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Indústria perde competitividade com aumento da tarifa de energia

De 2013 para cá, preço da energia, que representa mais de 40% dos custos de produção do setor, saltou quase 80%, para R$ 387 o MWh

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2017 | 04h00

A escalada do preço da energia elétrica tem derrubado a competitividade da indústria brasileira. De 2013 para cá, a tarifa cobrada do setor subiu quase 80% (para R$ 387,63 o megawatt/hora), num movimento que só havia sido verificado no pós-racionamento de 2001, segundo levantamento feito pelo Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético (Ilumina). O resultado tem sido o fechamento de fábricas, como ocorreu no setor de alumínio, e a migração de unidades produtivas para outros países, a exemplo do vizinho Paraguai.

Principal insumo usado por 79% das empresas, a eletricidade pode representar mais de 40% dos custos de produção, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Ou seja, qualquer movimento nas tarifas tem forte impacto na competitividade tanto daquelas empresas que exportam como das indústrias voltadas apenas para o mercado doméstico, que concorrem com o produto importado.

O setor de alumínio é um exemplo de como o preço da energia sufoca a indústria. Em 2001, o peso do insumo representava 26,7% do custo total de produção de alumínio primário. No ano passado, esse porcentual tinha saltado para 70%, segundo a Abal, associação que representa o segmento. Com a pressão de custos, cinco plantas encerraram as atividades, reduzindo a participação do setor na economia.

Esse cenário reduziu a produção nacional pela metade, de 1,75 milhão em 2007 para 800 mil toneladas este ano. “O que mais pesou para esse resultado foi o preço da energia. Se fôssemos competitivos, continuaríamos produzindo, como outras nações fizeram”, diz o presidente da Abal, Milton Rego. Desde 2009, o País caiu do 6.º para o 10.º lugar no ranking mundial de produção de alumínio primário.

Para entender como a situação chegou nesse ponto, basta comparar a evolução dos preços da energia com a inflação. De acordo com os dados do Ilumina, de 1995 (quando começaram as privatizações) até agora, as tarifas tiveram aumento real da ordem de 131%. Se outras variáveis não interferissem no preço, a tarifa estaria hoje em R$ 174 o MWh. Mas, nos últimos anos, a tarifa virou um varal para pendurar vários tipos de encargos e despesas.

Além disso, as chuvas abaixo da média obrigaram o País a usar térmicas caras para compensar a queda no nível dos reservatórios. O secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa, afirma que o avanço do preço da energia é resultado de dois movimentos: um é conjuntural, explicado pele estresse hídrico que esvaziou os reservatórios desde 2012; o outro é estrutural e inclui um excesso de encargos que já chega a R$ 16 bilhões e pode explodir no futuro.

“Estamos trabalhando para reduzir isso, mas não há mágica. Já fizeram muita mágica nos últimos anos, que voltou como um boomerang no setor”, afirma ele, referindo-se à MP 579, editada em 2013 pela ex-presidente Dilma Rousseff para reduzir o preço da energia, mas que teve efeito inverso. Enquanto as medidas não chegam, as empresas estão apreensivas.

O presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Edvaldo Santana, afirma que cálculos apontam para aumentos da ordem de 25% a 30% no ano que vem por causa do risco hidrológico. “Mesmo que o índice de chuva fique dentro da média, os reservatórios não serão totalmente recuperados.” O problema será se a demanda voltar a crescer por causa da retomada da economia, diz o executivo. “É um cenário complicado, semelhante ao de 2000 (no pré-racionamento).”

Esse cenário negativo, com imprevisibilidade em relação aos preços, mexe de forma significativa no plano de negócios das empresas. Muitas delas, no entanto, já adotaram estratégias radicais de transferir a produção para outros países. Um exemplo é o Paraguai, que tem recebido investimento de empresas brasileiras em busca de custos mais baixos, sendo o principal deles a energia.

Entre as empresas que estão investindo no País vizinho estão Riachuelo e a produtora de ferro-liga mineira Granha Ligas. No segundo caso, a empresa fez uma joint venture com a Saint Gobain. Vale lembrar que a energia elétrica do Paraguai é produzida pela hidrelétrica Itaipu Binacional, cuja maioria da energia é vendida no Brasil.

“Hoje a tarifa média do País deve estar entre as 5 ou 6 maiores do mundo”, diz Santana. Nos Estados Unidos, o preço da energia (com impostos) é da ordem de US$ 69; no México, US$ 82; e no Canadá, US$ 78. No Brasil, a tarifa é de US$ 124, sem imposto (ou cerca de US$ 164, com impostos). “Precisamos desarmar o setor, que é cheio de subsídios”, diz Pedrosa.

Mercado livre. O aumento das tarifas provocou uma forte migração do chamado mercado cativo (aquele atendido pelas distribuidoras) para o mercado livre, onde o consumidor negocia diretamente com o gerador o contrato de energia. Até meados de 2015, eram 1.800 consumidores livres. Esse número saltou para mais de 5 mil neste ano, afirma o presidente da comercializadora de energia Comerc, Cristopher Vlavianos. Com isso, a participação desse mercado no País subiu de 26% para 30% de todo o sistema.

“Com a pressão sobre a tarifa regulada, o mercado livre se tornou muito atraente para a indústria”, disse o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales. Nos últimos meses, porém, o movimento de migração arrefeceu. O motivo foi o aumento no preço do mercado à vista, que em outubro atingiu o limite de R$ 533,82 o megawatt/hora (MWh). Os preços desse mercado são voláteis e sensíveis à hidrologia.

Em períodos sem chuvas o preço sobe. Em novembro, com o início do período chuvoso e ligeira melhora nos níveis dos reservatórios, os preços recuaram para R$ 208 o MWh. Neste início de mês, no entanto, subiram para R$ 220. Ou seja, a indústria não tem para onde correr. No mercado livre ou no regulado, os preços estão em alta. 

 

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