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Inflação reduz idas a supermercados

Márcia De Chiara - O Estado de S. Paulo

21 Junho 2014 | 03h 00

Para economizar, famílias voltam a usar estratégias de períodos de preços altos: retomam ‘compras do mês’, quando levam mais itens

Com menos dinheiro no bolso, o brasileiro está dando um “jeitinho” para conseguir compatibilizar os gastos obrigatórios de supermercado com o orçamento apertado, a fim de manter itens que passaram a fazer parte da lista de compras em períodos recentes. No primeiro trimestre deste ano, as famílias cortaram em duas vezes as idas aos pontos de venda para comprar alimentos, bebidas e itens de higiene e limpeza em comparação ao mesmo período de 2013. Ou seja, quem ia 10 vezes por mês passou a ir só 8 vezes ao ponto de venda.

Isso é o que revela uma pesquisa do instituto Kantar Worldpanel, que visita semanalmente 11,3 mil domicílios em todo o País para radiografar o consumo de cerca de 80 itens de uso diário. “As famílias estão racionalizando o consumo”, diz Christine Pereira, diretora comercial do instituto e responsável pela pesquisa. 

Ela diz que uma conjugação de fatores desfavoráveis, como a inflação elevada combinada com o menor crescimento da renda e do emprego, além da concorrência dos gastos com itens básicos e com o de outras despesas, como internet e TV a cabo, provocou a mudança no comportamento de compras.

Classes sociais. A pesquisa mostra que o movimento de reduzir a ida às lojas ocorreu em todas as classes sociais, mas com menor intensidade entre os mais abastados, que cortaram uma visita ao ponto de venda. “O consumidor está indo menos vezes ao ponto de venda para comprar, mas está indo mais vezes para pesquisar”, diz o gerente do departamento econômico e de pesquisas da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Rodrigo Mariano. Ele observa que essa estratégia de compra remete a períodos de inflação elevada de décadas passadas e que agora está de volta à cena.

Apesar de ir menos vezes ao ponto de venda, a pesquisa mostra que o consumidor, quando vai às compras, está levando mais itens. Na média, houve um crescimento de 7% no número de itens adicionais comprados a cada visita ao supermercado no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2013. As classes D e E estão puxando para cima essa média, com acréscimo de 12% na compra de itens adicionais a cada visita.

Marcha à ré. “As classes D e E não andaram para trás”, afirma Christine. Segundo ela, apesar terem menos dinheiro no bolso, o peso do consumo de alimentos e bebidas no orçamento das famílias dessas camadas sociais é muito alto, chega a 35%, em comparação a 18% nas classes A e B e 29% na classe C. Por isso, a concorrência entre o gasto com itens básicos e outras despesas nas classes D e E é menor. Além disso, ela observa que as classes com menos renda não excluíram itens incorporados recentemente à lista de compras.

Pratos prontos congelados, sucos prontos, limpadores, fraldas, por exemplo, que são itens que envolvem praticidade, continuaram sendo as estrelas do consumo no primeiro trimestre, segundo a pesquisa.

Para manter a compra desses itens que têm preços mais elevados comparados aos básicos, o consumidor tem procurado embalagens menores que permitem o acesso ao produto, mas com um desembolso menor. Um exemplo típico é o refrigerante de marca, lembra Mariano, da Apas. “O consumidor, que antes levava para casa a embalagem de dois litros, compra agora a de um litro, mas não deixa de comprar.”

Enquanto as embalagens fracionadas de itens mais caros ganharam a preferência do consumidor, são as embalagens maiores as mais procuradas para compra de itens básicos, revela a pesquisa. “As embalagens econômicas, do tipo leve três pague dois têm sido as preferidas”, diz o gerente da Apas.

Além de embalagens maiores ou menores, dependendo do produto, de um número menor de visitas ao ponto de venda, a mudança do cenário econômico fez com que os hipermercados e as lojas de atacado voltassem a ganhar a preferência do consumidor. Esses formatos de loja oferecem mais descontos no preço, diz Christine. 

Segundo a pesquisa, no primeiro trimestre, o volume de vendas nos atacados cresceu 26% em relação ao mesmo período de 2013, seguido pelos hipermercados, com 11%.