,3% para o PIB do terceiro trimestre, de 0,5% para o quarto e de 0,9% para o PIB do ano.

Nos cálculos do economista Flávio Serrano, do Haitong Banco de Investimento, o crescimento do PIB de julho a setembro pode ser ainda maior, de 0,40%. O IBC-Br, segundo ele, deve crescer mais, já que, o dado de agosto, deixou herança estatística de 0,40% e a expectativa para setembro é positiva, principalmente na indústria. Para este ano, Serrano prevê expansão da economia de 0,7%.

Hoje, o ministro da Planejamento, Dyogo Oliveira, reafirmou que o PIB pode crescer 0,7% este ano ou até mesmo superar este patamar, apesar da estimativa oficial do governo indicar alta de 0,5%, citando melhores indicadores de emprego, de consumo e de produção industrial e agrícola.

O cenário do economista Marco Caruso, do Banco Pine, que também aposta em elevação de 0,7% do PIB no ano, considera ainda alguma contribuição pequena do investimento no segundo semestre, já começando no terceiro trimestre, além do consumo.

Caruso explica que, apesar da ociosidade, as empresas devem investir porque não recuperaram a depreciação de suas máquinas. E diante da expectativa de retomada econômica, diz o economista, é necessário recompor o maquinário que ficou "velho".

"O excesso de capacidade limita os investimentos, mas não totalmente", reforça. Além disso, diz, só agora no segundo semestre os investimentos estão começando a se beneficiar da queda da Selic devido a uma típica defasagem.

Queda. Diferentemente dos outros economistas consultados, para o consultor econômico e sócio-diretor da Global Financial Advisor, Miguel Daoud, a queda do IBC-Br de agosto não é pontual e deve se repetir nos próximos meses.

"Estamos voltando à ordem natural das coisas dentro da realidade brasileira", diz ele citando os graves problemas fiscais.

"O governo fez muito marketing em cima de uma melhora da economia, que se deu por um fator pontual, que foi a liberação dos recursos das contas inativas do FGTS", comenta Daoud.

A perspectiva negativa para os próximos meses, completa, deriva da percepção de que economia deixará de contar com a queda de alimentos, limitando as sobras no orçamento para a compra de produtos menos essenciais.

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