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Inflação argentina cria nova classe média às avessas

Com a renda encolhendo e sem perspectivas, essa camada da população consome cada vez menos

Alexa Salomão (Texto) e Daniel Teixeira (Fotos) - Enviados especiais

05 Julho 2014 | 18h 16

BUENOS AIRES - Nas últimas semanas, a Argentina ganhou projeção internacional por causa do impasse criado em torno da reestruturação de sua dívida. Qualquer argentino médio tem consciência da gravidade do momento. Em conversas triviais é possível ouvir garçons e balconistas explicarem que "o país esta à beira do default" - assim mesmo, usando o termo em inglês para calote. A polêmica em torno da dívida, porém, é o capítulo mais ruidoso de uma crise que mina os pilares da estabilidade local. Na Argentina, há retração dos investimentos, recessão técnica, demissões e - o que mais preocupa - inflação. 

O declínio da Argentina

Centro comercial da Villa 31, uma das maiores favelas da Argentina, onde a população pobre tem acesso a produtos mais baratos, muitos deles importados ilegalmente

O comércio faz um bom resumo do atual estado de ânimo. Buenos Aires, a capital, está tomada por cartazes e faixas com os dizeres "sale", "liquidación" e "promo" - as muitas maneiras de se anunciar promoções. Há ofertas em restaurantes, farmácias, shoppings, bem como nos charmosos cafés, que são a marca da cidade. As liquidações valem até para calçados e roupas da coleção do inverno que começou há apenas duas semanas. 

 

As promos foram adotadas até por lugares resistentes à estratégia, como o bistrô Torcuato & Regina, na Praça San Martín, no bairro Retiro. Com decoração clássica e lustres de cristais, o local foi inaugurado em 2007, quando a Argentina parecia embicar. Era uma homenagem a Torcuato Alvear, presidente no final dos anos 20, momento áureo do passado, e ao novo ciclo do país. O crescimento frustrou-se e o bistrô já teria fechado as portas se não tivesse caído no gosto dos turistas.

Mesmo os argentinos de posses relutam em gastar. Na Avenida Alvear, no bairro de Recoleta, ponto das marcas de luxo, os cartazes anunciando descontos parecem invisíveis para as senhoras que passeiam com casacos de pele adquiridos em outros tempos. Em Porto Madero, o bairro planejado para a alta renda, as vendas de carros de luxo caíram 60% neste ano.

As vendas bombam num ponto bem particular da cidade: nos camelôs que se aglomeram na parte central da Avenida Corrientes. Há tantos, que as calçadas lembram a 25 de Março, rua de produtos populares em São Paulo. Peruanos, bolivianos e agora senegaleses vendem de tudo a preços bem mais em conta porque os produtos são contrabandeados e livres de impostos. À noite, Corrientes exibe uma face mais constrangedora. Conhecida por ser a alma da boemia portenha, cai em sono profundo. “Se alguém me dissesse que eu veria algo assim, chamaria de louco: as pessoas lotavam calçadas, restaurantes, teatros e eu só ia para casa depois das 5 horas”, diz Anibal Ferreira, 60 anos, taxista há 40, que hoje pena à procura de passageiros pela Corrientes. 

Entre os argentinos, uma frase usada para justificar tanto desalento é: “La plata não vence”, numa tradução livre, “O dinheiro está curto”. De fato, encurtou, corroído pela inflação que vem tirando o poder de compra das famílias, principalmente as de classe média, e alterando o modo de vida que os argentinos prezam e não acham nada agradável perder.

Mais pobres. O advogado Leandro Pablo Bottignole, casado, pai de dois filhos, não consegue levar as crianças ao teatro e ao cinema sem gastar mais do que deveria. “Não quero saber se a taxa de inflação é de 1% ou de 5% - porque o governo esconde o valor exato”, diz. “Me interessa quanto posso comprar com o que ganho e já não consigo comprar quase nada porque os preços não param de subir e o que ganhamos não acompanha.” 

Bottignole usou as próprias roupas para explicar a situação. Na entrevista, usava versões básicas de uma calça Levi’s e de um tênis All Star, já meio batidos. Hoje, as duas peças custam na Argentina cerca de 1,8 mil pesos - o equivalente a 10% da renda dos Bottignoles, que é de 17 mil pesos. “Há um ano, eu podia comprar essas coisas, hoje não”, diz. “Por isso os argentinos querem ter dólares: a moeda americana não perde valor.” 

Para os mais jovens, a nova realidade é um escorregador social. Em 2009, Pedro Joaquim Gerbelle, de 23 anos, deixou Ranchos, cidade da Província de Buenos Aires, para estudar Ciências Políticas na capital. Como a família teve dificuldades para mantê-lo, procurou emprego - em vão. Acabou trabalhando numa produtora de vídeos de familiares. Diante da realidade do mercado, chegou à conclusão que escolhera o curso errado. Largou a faculdade e se dedica apenas à produção de vídeos. 

Pela sua origem, o natural é que Gerbelle estivesse numa condição mais tranquila. É neto de um executivo da multinacional Nestlé e de um dono de uma casa de leilões. A mãe conhece países da Europa, fala francês e catalão. O pai fez incursões pela política. Ambos são veterinários, nunca trabalharam até se formarem e criaram os filhos para seguir o mesmo caminho. Os altos e baixos da economia, porém, mudaram a rota. “Quando olho para trás, vejo que fui criado numa família de classe média alta, mas hoje vivemos como classe média baixa”, diz Gerbelle. “Às vezes, é estranho, porque não fomos preparados para isso.”

Nesse ambiente adverso, o que as pessoas mais temem é perder o emprego. Marcos Vázquez, 34 anos, é um dos 140 operários demitidos neste ano pela Gestamp, fabricante de autopeças espanhola. Desde maio, protesta o quanto pode para recuperar a vaga que lhe garantia 9 mil pesos por mês. Na quarta-feira, trajando o macacão da ex-empregadora, Vázquez engrossava uma mobilização na porta do Ministério do Trabalho que reclamava a contratação de operários de outra empresa, a americana Lear. “Onde vou arrumar emprego? Posso até tentar em outros setores, mas com a situação como está não sei se vou encontrar alguma coisa.” 

Crise de confiança é o pano de fundo comum em diferentes crises 

Falta de confiança é o pano de fundo da instabilidade na Argentina. Na história recente, os argentinos comparam qualquer dissabor econômico à profunda crise de 2001. Nada lhes parece pior. Naquele ano, a desconfiança dos investidores alimentou uma fuga de capitais e o governo, sem conseguir conter a sangria, pôs fim a paridade entre o peso e o dólar, instituída em 1999. Do dia para a noite, pulverizaram-se a estrutura financeira, as vagas de trabalho e o consumismo edílico por viagens e produtos internacionais mantido pela paridade cambial. 

O cenário caótico incluiu o calote da dívida, cujos efeitos, em parte, alimentam a instabilidade que hoje se vê. Existe um alívio coletivo pelo fato de o país não estar revivendo uma pancada do gênero. Mas há uma crise de confiança, mais sutil, em relação às políticas que levam à crise atual. O congelamento das tarifas de transporte, gás e energia, por meio de subsídios a empresas privadas, inibiu investimentos e sucatearam a infraestrutura. 

O controle de preços de produtos agrícolas retraiu a produção de carne e de trigo. A política industrial nacionalista reduziu a competitividade do setor automotivo. A falta de transparência nas pesquisas sobre inflação tiraram credibilidade dos dados oficiais.

 

Mais pobres se sentem protegidos

Programas de assistência pública, espírito colaborativo e consumo de produtos mais baratos graças a sonegação de impostos aliviam dificuldades

BUENOS AIRES - A vida dos mais pobres costuma piorar nas crises. Na Argentina, não é diferente, mas o país tem paliativos para essa camada da população. O conjunto de favelas conhecido como Villa 31 e Villa Bis, por exemplo, o maior complexo do gênero em Buenos Aires, não para de crescer. Estima-se que, nos últimos cinco anos, tenha recebido 13 mil novos moradores e a população já passe de 40 mil. 

Daniel Teixeira/Estadão

“As pessoas deixam as províncias e outros países em busca de oportunidade, se hospedam em casas de amigos ou parentes e vão ficando - pode parecer que as coisas não vão bem aqui, mas de onde essas pessoas vieram está pior”, diz a paraguaia Silvia Manzoni, moradora há 30 anos e uma das representantes da comunidade na prefeitura - no jargão local, uma delegada. 

O portenho médio evita as cercanias da 31, mas quem está do lado de dentro diz que tem muitas vantagens. “Nenhum produto que entra aqui pagou impostos, as coisas são muito mais baratas”, explica Maria Gutierrez, que tem uma loja de colchões na rua comercial do complexo, um centro de compras completo. 

Também não é difícil encontrar moradia a baixo preço. Para acomodar os recém-chegados, as casas ganham pisos. O novo andar é acessado por escadas de metal em forma de caracol, fixadas na parte externa da estrutura. Há casas com seis, oito pavimentos. Construí-los custa pouco. O material é comprado com as vantagens já descritas e a obra é feita em regime de mutirão. 

Assistência pública. Quem vive nas “villas” ainda recebe auxílios do governo. Há de tudo: cestas básicas, tíquetes. E até pagamentos em dinheiro que lembram o Bolsa Família do Brasil. A diferença é que lá a proporção de assistidos impressiona. Pelas estimativas da Universidade Católica Argentina, 23% da população - algo como 10 milhões de pessoas - está em um dos muitos planos de assistência social do governo. 

Do outro lado da cidade, num complexo que reúne as Villas 11, 14 e 21, Elizabeth Garay, jovem mãe de 23 anos, todos os dias leva Emanuel de um ano e Brisa, de 5 anos, para tomar café da manhã e almoçar no La Gemelas, um dos 350 “comedores” da capital. Os comedores são restaurantes populares mantidos pela prefeitura em áreas carentes, mas administrado por moradores. Lá a comida é de graça. 

O casal Suzana Quiroga e Carlos Gimenez, responsável pelo refeitório e pela preparação da comida do La Gemalas há mais de 20 anos, está preocupado. “Deveríamos servir 300 refeições, passamos para 350 e agora são 400 - cada vez mais gente vem comer ”, diz Suzana. “Apesar de o governo negar, as coisas estão mais difíceis e a comida mais cara - muita gente não consegue se manter”, completa Gimenez.

Um dos programas mais ativos no momento é o da prefeitura de Buenos Aires que tem base de apoio com cozinha, posto de saúde e 50 vans para tentar alimentar e levar quem dorme nas ruas para abrigos instalados em 11 ginásios esportivos. Segundo a prefeitura, é pequeno o número de pessoas assistidas que podem ser consideradas vítimas exclusivas da crise. No entanto, na noite de terça-feira passada, entre os que buscavam um prato de sopa quente estava Maurício Oscar, desempregado de 29 anos, frustrado porque acabara de gastar seus últimos pesos.

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